Bento XVI
A grande surpresa
Os meios de comunicação social, com destaque para as televisões, fizeram uma cobertura como nunca, quer das exéquias de João Paulo II, quer da eleição de Bento XVI. Com certeza que, para além da figura mediática do Papa, com características inatas de comunicador, variadíssimos motivos estão por detrás de tal destaque, a que não será alheia a conquista de audiências. Mas foi de tal ordem a envolvência das televisões portuguesas, que até pareciam de inspiração cristã, como me comentou um Ministro. Importantíssimo será também assinalar que João Paulo II teve, na Carta Apostólica Rápido Desenvolvimento, o seu último documento oficial, dirigido aos responsáveis da comunicação social, o que constitui um verdadeiro testamento à Igreja. Mais do que circunstância episódica, ele assinala a manifestação duma sincera conversão da Igreja à comunicação social, exprimindo a viragem do Vaticano II, e documentação posterior, ao uso dos meios de comunicação social. Sintomático é também que o primeiro acto público de Bento XVI, |
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"humilde servo da Vinha do Senhor", após a sua eleição, tenha sido uma conferência de imprensa, simplesmente para agradecer aos jornalistas o que fazem pela comunicação social no mundo, e, dum modo especial, a cobertura das exéquias de João Paulo II e da sua eleição.
Os jornalistas, habituados aos processos comuns da sociedade, apoiados em campanhas e sondagens, lá iam vaticinando alguns nomes como mais papáveis. Entre eles estava naturalmente Ratzinger. Contudo, prevenidos com situações anteriores, sempre iam afirmando que normalmente o eleito é uma surpresa. E, após o escrutínio do 1º dia, houve quem desabafasse nas câmaras de televisão que estava afastada a hipótese de Ratzinger, que contaria à partida já com 50 votos. Como não foi à primeira, já não seria! Mas a surpresa não se fez esperar, após o fumo branco, em que o seu nome é confirmado. "Apesar dos 78 anos", como também comentava um artigo de opinião no Expresso, sendo no seu ponto de vista o motivo mais polémico. Mas, uma vez mais, o Conclave surpreendeu, com este e outros entraves normalmente apontados.
Mais uma surpresa: foi desfeito o mito dos ditos, de que "quem entra papável no Conclave sai cardeal". Assim, as previsões humanas falham, porque o Espírito sopra como quer. A partir de agora, quem entra papável "arrisca-se" a sair mesmo papa! Os prognósticos, esses sim, estarão a ser sempre alterados. Aliás, é também o que se verificou com a escolha do nome. João Paulo III ou João XXIV eram os mais apontados. Ninguém esperaria que saísse "Bento". Já ouvi mesmo quem não encare bem com tal preferência. Mas, em continuidade com Bento XV, na abertura da Igreja à sociedade, e sobretudo com S. Bento (séc.V), grande evangelizador da Europa, e seu patrono, a intenção é clara, quando se torna urgente devolver o coração ao velho Continente, a necessitar do novo dinamismo da Boa Nova de Jesus Cristo.
Quando presidiu à primeira Eucaristia, concelebrada com os Cardeais que estiveram no Conclave, toda a gente estava à espera da primeira homilia, e ela não surgiu. A rapidez e intensidade do fim do dia da eleição não lhe permitiu com certeza preparar-se, e uma vez mais dá um exemplo de grande dignidade e de respeito pela Palavra de Deus.
Naturalmente que poderíamos continuar na mesma óptica. Contudo, apenas juntarei uma breve informação. Logo após a eleição do Papa se soube que o Patriarca Ortodoxo Alexis II, de Moscovo, que manifestou alguma desconfiança com o Pontificado de João Paulo II, afirmou publicamente que poderia entender-se com Bento XVI. Quem diria? Também o Primaz da Comunhão Anglicana deu um passo histórico a deslocar-se à Praça de São Pedro na Eucaristia solene da entrada do novo Papa..
Concordando ou discordando, mais ou menos surpreendidos, não ignorando as características pessoais do novo Pontífice, e sabendo que a sua actuação terá que ser naturalmente diferente da de João Paulo II, sai sobretudo reforçada a certeza que o Senhor está com os seus até ao fim dos tempos e de que o Espírito é o Senhor que dá a vida ao seu Povo.
P. Armando Duarte