Carta Pastoral da Conferência Episcopal
“Jesus Cristo, Nosso Salvador e Senhor”
I. Introdução
Preparação do Grande Jubileu do Ano 2000
1. Esta
Carta Pastoral sobre Jesus Cristo Nosso Salvador e Senhor insere-se na
preparação próxima do Grande Jubileu do Ano 2000, anunciado por João Paulo II,
logo no início do seu pontificado (1).
Ao aproximar-se o
fim do século e o início de um novo milénio, o Papa dirigiu à Igreja a carta
apostólica “Tertio millenio Adveniente” em que sublinha o sentido dos jubileus
na História da Salvação e marca o ritmo da preparação deste jubileu especial, sugerindo
que o ano de 1997 seja dedicado “à reflexão sobre Cristo, Verbo do Pai, feito
homem por obra do Espírito Santo”, para acentuar, logo na sua preparação, o
carácter cristocêntrico do Jubileu (2).
A preparação
deste e a sua celebração, para atingirem todo o Povo de Deus, devem envolver as
diversas Igrejas particulares, enquadrando as suas próprias datas jubilares e
adaptando ao ritmo de cada uma, através dos seus programas de pastoral, os
grandes temas catequéticos do Jubileu (3). É pois, para ajudar as
nossas dioceses a inserirem-se no ritmo jubilar, que publicamos este texto, com
elementos para a catequese sobre Jesus Cristo.
Jesus Cristo no
centro das celebrações jubilares
2. O Papa
João Paulo II propõe à Igreja que o Jubileu do ano 2000, quer na sua preparação
remota e próxima, quer na sua celebração, seja “inteiramente orientado para a
celebração do mistério de Cristo Salvador” (4).
Todos os
jubileus, mesmo os do Antigo Testamento, celebram a plenitude da salvação,
atingida em Jesus Cristo.
Eles são um tempo de graça, em que a Igreja e cada cristão são chamados a
saborear e a viver o dom da salvação, em todas as suas concretizações e
consequências. O profeta Isaías considera a vinda de Cristo como o grande
jubileu: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a
Boa-Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos
cegos, o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um
ano de graça do Senhor” (Is. 61, 1-2). Jesus Cristo, ao ler esta passagem do
profeta na Sinagoga de Nazaré, concluiu: “Cumpriu-se hoje esta passagem da
Escritura que acabais de ouvir” (Lc. 4, 21) (5).
Este ano de
graça é a celebração, no tempo, do dom da salvação, inaugurado pelo Filho de
Deus feito homem. É
proclamado, antes de mais, para os cristãos que, pela fé e pelos sacramentos,
já experimentaram o dom da salvação. São chamados, durante ele, a abrir-se a
esse dom, avivando a fé, a esperança e a caridade, a reviver o seu baptismo e a
celebrar os outros sacramentos, a cultivar a relação de confiança e de amor com
o Senhor Jesus, a praticar a justiça e a caridade para com os irmãos, de modo
particular os pobres, os marginalizados, os perseguidos. A doutrina social da
Igreja deverá guiar-nos no nosso esforço de viver o ano jubilar (6).
Proclamado
para a Igreja como o ano da graça, o Jubileu é também proposta e anúncio a
todos os homens e ao mundo contemporâneo. Todos os que, por qualquer forma, buscam a salvação,
deveriam poder acolher o anúncio de Jesus Cristo Salvador, através do
testemunho e do anúncio dos cristãos. O Jubileu será, também, para a Igreja, um
ano de evangelização.
3. O Santo
Padre propõe a toda a Igreja que, durante o próximo ano de 1997, se concentre
sobre “Jesus Cristo, único Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre”. O Papa
retoma a opção primeira do seu pontificado, a que quis marcar, desde o início,
o ritmo jubilar e cristocêntrico: “Para nós, a única orientação do espírito,
a única direcção da inteligência, da vontade e do coração, é esta: na direcção
de Cristo, Redentor do Homem; na direcção de Cristo, Redentor do mundo”.
Para Ele queremos olhar, porque só n’Ele, Filho de Deus, está a salvação,
renovando a afirmação de Pedro: Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens as
palavras de vida eterna (Jo. 6, 68 ss.).
Através da
consciência da Igreja, tão desenvolvida pelo Concílio, através de todos os
graus desta consciência, através de todos os campos de actividade onde a Igreja
se afirma presente, se encontra e se consolida, devemos tender constantemente
para Aquele que é a cabeça, para Aquele de quem tudo provem e para quem n ós
fomos criados, para Aquele que é, ao mesmo tempo, o caminho e a verdade, a
ressurreição e a vida, para Aquele ao ver o Qual, vemos o Pai, para Aquele,
enfim que devia ir, deixando-nos (...) para que o Consolador viesse a nós e
continue a vir constantemente como Espírito da Verdade. N’Ele estão todos os
tesouros da sabedoria e da ciência e a Igreja é o seu Corpo. A Igreja, em
Cristo, é como que um sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com
Deus e da unidade de todo o género humano; e disto é Ele a fonte. Ele mesmo!
Ele, o Redentor!” (7).
Destinatários e
perspectiva da Carta Pastoral
4. Dirigimo-nos,
antes de mais, aos crentes, membros das comunidades cristãs, propondo-lhes um
encontro mais profundo e um conhecimento mais completo de Jesus Cristo, único
Redentor do homem, nosso Senhor e nosso Deus. Não esquecemos que é urgente
anunciar Jesus Cristo àqueles que ainda O não encontraram. Mas, na medida em
que os cristãos conhecerem e amarem mais Jesus Cristo, anunciá-Lo-ão com maior
ardor.
Teremos como
perspectiva a experiência da Igreja Apostólica, cuja fé é aceitação da
ressurreição do Senhor, no encontro pascal com o Ressuscitado. Conduzida pelo Espírito Santo, dom pascal por
excelência, compreende mais profundamente o nascimento, a vida e a morte de
Jesus de Nazaré, e descobre que a plenitude de vida inaugurada, para nós, na
ressurreição, continua e prolonga-se na vida cristã, numa Igreja que é Corpo de
Cristo e, conduzida pelo Espírito Santo, aspira à santidade.
Teremos, assim,
como pano de fundo, a doutrina neo-testamentária sobre Cristo e a vida em
Cristo. Dada a sua densidade, é aconselhável que a leitura deste texto seja
acompanhada de pistas catequéticas, de modo particular para o seu estudo em
grupo.
II. Jesus Cristo nosso Salvador e Redentor
5. A
compreensão de Jesus Cristo e o aprofundamento da sua relação vital e amorosa
com cada homem, tem de situar-se no contexto das relações de Deus com o homem:
Deus que o criou, que o salvou, que o atrai para a plenitude da vida.
Presente no acto
criador, enquanto Verbo eterno de Deus, – “Ele é a imagem do Deus invisível,
primogénito de toda a criatura, porque n’Ele foram criadas todas as coisas”
(Col. 1, 15-16) – na sua encarnação, é enviado como nosso salvador,
reconduzindo o homem, enfraquecido pelo pecado, à plenitude da vida.
