A voz aos avós (IX)
Estamos em Julho e começam a ser muito frequentes as festas populares que, em cada fim-de-semana, animam variadíssimas localidades. Por isso, nesta edição do jornal e na próxima vamos abordar as festas populares de outros tempos, socorrendo-nos das memórias de alguns entrevistados.
Uma idosa falou-nos de como eram comemoradas antigamente as Festas de Nossa Senhora da Guia, no Avelar. «Eram um sonho!», disse-nos. As pessoas que vinham à festa ficavam os três dias em que a mesma decorria. Chegavam em carros de bois, enfeitados com mantas de trapos, flores, como por exemplo rosas, e verduras. Alugavam salas, alpendres, palheiros, quartos, para assim poderem permanecer na vila todo o tempo que durasse a festa. Faziam-se muitos bailes, ao som de flautas, harmónios, concertinas…
Na sexta-feira, no dia da Procissão das Velas, vinha um pregador, o qual dizia sermões lindíssimos, que faziam as pessoas chorar. Um profissional vinha «armar» a igreja: as paredes eram forradas de veludo, havia reposteiros dourados…
A Procissão de sábado era a das fogaças. Fogaças eram tabuleiros armados, enfeitados com papel recortado, trigo, cachos de uvas, onde as pessoas colocavam comida: leitões, frangos... Depois as fogaças eram vendidas, revertendo o dinheiro a favor da festa. Havia muitas fogaças e as mulheres levavam-nos à cabeça. As raparigas preparavam-se bem para o efeito: lenços antigos das mulheres na cabeça e outro pelas costas e um avental. «Íamos muito bonitas», garantiu-nos a entrevistada. Também não faltava a Filarmónica.
O forno da vila andava três dias a arder com grandes quantidades de mato e lenha. No Domingo era então amassado o bolo (um bolo grande, de vários alqueires) e posto dentro de um carrinho, e um senhor ia depositá-lo dentro do forno. O andor com a Nossa Senhora chegava, ficando ao fundo das escadas. Ele fazia-Lhe uma vénia, retirava de lá um cravo, pondo-o na boca, e colocava um chapéu na cabeça. De seguida, alguém deitava um balde de água para dentro do forno para o homem entrar. Ele entrava, dava uma volta em redor do forno, deixando lá o carrinho para cozer o bolo. Voltavam a fechar o forno com a porta de ferro. Porque o homem não se queimava, dizia-se que era um milagre. Quem ia colocar o bolo no forno, ano após ano, eram sempre pessoas da mesma família. A tradição passava de geração em geração.
Nessa altura, formava-se uma multidão. Estavam todos à espera que o bolo se cozesse porque depois era repartido, aos bocados, por todos. E dizia-se que roupa onde se pusesse um bocado do bolo, nunca mais lhe entrava a traça. Pelo menos era essa a fé corrente.
R.M.