CARTA PASTORAL DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL
“O ESPÍRITO SANTO, SENHOR QUE DÁ A VIDA”
I. INTRODUÇÃO
1. O segundo ano do triénio preparatório do
Grande Jubileu é dedicado de modo particular ao Espírito Santo. Por isso, em
continuidade com o itinerário pastoral e espiritual apresentado na nossa Carta
Pastoral sobre Jesus Cristo, Nosso Salvador e Senhor1 , propomos agora aos fiéis a meditação sobre o
Espírito Santo, que conduz a Igreja ao pleno conhecimento do Verbo Encarnado.
Para a Terceira Pessoa Divina se dirige o
coração da Igreja, na perspectiva do Terceiro Milénio. Como escreve João Paulo
II, “a concepção e o nascimento de Jesus Cristo são a obra maior realizada pelo
Espírito Santo na história da criação e da salvação: a graça suprema, fruto de
todas as outras graças. O grande Jubileu relaciona-se com esta graça e também
com o artífice da mesma, a Pessoa do Espírito Santo”2 .
Aquilo que “na
plenitude dos tempos” se realizou pelo seu poder, só por obra sua pode agora
surgir na memória da Igreja3 . É Ele quem actualiza, torna viva e eficaz
no coração dos crentes a única Revelação trazida por Jesus Cristo4 .
2. Com esta Carta,
em comunhão com João Paulo II5 , pretendemos dar algumas orientações para o
ano pastoral de 1997-98.
Desejamos, em
primeiro lugar, ajudar a redescobrir a presença e acção do Espírito Santo que
renova a Igreja e cada um dos fiéis a partir de dentro. Ele é o agente
principal da nova evangelização. De muitas maneiras, sobretudo pelo
sacramento da Confirmação, impele-nos a testemunhar a fé e a anunciar a
Boa Nova. Ele é o “guarda da esperança no coração humano”6 e a força de unidade na Igreja e no Mundo.
E queremos, também contribuir para que se intensifique
e purifique a devoção ao Divino Espírito Santo, gravada com muito relevo no
coração dos portugueses, que a levaram às terras por eles descobertas e
evangelizadas.
3. O Espírito Santo é o Espírito de Jesus. O
seu dom à Igreja é um enriquecimento do espírito humano. Nos dias de hoje,
entre nós e na cultura europeia, em geral, a própria dimensão espiritual
aparece como problemática. A palavra “espírito” provoca resistências devido a
certos preconceitos, de natureza ideológica uns, de índole emocional outros.
Brotam daí mal-entendidos e uma visão reducionista da fé cristã e da própria
vida humana.
Desta carência de “espírito” resulta para
muitos dos nossos contemporâneos uma sensação de vazio, de íntima insatisfação
por viverem uma vida sem sentido, incapazes de atingir a felicidade. Carecem de
razões para viver, para trabalhar, para amar.
A Igreja responde a esta situação sublinhando
o primado da dimensão espiritual do homem: não nega o sentido das realidades
corpóreas, antes as assume como expressão do próprio espírito e as projecta
para uma dimensão transcendente. Por outras palavras: eleva, dignifica e conduz
à plenitude de tudo o que é humano.
Mais ainda: ela reafirma a sua fé no Divino
Espírito Santo, que torna presente no meio de nós o mistério de Jesus Cristo,
plenitude do Homem.
É graças à assistência perene do Espírito, que
a Igreja proclama a ressurreição do Senhor como a esperança da humanidade, como
verdade que vence o erro, como vida que supera a morte, como justiça e paz que
derrotam o ódio e a violência, como a única libertação capaz de transformar as
pessoas e as estruturas sociais.
II. PRESENÇA E ACÇÃO DO ESPÍRITO SANTO
Deus Uno e Trino
4. Falar do Espírito Santo é mergulhar no
mistério do Pai e do Filho. A fé cristã está plenamente embebida do mistério da
Trindade. Deus é por essência Uno e Trino. “Quando digo Deus, entendo o
Pai, o Filho e o Espírito Santo”7 .