O conceito de
salvação já não é muito familiar aos nossos contemporâneos. Teremos em conta
vários aspectos do problema: o que é a salvação; a necessidade da salvação;
quem é o salvador do homem.
O que é a
salvação
6. O Santo
Padre Paulo VI, ao definir o conceito de salvação que deve ser anunciada pela
Igreja, diz: “Como núcleo e centro da sua Boa-Nova, Cristo anuncia a
salvação, esse grande dom de Deus que é libertação de tudo aquilo que oprime o
homem, sobretudo do pecado e do maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser
por Ele conhecido, de O ver e de se entregar a Ele”.
Define a natureza
da salvação, cuja razão de ser é permitir ao homem tornar-se íntimo de Deus e
traça-lhe o percurso: anunciada pelos profetas, iniciada na vida terrena de
Jesus, definitivamente realizada na Páscoa – na morte e ressurreição de Cristo
– é continuada pelo Espírito Santo, na Igreja, até à sua plenitude, aquando da
última vinda do Senhor (8).
Sentir a
necessidade da salvação
7. O anúncio
da salvação tem de aparecer como resposta a um problema sentido pelo homem. O
acolhimento deste anúncio libertador é dificultado pelo facto de muitos dos
nossos contemporâneos não sentirem necessidade de salvação.
O ambiente
cultural em que vivemos foi marcado por uma excessiva exaltação do homem. Não é
que, na consciência colectiva da Humanidade, não se sintam os perigos e as
ameaças que pesam sobre muitos homens, porventura sobre a Humanidade inteira: a
ameaça da guerra e da destruição colectiva; a subversão da harmonia da natureza
e a poluição do ambiente; o desemprego; a pobreza, fruto de desequilíbrio dos
sistemas económicos; a solidão e a instabilidade nas relações afectivas, etc.
Sente-se menos a
ameaça da perversão do coração e da banalização da consciência. Ora, segundo a
revelação cristã, essa é a primeira das alienações de que o homem precisa de ser
salvo. “Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tim. 1, 15).
O anúncio da
salvação tem de despertar, no coração dos homens, a consciência da sua
necessidade, pois só saboreia
o dom inestimável de Deus, que é a salvação em Jesus Cristo, quem sente
necessidade dela e a deseja.
De quem esperamos
a salvação
8. Além de
terem uma consciência incompleta da natureza dos males de que precisam de ser
libertos, muitos homens esperam hoje a libertação apenas do esforço humano. O
próprio ideal de vida e de felicidade fica reduzido àquilo que o homem é capaz
de realizar, quando só Deus, em Jesus Cristo, pode reconstruir o nosso
coração, enfraquecido pelo pecado, abrindo-o à plenitude da vida.
O homem pode
contribuir para a libertação dos seus irmãos dos males sociais que os oprimem.
Mas isso supõe que o seu coração esteja liberto e capaz de amar. E libertar o
coração, só Deus o pode fazer, em Jesus Cristo.
Desejar e
abrir-se à salvação supõe a humildade de reconhecer, na fé, que só em Deus e
com a força de Deus, o homem atinge a plenitude da vida. E Deus realiza em
nós essa obra de “nova criação”, por seu Filho Jesus Cristo, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem. Enquanto homem, Ele é o modelo do homem perfeito e definitivo
e a fonte de toda a plenitude humana. “Cristo, Redentor do mundo, é Aquele que
penetrou, de uma maneira particular e irrepetível, no mistério do homem e no
seu coração”. Ele uniu-se, de uma forma definitiva, a todos os homens e a cada
homem em particular (9). E, como já afirmara o Concílio Vaticano II,
“só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério
do homem” (10).
É esta relação
decisiva com Jesus Cristo que muitos dos nossos contemporâneos esqueceram.
Pela
Redenção, Deus adquire para Si um Povo
9. Nosso
Senhor Jesus Cristo salva-nos, redimindo-nos. A redenção é um resgate, uma
aquisição, uma compra com uma intenção amorosa. Deus resgata o seu Povo para
o unir a Si, no mistério da Aliança. Liberta-nos para nos adquirir. O Povo
redimido passa a ser propriedade de Deus. “Ou acaso não sabeis que o vosso
corpo é um templo do Espírito Santo que está em vós e que vós recebeis de Deus?
E que não vos pertenceis a vós mesmos? Fostes pura e simplesmente comprados.
Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Cor. 6,19-20).
Este resgate,
para nos adquirir, é uma compra cara: exigiu a entrega do próprio Filho de Deus
à morte. De facto Jesus “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua
vida em resgaste pela multidão” (Mt. 20,28). Um tal preço só se justifica pelo
objectivo a atingir por Deus, no Seu amor misericordioso e eterno: ter um povo
que lhe pertença e partilhe com Ele o Amor e a Vida. “Jesus Cristo, entregou-se
por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade e de purificar um povo que
seja propriedade sua e procure praticar o bem (Tit. 2, 14).
A Igreja é,
assim, o Povo que Jesus Cristo adquiriu, resgatando-o, para a glória de Deus
Pai: “Vós sois uma raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo resgatado, para anunciar o louvor
d’Aquele que vos chamou das trevas à sua luz admirável” (1 Ped. 2, 9).
10. Que
Jesus Cristo ressuscitado é o nosso Salvador e Redentor, faz parte do anúncio
pascal dos apóstolos, à luz do Espírito Santo. Pela ressurreição, Deus
estabeleceu Jesus como cabeça e salvador (Act. 5,31). A fé em Jesus
ressuscitado dá à Igreja apostólica a experiência libertadora de se sentir
salva; Deus considera-a, de tal modo, coisa sua, que a uniu para todo o
sempre a Jesus Cristo, identificando-a com o seu corpo.
É a fé em
Jesus ressuscitado que leva os apóstolos a mergulhar no mistério da Redenção. “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus
Cristo: na sua grande misericórdia, regenerou-nos pela ressurreição de Jesus
Cristo de entre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança isenta de
corrupção, que não pode contaminar-se, nem murchar, e que vos está reservada
nos céus, a vós que o poder de Deus guarda, pela fé, para a salvação que está
para se manifestar, nos últimos tempos” (1 Ped. 1,3).
A fé pascal é
o ponto de partida de toda a experiência cristã. Só conduzidos pelo Espírito Santo, os apóstolos
integram numa unidade com a ressurreição, não apenas a morte de Cristo, que faz
parte da Páscoa de Jesus, mas toda a vida de Jesus e o Antigo Testamento (cf.
Fil. 2,6-13).
