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                                                                                                                             Por Manuel Augusto Dias

Freguesia da Aguda (3)

Um aspecto das Fragas de S. Simão

Já na última edição, ao transcrevermos o jornal leiriense "Leiria Ilustrada", do princípio do século passado, nos debruçámos sobre as belas paisagens da Aguda, de que se destaca pela sua beleza natural as Fragas de S. Simão.

Hoje, recorremos ao Guia de Portugal de Raul Proença (1927), para transcrevermos alguns excertos do texto que ali foi publicado sobre a Ribeira de Alge e as Fragas de S. Simão da autoria de quem conhecia muito bem estas paragens: o Dr. Alberto Rego, da Quinta de Cima (Chão de Couce).

Falando da estrada da Ribeira de Alge, para Figueiró dos Vinhos, a certa altura escreve: «à direita, no meio de uma vegetação emaranhada e luxuriante que faz lembrar certos trechos da estrada de Coimbra à Figueira, desliza, suavemente, perdida no silêncio e na sombra da verdura, a ribeira de Almofala. Um pouco adiante, numa curva, aparece a pequena distância e a meia encosta o lugarzinho do Casal Novo, sorrindo alegremente ao viajante. (…) Quando o caminho, numa curva apertada, nos mostra de fugida o ponto em que as águas límpidas da ribeira de Alge contornando caprichosamente um pequeno cômoro, recebem as águas barrentas da Almofala, o olhar corre encantado de cima dos montes ao fundo dos vales… Passada a primeira ribeira numa boa ponte de alvenaria de um só arco lançada a mais de 10 metros de altura, o caminho em forte subida de cerca de 5 km, fechado à direita por trincheiras altíssimas, debruça-se continuamente, do lado oposto, sobre o fundo vale da ribeira, encaixado entre montes de flancos ásperos, e nas suas curvas e contra-curvas vai-nos pondo diante dos olhos quadros formosíssimos que fazem entrar este trecho de estrada no número dos mais belos do País. No fundo do vale, nos flancos e nos cimos dos montes, lugarejos, casais, e quase por toda a parte uma vegetação exuberante. No alto da encosta fronteira, a torre da igrejinha da Aguda assoma entre tufos de verdura.

Deixando a estrada a meio da ravina e voltando à esquerda por um caminho em descida íngreme, mas de piso regular, à distância de 300 metros, encontramos as Fragas de S. Simão. Rochas abruptas, eriçadas de pontas agudas que anavalham o ar e a vista, convulsão trágica da Natureza em busca duma estabilidade que continuamente lhe faltava, esse caos impressionante abre a custo uma estreita passagem à ribeira de Alge. Esta, cá em baixo, a uma profundidade de muitas dezenas de metros, precipita as águas límpidas, e quebra a sua fúria na represa tranquilamente bucólica dum açude de moinho. A Walquíria indómita que, embrulhada em espumas, descera em doida correria das altas serranias, deixa-se levar humildemente pela levada desse moinho e tranquilamente faz mover a pedra no mais monótono dos trabalhos. O ruído das águas ao precipitar-se no açude acorda os ecos das penedias e orquestra harmonias largas e profundas. Quando nos sentamos no cimo dos rochedos e divisamos esse quadro empolgante, digno de Sequeira ou de Doré, involuntariamente pensamos que o acaso tem momentos de génio. Superiores às portas de Ródão, porque estas estão longe de nos dar a impressão do abismo; mais imponentes que os Cabris do Zêzere e do Ceira, porque a corrente é aqui mais angustiada e áspera; mais pitorescas que as gargantas vertiginosas do Corgo e do Rabagão, pelas árvores e arbustos que, em tufos vigorosos, põem nas rochas largas manchas de verdura, as Penhas de S. Simão são talvez, no seu género, o que há de mais belo no País. A humilde aldeia da Pena, na margem direita da ribeira, a pequena distância das Fragas e rodeada de rica vegetação, dá uma nota docemente bucólica naquele meio atormentado. As águias criavam antigamente nas Penhas de S. Simão, e no Museu de Coimbra existe um belo exemplar. Há já bastantes anos que desapareceram daqueles sítios, frequentados agora pelo homem. É provável que esses animais sejam demasiado orgulhosos para receber visitas que não convidaram. Preferem ceder-lhe a casa».