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Por Manuel Augusto Dias
Freguesia da Aguda (8)
O Engenho da Machuca (2.ª parte)

As linhas de água permanentes, como a Ribeira de Alge, eram aproveitadas em lagares, moinhos e engenhos
Retomamos hoje a história da fábrica de ferro, denominada Engenho da Machuca, que existiu, desde pelo menos o século XVI, na freguesia da Aguda, como nos é contada, com base em testemunhos recolhidos junto de pessoas mais idosas, pelo antigo médico, das Cinco Vilas e Arega, Dr. António Augusto da Costa Simões, na sua célebre "Topografia Médica das Cinco Vilas e Arega ou dos concelhos de Chão de Couce e Maçãs de D. Maria em 1848".
Na última edição ficámos na parte referente à prisão dos seus mestres, em 1760, por alegada ordem do Marquês de Pombal.
«Dizem que se conservaram por alguns annos em Lisboa debaixo de prisão, sendo depois mandados, não sabem se para Goa, se para Angola, para alli ensinarem a fabricação do ferro. E parece que aquella prisão não teria sido motivada por nenhum crime, porque as familias destes fabricantes ficaram com uma pensão de 300 rs. diarios, desde o dia da prisão até á morte delles. Um destes, porém, fugindo do Ultramar, regressou a casa passados onze annos depois da prisão; e desde então suspenderam o pagamento da pensão, que sua mulher recebia; e não consta de nenhum procedimento do governo contra este fabricante; o que também indica não ter havido crime, que motivasse aquela prisão. O fabricante José Lavaxe, depois da prisão dos seus companheiros, estabeleceu-se nas Vendas de Maria, pequena povoação da estrada dos Cabaços, na freguesia de Maçãs de D. Maria.
Com a prisão dos fabricantes do engenho da Machuca, dizem que logo se fechou esta fábrica; mas que se conservou em bom estado, montada com todas as rodas e outros apparelhos, por mais de trinta annos, como a conheceram aquelles dois octogenarios; continuando a dizer missa na sua capella de Sancto Antonio, até 1808 ou 1809, o capellão José Antonio de Lacerda, de Figueiró dos Vinhos. Neste anno a imagem de Sancto Antonio foi trasladada para Figueiró dos Vinhos; e desde logo começou a arruinar-se a capella e todo o edificio da fábrica, desapparecendo de dia para dia a telha, madeiras, grades de ferro, cantarias, etc. Actualmente apenas se vêem naquelle sitio algumas paredes arruinadas, restos dos fornos de fundição, e a valla de boa argamaça, ainda bem conservada, por onde corriam as aguas, que tocavam os diferentes machinismos da fábrica. Todo o terreno das officinas está cultivado de boas hortas e algumas fructeiras.
Na epocha da prisão dos fabricantes do engenho da Machuca, já havia juncto á foz da mesma Ribeira de Alge, no concelho de Figueiró dos Vinhos, uma outra fábrica em pequeno ponto, aonde apenas se fundiam balas de artelharia ou pouco mais; e o fabricante José Lavaxe alli trabalhou por vezes, antes e depois da prisão dos seus companheiros da Machuca. Só porém em 1800, ou pouco antes, se transportaram para fábrica da Foz de Alge as maquinas e utensilios do engenho da Machuca; e foi então que a nova fabrica tomou incremento, chegando a fornecer muitos e bons produtos de ferro fundido e também de ferro forjado. Não pude averiguar a epocha precisa em que se abriu a fábrica da Foz de Alge, mas não seria longe de 1712, porque nesse anno escrevia o seguinte o padre Antonio Carvalho da Costa na sua Corographia Portuguesa tom. 3.º, liv. 2.º, trat. 4.º, cap. 20, fallando da Ribeira de Alge - «e na sua foz se fabrica hoje, há engenho Real para fundir artelharia»
Esta fábrica fechou-se me 1834; e ao seu ultimo administrador, o sr. Antonio Henriques, está confiada a conservação dos seus materiaes, com um couteiro para a guarda dos bons pinhaes e mata de castanho, que tem contiguos (em 1858 foi medido todo o pinhal da fábrica, achando-se, pelo lado do norte, braças 309, pelo sul 190, pelo nascente 380, e pelo poente 445. Fez-se no mesmo anno um corte geral na matta de castanho, que deu 2093 páus; sendo 1437 de madeira grossa, e 656 de paus delgados, a que dão o nome de ripeiras). O producto das hortas pertencentes á fábrica faz parte da remuneração, que recebe do governo aquelle antigo empregado, cuja gratificação em dinheiro está reduzida a 600 rs. diarios.»