A fé é o
princípio da salvação
11. A fé
em Jesus ressuscitado introduz o homem na salvação. O carcereiro pergunta a
Paulo: “Senhor, que tenho de fazer para ser salvo? Ele respondeu-lhe: crê no
Senhor Jesus e serás salvo, tu e os teus” (Act. 16,30). A fé é um encontro e
uma opção por Jesus ressuscitado, que leva o crente a abandonar-se a Ele numa
confiança sem limites, que o introduz na experiência da salvação. Quem
acredita, entrega a sua vida a Jesus Cristo e não cessará de proclamar e
confessar essa fé; essa confissão de fé é o anúncio da salvação. “Se os teus
lábios confessam que Jesus é Senhor e se o teu coração acredita que Deus o
ressuscitou dos mortos, serás salvo. Porque a fé do coração obtém a justiça e a
confissão com os lábios, a salvação” (Rom. 10,9-10).
12. A fé tem,
assim, duas dimensões: a proclamação pública de Jesus ressuscitado, que é
testemunho da salvação, e a fé do coração. Enquanto encontro pessoal com
Cristo, a fé é uma atitude de confiança e de amor à pessoa de Jesus, que nos
conduzirá ao Pai e nos introduzirá na intimidade da Santíssima Trindade.
É esta confiança
da fé que leva o cristão a acolher a salvação como um dom de Deus, “que amou de
tal maneira o mundo, que lhe deu o seu Filho único, para que todo o homem que
acredita n’Ele, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3,16), e uma
expressão do amor infinito de Cristo por cada um de nós. “Nisto conhecemos o
Amor: Ele deu a sua vida por nós” (1 Jo. 3,16).
É ao mergulhar no
amor de Cristo que nos redimiu que percebemos que o amor salvífico de Deus é um
amor misericordioso e gratuito. Deus “salvou-nos e chamou-nos com o seu santo
chamamento, não em consideração das nossas obras, mas segundo o seu próprio
desígnio e a sua graça” (2 Tim. 1,9). O amor misericordioso de Deus é um amor
benevolente e gratuito, de um Deus que não está à espera de nos poder premiar
pelo nosso esforço, mas se contenta com a abertura do nosso coração ao seu
amor, na confiança da nossa fé.
III. O Encontro com Jesus Cristo
13. A fé
estabelece uma relação pessoal com o Senhor Jesus; o crescimento da fé consiste
no fortalecer desta relação, conhecendo cada vez mais profundamente a pessoa de
Cristo, até à experiência de união com Ele, no amor. Como toda a relação
entre pessoas, o encontro com Cristo começa numa atracção mútua. A atracção de
Jesus Cristo por nós brota do próprio mistério da Encarnação. O Verbo fez-se
Homem para se unir a nós de modo a que, unidos a Ele, tenhamos a mesma
experiência da glória de Deus, no seio da Trindade. “Pai Santo, guarda no Teu
nome aqueles que Me deste, para que eles sejam um como Nós (...) Eu neles e Tu
em Mim, para que eles sejam perfeitamente um (...). Pai, aqueles que Me deste,
quero que onde Eu estiver, eles estejam também comigo, para contemplarem a Tua
Glória” (Jo. 17, 11. 23-24).
A nossa atracção
por Jesus Cristo é obra de Deus no íntimo do nosso coração. O primeiro
movimento que nos leva a Jesus Cristo parte da SS.Trindade: do Pai, no Espírito
Santo. “Ninguém vem a Mim se o Pai não o atrair; Eu ressuscitá-lo-ei no último
dia” (Jo .6, 44). A vida da fé passa por essa atracção, que pode ser tão forte,
que parece voragem, para nos unirmos cada vez mais, conhecermos cada vez
melhor, até sentirmos a experiência do amor mútuo. Desse mistério, S. Paulo
dá-nos o seu testemunho pessoal: “Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A
tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada?
Mas, em tudo isto, somos nós mais que vencedores por Aquele que nos amou. É que
eu estou persuadido que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os
Principados, nem o presente, nem o futuro, nem as Potestades, nem a altura, nem
a profundidade, nem qualquer outra criatura poderão separar-nos do amor de
Deus, manifestado em Cristo Jesus, Senhor nosso” (Rom. 8, 35. 37-39).
É esta atracção
mútua que está na origem do discipulado. O discípulo é aquele que se deixou
atrair pelo Senhor e O segue, numa confiança sem limites.
Reconhecer o
Senhor
14. O
discípulo de Cristo, seguindo-O na confiança e no amor, vai sendo
sucessivamente surpreendido pela revelação, cada vez mais profunda, que o
Senhor lhe faz do seu mistério. Um primeiro conhecimento de Cristo vai dar
lugar a um “reconhecimento” contínuo, que surpreende e acentua a atracção
primeira. O próprio Jesus, durante a sua missão apostólica, abre os discípulos
para essa necessidade de um reconhecimento profundo. Que dizem as pessoas
acerca do Filho do Homem? “E quem dizeis vós que Eu sou?” Responde Simão Pedro:
“Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Há uma grande diferença entre o que se
dizia de Jesus e a fé de Pedro, que Jesus atribui a uma revelação do Pai (Mt.
16, 13-20). É que “ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai” (Mt. 11, 27). O
conhecimento profundo de Jesus Cristo é sempre um dom de Deus: do Pai, no
Espírito Santo.
Na vida dos
primeiros discípulos há um momento em que o novo reconhecimento de Jesus
significa quase uma ruptura com o conhecimento passado: o encontro com Jesus
ressuscitado. Os discípulos de Emaús confundem-No com um viandante (Lc.
24,13ss.); Maria Madalena confunde-O com o jardineiro (Jo. 20, 11-18); os
Apóstolos confundem-No com um espírito (Lc. 24, 36-37). Reconhecer o
Ressuscitado é uma nova etapa da fé, o verdadeiro ponto de partida da fé da
Igreja. Quem tiver um conhecimento apenas do Jesus histórico e nunca se
tiver encontrado com Jesus ressuscitado, nunca perceberá a fé da Igreja e a
relação desta com Jesus Cristo. Para Paulo é claro que não acreditar no
Ressuscitado é acreditar em vão (1 Cor. 15,14).
Este é um
problema de todos os tempos; é, no nosso tempo, um problema de grandes
dimensões, a desafiar os caminhos e a qualidade da evangelização. A fé que nos
introduz na salvação não pode assentar num conhecimento de Jesus Cristo baseado
no “ouvir dizer”; tem de basear-se num encontro pessoal com Jesus glorioso.
Muitos se interessam,
hoje, pela figura histórica de Jesus: literatos, artistas, o cidadão comum. Mas
esse interesse e esse conhecimento dificilmente desabrocharão na fé da Igreja.
Devemos, igualmente, interrogar-nos em que medida muitos cristãos não têm de
Jesus Cristo esse conhecimento por ouvir falar, sem nunca terem tido a sua
“estrada de Damasco”; isto é, sem terem feito a experiência do encontro com
Jesus ressuscitado. Esta questão tem de estar no centro da preparação do
Jubileu.