E toda a acção de Deus - em ordem à criação, à
salvação, à vida eterna - é também um acto trinitário. “O Pai é o princípio de
tudo, o Filho é aquele que actualiza, o Espírito é o que leva tudo à plenitude.
Tudo subsiste por vontade do Pai, tudo chega a ser mediante o acto do Filho;
tudo recebe a perfeição com a presença do Espírito Santo”8 .
O Espírito Santo, revelado e comunicado por
Jesus Cristo, é uma Pessoa distinta de Cristo e do Pai. Por isso, Jesus
fala do Espírito Santo empregando com frequência o pronome pessoal “Ele”: “O
Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará no meu nome, Ele vos
ensinará tudo e vos recordará quanto vos disse” (Jo 14, 26); “Ele convencerá
o mundo no referente ao pecado” (Jo 16, 8) ;
“Quando Ele vier, guiar-vos-á para a verdade total” (Jo 16, 13) ; “Ele dar-me-á glória” (Jo 16,
14) ; “Ele dará testemunho de mim”(Jo
15, 26) .
O Espírito Santo é um ser pessoal com
um agir próprio, unido indissociavelmente ao Pai e ao Filho na mesma inefável natureza de Deus Uno e
Trino. “Tudo o que tem o Pai, tem-no o Filho e tem-no o Espírito Santo. Nunca
faltou na Trindade essa perfeita comunhão; nela são a mesma coisa ‘tudo
possuir’ e ‘sempre existir’... Confessamos que a Trindade é um só Deus, já que
nas três Pessoas não existe diferença - de substância, poder, vontade ou
operação” 9 .
Graças a essa mútua compenetração, todas as
obras de Deus levam o selo da Trindade. Tudo “vem do Pai através do Filho no
Espírito Santo”10 .
De igual modo, toda a experiência cristã é
necessariamente trinitária. Mesmo quando nos dirigimos a Cristo na nossa
oração, chegamos sempre ao Deus-Trindade. Efectivamente, não podemos dizer
“Jesus é o Senhor” senão dizendo-o no Espírito Santo11;
e Jesus, como mediador que é, não pode deixar de nos conduzir ao Pai.
O Espírito Santo é a chave12, que abre a porta que é Cristo13 , a qual dá entrada para a casa que é o Pai14 .
É Jesus quem nos revela o Pai e nos envia o
Espírito Santo, que, por sua vez, nos faz mergulhar na relação que une o Pai e
o Filho, conduzindo-nos à plenitude do “Deus-Abbá”. O Espírito revela-nos,
pois, de modo existencial, a Santíssima Trindade e fá-la viver em nós.
O Espírito actualiza e aprofunda o mistério de
Cristo
5. Concebido pelo Espírito Santo no seio da
Virgem Maria, Jesus proclama ser Aquele que possui a plenitude do Espírito:
“O Espírito do Senhor está sobre mim. Ungiu-me para anunciar a boa nova aos
pobres” (Lc 4, 18).
Já antes fora “conduzido pelo Espírito ao
deserto” (Lc 4, 1) e João Baptista o elevara aos olhos de Israel
como Messias, isto é, “Ungido” pelo Espírito Santo. O testemunho de João foi
corroborado por outro testemunho superior: “Abriu-se o céu e o Espírito Santo
desceu sobre ele” (Lc 3, 21-22)15 ; e, simultaneamente, ouviu-se uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho
muito amado, no qual pus as minhas complacências’”(Mt 3, 17).
A actividade de Jesus será toda desenvolvida
com a presença do Espírito Santo16 . Após o
regresso dos setenta e dois discípulos, enquanto relatavam os frutos do seu
trabalho, “Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo” (Lc
10, 21)17 .
Na última Ceia, Jesus revela mais claramente o
mistério do Espírito Santo e promete enviá-l'O de pois de voltar para o Pai,
como o Consolador a recordar qunto Jesus ensinara (cf. Jo 14, 15-26).
O Espírito na Igreja