Reconhecer Jesus
Cristo como nosso Senhor e nosso Deus
15. Muitos
dos discípulos, a quem Jesus apareceu depois da ressurreição, ao
reconhecerem-No, exclamam: é o Senhor! Quando, no lago de Tiberíades, Jesus
realiza, de novo, perante os apóstolos, o sinal da pesca miraculosa, “o
discípulo que Jesus amava diz a Pedro: é o Senhor” (Jo. 21, 7). Tomé, quando
Jesus volta a aparecer-lhe, depois da sua incredulidade, exclama: “Meu Senhor e
meu Deus” (Jo. 20, 27). Saulo, na estrada de Damasco, quando a luz do
Ressuscitado o envolve, pergunta: “Quem és Tu, Senhor”? (Act. 9, 5).
Esta era a
designação de Deus a que os judeus de cultura grega, depois que a primeira
tradução da Bíblia em grego, chamada dos LXX (11), ousou traduzir o
nome divino por Senhor, estavam habituados e torna-se, no Novo Testamento, na
mais bela afirmação da divindade de Jesus. A senhoria de Cristo significa a
sua exaltação à Glória divina, no seio da Trindade e é obra do amor de Deus seu
Pai, como resposta fiel à sua fidelidade na obediência. “Deus exaltou-O e
deu-lhe o nome que está acima de todo o nome, para que tudo, ao nome de Jesus
se prostre, no mais alto dos Céus, na terra e nos infernos e que toda a língua
proclame, acerca de Jesus Cristo, que Ele é Senhor, para Glória de Deus Pai”
(Fil. 2, 8-11).
A partir da
Ressurreição, a fé na divindade de Jesus Cristo tornou-se a base da fé da
Igreja. Não admira, pois, que a primeira fórmula da confissão da fé da Igreja,
fosse: “Cristo é Senhor” ou “Jesus é Senhor”. A aceitação da divindade de
Jesus Cristo tornou-se o grande salto que nos faz passar da consideração da
figura histórica de Cristo para a fé da Igreja, que reconhece n’Ele o Filho de
Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e por isso, essa fé é atribuida à
acção do Espírito Santo no coração do crente. “Ninguém pode dizer “Jesus é
Senhor”, a não ser pela acção do Espírito Santo” (1 Cor. 12, 13).
A Igreja
apostólica debate-se com a utilização deste título de Senhor para designar
outros deuses e até a pessoa do Imperador Romano que quer fazer-se passar por
deus. A profissão de fé dos cristãos na senhoria de Jesus Cristo provoca, por
vezes, rupturas culturais e até políticas e sociais e não foi, certamente,
indiferente na primeira perseguição aos cristãos. É uma confissão de fé
corajosa, como o é, no mundo de hoje, a confissão de fé da Igreja e dos
cristãos na divindade de Jesus Cristo. S. Paulo refere esse contexto cultural
da primeira confissão de fé dos cristãos: “Embora haja, quer no Céu, quer na
terra, pretensos deuses – e de facto há uma quantidade de deuses e senhores –
para nós há um só Deus, o Pai, de quem tudo provém e para quem fomos feitos; e
um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e para quem nós somos” (1 Cor.
8, 3-6).
A designação
“Senhor” evoca uma relação de amor e de vida. É meu Senhor aquele que me ama, de
quem recebo vida e alento, a quem me entreguei totalmente, na confiança e na
esperança. Perante um tal Senhor, sentimo-nos amados e protegidos, sabemos que
recebemos d’Ele a força para nos abandonarmos a Ele, no amor.
A Igreja
participa da plenitude de Cristo ressuscitado
16. Nosso
Senhor, Ele é Senhor da Igreja, que recebe continuamente d’Ele a plenitude da
vida. Cristo ama a Igreja como uma esposa; esta que é o seu corpo, abandona-se
ao seu Senhor e Chefe, de quem recebe a vida e a salvação. “Cristo amou a
Igreja, entregou-se por Ela, a fim de a santificar, purificando-a pelo banho de
água que uma palavra acompanha, pois Ele quis apresentá-la a Si mesmo, toda
esplendorosa, sem mancha nem nada que se pareça, mas santa e imaculada” (Ef. 5,
24. 26-27).
Esta glória
divina do Senhor ressuscitado, deu-Lhe o poder de Deus para nos salvar e encher
a sua Igreja da plenitude da vida nova, que brotando do mistério de Deus, a
enche dessa plenitude e desse poder, tornando-a, a ela própria, capaz de
comunicar a vida e a salvação.
A omnipotência
divina, manifestada na ressurreição de Jesus Cristo, enche-O a Ele de poder e
de glória que, como sua cabeça, comunica à Igreja, que é o seu corpo. Está aí o
fundamento da nossa esperança (cf. Ef. 1, 17-23).
O hábito de
chamar a Jesus Cristo “Nosso Senhor” é das expressões mais belas da linguagem
cristã. Levar os cristãos a perceberem a riqueza desta designação pode ser,
durante o Jubileu, um caminho de evangelização.
Reconhecer Jesus Cristo, na sacramentalidade
da Igreja
17. O
caminho normal para os cristãos reconhecerem, num encontro pessoal, o Senhor
ressuscitado, é a Igreja, sacramento universal de salvação. Sacramento
significa sinal, através do qual, pela graça do Espírito Santo, os crentes
estabelecem comunhão com Cristo. Na Igreja, toda a sua realidade é sinal,
mas são-no, de um modo particular, a Palavra e os sete sinais sacramentais.
Neles e através deles, celebrados com fé, os cristãos unem-se a Cristo e
recebem a sua força, nas diversas circunstâncias da vida.
Há, pois, uma
união muito íntima e vital entre Cristo Ressuscitado e a Igreja. O Novo
Testamento exprimiu esta união misteriosa em três categorias: a da
identificação – a Igreja é o Corpo de Cristo; a da comunhão esponsal – Cristo
ama a Igreja como uma esposa; a da dependência vital – Cristo é a cabeça da
Igreja (12). Devido a esta união, é na Igreja e pela Igreja que
os cristãos reconhecem, na fé e na caridade, o Senhor ressuscitado.
É hoje frequente
encontrar pessoas, mesmo cristãs, que separam Cristo da Igreja. Afirmam-se
admiradores, porventura seguidores, de Jesus Cristo, mas nada querem com a
Igreja. Isso só é possível quando esse Cristo, de que se dizem seguidores, não
é o Senhor ressuscitado, revestido de glória e do poder divino, pois Este só O
podemos reconhecer na Igreja.
Já o Santo Padre
Paulo VI denunciou esta dicotomia: “Convém recordar aqui, de passagem, momentos
em que acontece nós ouvirmos, não sem mágoa, algumas pessoas - estamos em crer
que bem intencionadas, mas com certeza desorientadas no seu espírito - a
repetir que pretendem amar a Cristo, mas sem a Igreja, ouvir a Cristo mas não à
Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja. O absurdo de uma semelhante dicotomia
aparece com nitidez nesta palavra do Evangelho: “Quem vos rejeita é a Mim que
rejeita”. Se Cristo “amou a Igreja e Se entregou a Si mesmo por ela” (Ef. 5,
25), como tentar separá-los? (13).
Reconhecer o
Senhor na Palavra da Igreja
18. Nosso
Senhor Jesus Cristo é a Palavra eterna de Deus, transformada, na Encarnação, em
palavra humana. “Aquele que é a Palavra fez-se homem e veio morar no meio
de nós, cheio de amor e de verdade” (Jo. 1, 14).
Todos nós sabemos
que a palavra, dita com amor, é a que toca o coração e o ilumina. Porque o amor
é a verdade. É na experiência do amor de Jesus Cristo que O reconhecemos como
Palavra que interpela à mudança do coração. A sua Palavra é uma mensagem
divina, transmite-nos o amor do Pai. Ele comunica-nos o que ouviu de seu Pai
(Jo. 8, 28; 12, 50) e por isso as suas palavras são espírito e vida (Jo. 6, 63).
A Palavra de
Jesus acolhe-se numa relação de fé e de amor, convida-nos a segui-lO. A própria
Palavra estabelece uma relação com Ele e conduz a um conhecimento cada vez mais
profundo.
A maneira normal
de os cristãos escutarem a Palavra do Senhor e se encontrarem com Aquele, que é
a Palavra de Deus, é escutar e acolher a palavra da Igreja. Antes de mais, a
palavra da Igreja apostólica, inspirada pelo Espírito Santo e perpetuada no
Novo Testamento. Ela é o ponto de partida de toda a palavra da Igreja. Ao longo
dos séculos, a Igreja, corpo de Cristo, prolonga o seu ministério da Palavra,
inspirada pelo Espírito Santo no dom da infalibilidade. Nunca se pode pôr em
questão, em nome do Novo Testamento, a palavra do Magistério da Igreja.
Através da
Palavra, Cristo convida-nos a uma adesão da inteligência e do coração. Na parábola do semeador, Jesus dá-nos a
entender que todos ouviram a Palavra, mas só alguns a fizeram frutificar (Mt.
11, 23). Nestes ela é uma força de salvação, que os leva a praticar as obras do
Reino e a crescer na intimidade com o Senhor.
Todos os que
foram chamados ao ministério da Palavra, devem contar-se entre aqueles que a
acolhem no seu coração, para a poderem proclamar aos outros como anúncio
poderoso e eficaz do amor com que Deus nos ama.
Reconhecer o
Senhor no Baptismo
19. Todos os
sacramentos são acções da Igreja, possíveis por ela estar revestida da
plenitude de Cristo. Por meio deles o Espírito Santo realiza no cristão a sua
identificação com o Senhor e permite-lhe conhecê-lO e amá-lO cada vez melhor.
O Baptismo é o
grande momento de encontro do crente com o Senhor ressuscitado, primeira expressão radical da redenção, de
libertação do nosso pecado, momento em que Deus nos resgata para nos adquirir
como membros do Corpo de Jesus Cristo, para constituir um novo Povo que Lhe
pertença de uma maneira definitiva. A libertação do pecado dá, então, lugar à
possibilidade de vivermos n’Ele. “Ou acaso ignorais que, baptizados em Cristo
Jesus, foi na sua morte que todos fomos baptizados? Fomos, pois, sepultados com
Ele, pelo Baptismo, na morte, para que, tal como Cristo ressuscitou dos mortos
pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova” (Rom. 6, 3-4).
O Baptismo é um
sacramento administrado aos crentes ou, no caso das crianças, pedido pelos crentes,
pois supõe a fé pessoal, como participação na fé da Igreja. Mas ele radicaliza
essa fé, tornando-a experiência de união e intimidade com o Senhor vivo. Toda a
catequese preparatória do Baptismo, ou da Confirmação e da Eucaristia, no caso
dos cristãos baptizados em criança, deve procurar, acima de tudo, este encontro
pessoal com o Senhor ressuscitado, em ordem a despertar a fé e o amor e a fazer
a experiência da salvação. Compreende-se que o Santo Padre, neste ano
pré-jubilar dedicado a Jesus Cristo, aconselhe os cristãos a consciencializar e
reviver toda a riqueza do seu Baptismo, como fundamento da existência cristã,
segundo as palavras do Apóstolo: “Vós que fostes baptizados em Cristo,
revestiste-vos de Cristo” (Gal. 3, 27).
A Eucaristia,
lugar privilegiado do reconhecimento do Senhor
20. No
Baptismo e na Confirmação, o crente, ao mergulhar na morte e ressurreição do
Senhor e ao unir-se a Ele, é revestido de uma dignidade real e sacerdotal que
lhe permite agir com Cristo no acto definitivo da Sua missão redentora:
oferecer a Deus Pai o sacrifício de louvor perfeito e definitivo, em que Ele e
nós com Ele somos o sacerdote oferente e a vítima oferecida. A Eucaristia
corporiza a mais realística forma de o Senhor Ressuscitado estar presente e
actuante na Igreja. E aí nós não somos apenas espectadores beneficiários,
mas somos agentes do mistério da nossa Redenção. Por isso, a Eucaristia
supõe necessariamente o encontro dinâmico e progressivo dos cristãos com o seu
Senhor, que culmina, de cada vez, numa comunhão vital e em oferta de louvor à
Santíssima Trindade.
Aos apóstolos e
outros discípulos o Senhor ressuscitado apareceu miraculosamente; a Paulo,
envolveu-o na sua luz divina e falou-lhe, na estrada de Damasco; aos cristãos,
reunidos em Igreja, revela-se-lhes na Eucaristia. Aí O reconhecemos como
sacerdote, escolhido de entre os homens, para oferecer a Deus o sacrifício de
louvor, em que nós oferecemos e nos oferecemos com Ele, tornando-nos dignos de
Deus. Percebemos, então, como o céu e a terra se tocam, num acto de amor
trinitário, expresso também pela Humanidade redimida. Encontramos o Senhor na
sua piedade e fidelidade filiais e participamos nelas.
Ao
oferecermo-nos com Ele, tocamos o dom de Deus em nós, o dom da salvação, que
nos torna hóstia pura de louvor.
Aprendemos a humildade e a confiança para nos oferecermos, sendo ainda
pecadores. Perdemos o medo de Deus. Ao participarmos no sacrifício oferecido
por toda a humanidade, descobrimos a nossa solidariedade salvífica com todos os
homens.
É na Eucaristia
que encontramos o Senhor vivo, unidos a Ele num acto de amor redentor. É aí que
Ele nos atrai de novo, nos convida para uma união com Ele, culminada na
comunhão do seu Corpo de amor; é aí que O adoramos como nosso Deus, e aceitamos
participar com Ele na missão salvífica, que continua actual e actuante, na
Igreja. Na Eucaristia eu descubro a relação de Cristo com a Igreja e a minha
união e compromisso com Ele e com a Igreja.
Na Eucaristia reconhecemos Cristo como Palavra
eterna de Deus
21. A
comunicação da Palavra viva de Deus esteve, no Povo da Aliança, ligada ao
carisma profético. O profeta era um íntimo de Deus, alguém que Deus possuia
para o fazer escutar, no seu íntimo, a Palavra do Senhor; assim, o profeta
ousava falar em nome de Deus.
Jesus é considerado
pelos seus contemporâneos um grande profeta. “Mostrou-se como profeta poderoso
em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o Povo” (Lc 24,19). Ele
é um íntimo de Deus, é o Filho de Deus, intimidade que o Pai confirma: “Este é
o Meu Filho muito amado, em quem ponho o meu enlevo; escutai-O” (Mt. 17, 5).
Jesus, por sua vez, pode testemunhar que a sua união com o Pai é tal, que se
limita a dizer as palavras que ouviu do Pai: “As palavras que eu digo, é como o
Pai mo disse que eu as digo” (Jo. 12, 50). Ele não é apenas um profeta que fala
em nome de Deus, é a Palavra eterna de Deus, que, encarnada, habitou entre nós
(cf. Jo. 1, 1ss).
Para a Igreja,
identificada com o seu Senhor, acolher a Palavra de Deus é, antes de mais, no
seio dessa intimidade vivida, acolher o Verbo; isto é, captar a Palavra na sua
fonte divina. E a Eucaristia é um momento privilegiado para essa escuta e para
esse acolhimento. A palavra da Escritura e a palavra da Igreja são caminhos
privilegiados para acolher a Palavra de Deus. Mas se nós as escutarmos no
contexto da Eucaristia, em que, unidos a Cristo, mergulhamos no seio da
Trindade, através da palavra humana, escutamos mais facilmente a Palavra eterna
de Deus. Na Igreja, a Celebração eucaristica foi sempre o contexto natural
para proclamar a palavra da Escritura.
Reconhecer
Jesus Cristo nos irmãos
22. O
Baptismo e a Eucaristia unem-nos de tal modo a Jesus Cristo, que nos
identificam com Ele. É por isso que a Igreja é o Corpo de Cristo.
No diálogo
entre Saulo e Cristo, na estrada de Damasco, o Senhor identifica-se com os
cristãos que Saulo persegue. “Saulo, Saulo, porque Me persegues? E ele
perguntou: quem és tu, Senhor? A voz respondeu-lhe: Eu sou Jesus, a quem tu
persegues” (Act. 9, 4-5).
Daí que
o Senhor espere que nós amemos os irmãos com o mesmo amor com que O amamos. E disso nos pedirá contas no último
julgamento: “Saibam que todas as vezes que fizeram isso a um destes Meus irmãos
mais pequeninos, foi a Mim que o fizeram” (Mt. 52, 40).
Neste
texto ressalta a predilecção de Jesus pelos mais pobres e desfavorecidos. Neles
encontramos e amamos o Senhor. Esta identificação supõe que reconhecemos e
encontrámos Jesus Cristo através dos meios sacramentais da Igreja, e brota
expontaneamente da nossa comunhão com Ele.
A fé em
Nosso Senhor Jesus Cristo ilumina-nos o coração e é essa luz que nos leva a
reconhecê-lO nos irmãos. “Se caminharmos na luz, tal como Deus, que está na
luz, estamos em comunhão uns com os outros” (1 Jo. 1, 7); “aquele que ama o seu
irmão, permanece na luz” (1 Jo. 1, 10).
Para quem,
conduzido pela luz da fé, é capaz deste reconhecimento, a presença de Cristo
nas suas vidas é uma realidade contínua.
IV. Em Nosso Senhor Jesus Cristo reconhecemos
a autêntica dignidade do
homem
23. O
encontro com Jesus ressuscitado conduziu-nos àquele momento em que, no seio
virginal de Maria, acolhido na sua fé e obediência, “o Verbo se fez homem e
habitou entre nós”. E o evangelista acrescenta: e então “nós vimos a Sua
glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho unigénito, cheio de graça e de
verdade” (Jo. 1, 14). No homem Jesus, Encarnação do Verbo eterno de Deus,
contemplamos simultaneamente a glorificação de Jesus e a glorificação do homem.
Ora no processo da Encarnação redentora, a glória do Verbo encarnado manifesta-se
plenamente na ressurreição; a glorificação do homem em Cristo começa a
manifestar-se na graça baptismal e atingirá a sua plenitude quando, no fim dos
tempos, ressuscitar com Cristo.
Sobre a
referência à Encarnação do Verbo, no texto de S. João, paira o mistério da
ressurreição, plenitude de Cristo e plenitude do homem. Ambos os momentos são
fruto da obra criadora de Deus: no seio de Maria é o Espírito Santo que realiza
a encarnação do Verbo (Lc. 1, 35); no sepulcro de Jesus é o Pai, através do
Espírito Santo, que cria essa humanidade plena e definitiva, ressuscitando
Jesus (Ef. 1, 23); no coração do homem crente é o Espírito Santo o autor da
vida nova, em Cristo ressuscitado.
A grandeza da
nova criação
24. No
início de tudo, Deus criou a partir de Si mesmo (Gen. 1, 1 ); na plenitude do
tempo, ao redimir o homem, Deus deu origem à nova criação. Apesar de manchada
pelo pecado e reduzida à escravidão, Deus encontrou nela algo de virginal, que
permitiu a Deus realizar a Sua obra recriadora.
Deus não poderia
ter-se feito homem se no homem não permanecesse algo da sua dignidade original,
a permitir radicalmente essa união misteriosa entre Deus e o homem: “Fizeste-O pouco inferior a um Deus,
coroando-O de glória e esplendor” (Sl. 8, 6). É esta glória e esplendor que se
manifestam na encarnação do Verbo de Deus. Deus nunca abandonou o homem ao
pecado, antes com o seu amor preservou nele algo dessa virgindade original.
A virgindade é
a pureza da criação como ela saiu das mãos de Deus; se se manifesta numa criatura,
ela é disponibilidade total do coração para acolher a vontade e o amor de Deus.
Referindo-se a Maria, S.
Bernardo chama-lhe humildade, a atitude de total submissão a Deus e ao Seu
desígnio (14). A segunda criação realiza-a Deus a partir dessa
virgindade ou humildade que floriram em fidelidade e obediência. Em Maria,
preservada de toda a mácula por singular predilecção do Pai, o Espírito de Deus
cria, no seu seio virginal, a humanidade do Verbo encarnado, afirmando a
exclusividade da sua iniciativa divina na nova criação. Em Maria voltaram a
manifestar-se a glória e o esplendor do homem.
Na ressurreição
de Jesus, é a partir da sua humanidade virginal, obra de Deus no seio de Maria
e afirmada na sua obediência filial e redentora, que o Espírito Santo inaugura
a humanidade definitiva, ressuscitando-O dos mortos. Nos cristãos, é a partir
da sua humanidade purificada no baptismo, que o mesmo Espírito vai edificando a
santidade, preparando-os para a glória final da ressurreição. O processo da
redenção vai restituindo ao homem a sua dignidade original, manchada pelo
pecado, até se revelar nele a glória dos filhos de Deus.
25. Jesus
Cristo ressuscitado é a plena afirmação da dignidade do homem e o anúncio da
sua glorificação definitiva. As culturas e as outras religiões podem e devem
aproximar-se da consciência da dignidade do homem. Mas a qualidade e a
grandeza dessa dignidade humana só se revelam em Jesus Cristo, Verbo encarnado,
que revela o homem a si mesmo. “Em Jesus Cristo, Deus não só fala ao homem,
mas procura-o. A Encarnação do Filho de Deus testemunha que Deus procura o
homem. Jesus fala desta busca como sendo recuperação de uma ovelha tresmalhada
(cf. Lc. 15, 1-7). É uma busca que nasce do íntimo de Deus e tem o seu ponto
culminante na Encarnação do Verbo. Se Deus vai à procura do homem, criado à Sua
imagem e semelhança, fá-lo porque o ama eternamente no Verbo, e em Cristo quer
elevá-lo à dignidade de filho adoptivo. (...) Deus procura o homem, impelido
pelo Seu coração de Pai” (15).
A dignidade do
homem vai-se afirmando, abrindo-se a este amor solícito de Deus, permanecendo
na intimidade com Ele, e abrindo-se à dignidade dos outros homens, amando-os
como Deus os ama. Este é o ponto de partida da construção da fraternidade e da
doutrina social da Igreja.
V. Jesus Cristo nossa promessa e nossa esperança
26. O
acontecimento pascal é a semente da plenitude do homem. Essa plenitude
encontra no Senhor Jesus a sua raiz fecunda; pode ser experimentada, desde já,
ao ritmo da nossa fidelidade, mas é também um futuro prometido, objecto da
nossa esperança, meta da nossa vida e da nossa história. “Nós sabemo-lo, de
facto: toda a criação, até esse dia, geme em trabalhos de parto. E não apenas a
criação: nós próprios, que já possuimos as primícias do Espírito, gememos,
também nós, interiormente, na expectativa da redenção do nosso corpo. Porque a
nossa salvação é objecto de esperança” (Rom. 8, 22-24).
Esta progressiva
identificação com Cristo, até à participação final na glória da sua
ressurreição, constitui o tempo da Igreja, em que a história da salvação
continua, ao ritmo do Espírito. Nunca, como nestes tempos, que são os
últimos, Jesus Cristo se afirma como centro e Senhor da História. O termo
desta é marcado pela participação plena da Humanidade na glória de Jesus Cristo.
“Depois será o fim, quando Ele entregar a realeza a Deus Pai, depois de ter
destruido todo o principado, dominação ou potência. Porque é preciso que Ele
reine até que tenha colocado todos os inimigos debaixo dos seus pés. (...) E
quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se
submeterá Àquele que tudo Lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos” (Rom.
15, 25-28).
Este momento
será, simultaneamente, o triunfo de Cristo Redentor e o triunfo da Humanidade
resgatada por Cristo.
À espera do
Senhor que voltará
27. A
Tradição Cristã, baseada no Novo Testamento, anunciou este triunfo final da
Redenção, falando da última vinda de Cristo, que a Igreja espera e deseja,
na mesma medida em que deseja e luta pela santidade. Simbolicamente
relacionada com a Ascensão de Jesus ressuscitado ao Céu , – “Homens da Galileia
(...) Aquele que vos foi tirado, este mesmo Jesus, voltará assim, da mesma
maneira que O vistes partir para o Céu” (Act. 1, 11) – transforma-se na meta
definitiva da salvação. S. Paulo fala dessa vinda do Senhor, coincidindo com a
nossa ressurreição dos mortos, para estarmos, para sempre, com Ele (1 Tess.
4,13-18).
Neste tempo
intermédio, o tempo da Igreja, os cristãos sabem que o Senhor glorioso está
junto de Deus, nos céus, e a Sua presença na Igreja exprime-se na acção do
Espírito Santo, na Palavra e nos Sacramentos, de modo particular na Eucaristia,
no coração daqueles que, unidos a Ele, esperam pela Sua manifestação
definitiva. Há, neste tempo da graça, uma tensão dolorosa, daqueles que, no
Baptismo, foram introduzidos na Sua intimidade e anseiam por uma união
definitiva. “Desejo partir e estar com Cristo” (Fil. 1, 23); “Estamos seguros e
confiantes, preferimos deixar este corpo para ir morar junto do Senhor” (2 Cor.
5, 8).
28. Esta
expectativa do encontro definitivo com o Senhor ressuscitado, para viver sempre
com Ele, corresponde ao tempo da redenção, do arrependimento dos pecados e de
uma união a Cristo, na fé, suficientemente forte para poder desejar o seu
regresso. O anúncio da salvação, feito pelos apóstolos a seguir ao
Pentecostes, inclui esta tensão: “No entanto, irmãos, eu sei que foi por
ignorância que vós agistes, bem como os vossos chefes. Arrependei-vos, pois, e
convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados e, assim, o Senhor
faça vir o tempo da consolação. Ele enviará, então, Cristo que vos foi
destinado, Jesus, Aquele que os céus devem guardar até ao tempo da ressurreição
universal, de que Deus falou pela boca dos seus santos profetas” (Act. 3,
17-21).
Este Senhor, que
os céus guardam, é a promessa da Igreja. O Povo de Deus viveu sempre a sua fé
na tensão entre a aliança vivida e a promessa da aliança definitiva. Cristo
ratificou a aliança definitiva com a Humanidade; a realização plena desta aliança
é a promessa da Igreja e acontecerá na plenitude da Redenção.
A Igreja
deseja esse momento, na medida mesma da autenticidade da sua fé em Jesus
Cristo. O Senhor que
esperamos, é o mesmo que encarnou no seio da Virgem Maria: “Eu sou o rebento da
raça de David, a Estrela radiosa da manhã” (Apoc 22,16). A sua última vinda
manifestará plenamente o sentido da Encarnação redentora, as núpcias
definitivas entre a Humanidade e a Trindade Santíssima. A Igreja, com quem
Jesus Cristo já celebrou essas núpcias eternas, só pode desejar a sua
consumação. “O espírito e a esposa dizem: Vem! Que Aquele que escuta, diga:
Vem! E que o homem ressequido se aproxime, que o homem que deseja receba
gratuitamente a água da vida” (Ap. 22, 17). O próprio Cordeiro imolado, que é
hoje o Senhor da Glória, o garante: “Sim, o meu regresso está próximo”. E a
Igreja responde: “Oh, Sim! Vem Senhor Jesus”! (Ap. 22, 20).
29. Que
durante este tempo jubilar, pela renovação da nossa fé, pela conversão do
coração, nós possamos, no reencontro contínuo e surpreendente de Nosso Senhor
Jesus Cristo, aumentar o desejo desse encontro definitivo. A Virgem Santa
Maria, através de quem Deus deu ao mundo o Seu Filho encarnado, hoje gloriosa
no Céu, conduzir-nos-à, pela atracção do coração, à festa do Reino dos Céus!.
VI. Interpelações pastorais
30. Toda a
“Tertio Millenio Adveniente” é uma interpelação pastoral. Ao propor três anos
de preparação próxima para o Jubileu e ao convidar a Igreja a aprofundar,
durante o ano de 1997, o mistério de “Jesus Cristo, único salvador do mundo,
ontem, hoje e sempre”, o Santo Padre convida-nos a um processo de renovação e
de conversão.
De uma forma
complementar às orientações pastorais emanadas da Comissão Nacional para o
Jubileu, esta Carta Pastoral apresenta-nos algumas interpelações pastorais.
A cristianização
do tempo
31. Celebrar
jubileus é uma concretização do facto da acção salvífica de Deus atingir a sua
plenitude na Encarnação redentora do Verbo eterno de Deus, na pessoa de Jesus
Cristo. Ao assumir a nossa natureza, Ele dá sentido salvífico a toda a
realidade humana, incluindo o tempo e a história. Com o nascimento de Jesus, o
tempo humano, marcado pela relatividade da duração, toca o tempo divino, cuja
qualidade é a intensidade da plenitude, vivida em cada momento. Essa
intensidade do tempo divino constitui a experiência da eternidade.
Cristo sendo a
plenitude da salvação, n’Ele, o tempo, em cuja duração acontece a salvação do
homem, atingiu também o seu termo; isto é, tocou a eternidade, participando da
plenitude de Deus.
Cada momento da
nossa vida deve ser santificado pela união a Jesus Cristo. A relação do homem
com o tempo foi profanizada, esquecendo que cada momento, cada data, cada
festa, são etapas da caminhada para a salvação.
Não podemos
esquecer que, durante o milénio que agora termina, cometeram-se vários
atropelos à mensagem evangélica sobre o Homem. O Jubileu será, assim, desafio
de conversão e arrependimeto, reconduzindo este espaço de tempo à verdade da
salvação.
Procuremos dar,
durante este tempo jubilar, um sentido cristão ao tempo em que vivemos a nossa
vida.
Sagrada Escritura
e pastoral da Fé
32. A fé
brota do acolhimento da Palavra e significa a nossa adesão ao encontro pessoal
com Jesus Cristo. Durante este tempo jubilar somos chamados a aprofundar a
pastoral da fé, concebida como aceitação sincera da ressureição de Jesus e de
encontro pessoal com o Senhor ressuscitado. Está aí o fundamento da vida
cristã.
O caminho
indicado pelo Santo Padre, para esta pastoral da fé, é o regresso à Sagrada
Escritura, lida, estudada, acreditada, rezada e celebrada como caminho de
encontro com Cristo, conduzidos por Maria, a Virgem Mãe (16).
As comunidades
cristãs, lugar da vivência do Jubileu
33. A salvação,
sendo pessoal, tem dimensão comunitária. O Santo Padre aconselha a valorizar,
durante este tempo jubilar, todas as comunidades em que os cristãos procuram
viver a sua fé.
É por isso que as
dioceses, as comunidades, os movimentos, a família, serão lugares previligiados
da vivência do jubileu. Aí os cristãos que buscam a santidade têm nome e os
outros homens e mulheres que buscam a salvação são nossos amigos ou conhecidos,
companheiros de trabalho, membros da nossa família. Tantas vezes a pobreza do
nosso testemunho cristão é uma das causas da sua indecisão em buscarem o rosto
do Senhor. No que respeita à família, é indicação expressa do Santo Padre: “É
necessário que a preparação para o Grande Jubileu passe, em certo sentido,
através de cada família” (17).
Amor dos irmãos e
doutrina social da Igreja
34. A
identificação com Nosso Senhor Jesus Cristo e com a sua Palavra, leva-nos a
olhar o homem e a sociedade contemporânea, na complexidade da sua realidade, à
luz da nossa fé. Somos, assim, convidados a conhecer melhor e a divulgar a
doutrina da Igreja sobre o homem e a sociedade. A doutrina social da Igreja é o
Evangelho aplicado às circunstâncias concretas do tempo e da história.
Uma catequese
jubilar
35. A preparação
do Jubileu sugere às comunidades um conjunto de temas para enriquecer a
catequese, em todas as suas etapas e formas, proporcionando um aprofundamento
dos motivos da fé. São muitos os cristãos que sabem pouco sobre Jesus Cristo. O
que aprenderam, a respeito d’Ele, pode não os ter levado a um compromisso de
vida com o Ressuscitado. É, pois, necessário privilegiar o aprofundamento da
relação pessoal com o Senhor, descobrindo, através da oração, dos sacramentos e
da Sagrada Escritura, o rosto humano do Filho de Deus.
Não poderá estar
ausente da perspectiva catequética a busca do diálogo ecuménico em ordem à
unidade da Igreja. Apesar das separações seculares, os cristãos católicos devem
aprender a recohecer as sementes da fé, que existem nas outras comunidades
cristãs, e a abrir-se à caridade.
Aliás, tendo em
conta a pluralidade de tendências legítimas, dentro da própria Igreja Católica,
a vivência da comunhão exigirá sempre tolerância e abertura à diferença.
O sacramento do
Baptismo, como união à morte e ressurreição do Senhor, deve, durante este ano,
ocupar um lugar central na catequese.
Celebrar a
alegria da salvação
36. A
palavra jubileu evoca a alegria da salvação. Este ano de graça é, pois, um
convite a celebrar, pessoal e comunitariamente, a alegria que nos vem de Deus (18).
Dois mil anos de história merecem que os cristãos façam festa e dêem ao mundo o
testemunho sincero da alegria da salvação. Ela tem a sua fonte em Nosso Senhor
Jesus Cristo, em Quem experimentamos o júbilo da intimidade com Deus, o alívio
de um coração liberto, o conforto da força que nos torna capazes do humanamente
impossível. É precioso o testemunho da alegria dos cristãos, mesmo na provação.
É a experiência pascal do sofrimento transformado em alegria, prometida por
Jesus aos discípulos (Jo. 16, 20).
Temos acesso a
este dom através da oração, em que encontramos o Senhor Jesus na intimidade do
seu amor misericordioso; na celebração da Penitência, em que a nossa
consciência reconciliada encontra o dom da alegria e da paz; na Eucaristia,
momento em que nos reconhecemos como Povo do Senhor, fazendo um só com Ele, na
Sua qualidade de vítima e de sacerdote, vivendo aí o nosso encontro com o
Ressuscitado, partilhando a alegria da Páscoa, antecipação da alegria
definitiva da Parusia.
A Liturgia será,
para a Igreja em jubileu, a grande manifestação comunitária da alegria da
salvação. Mesmo o júbilo a que a Igreja é convidada “pretende ser uma grande
oração de louvor e agradecimento, sobretudo pelo dom da Encarnação do Filho de
Deus e da Redenção por Ele operada” (19).
Esta experiência
da Igreja atrairá a ela aqueles que, embora seus membros, andam afastados. A
Igreja experimentará, desde já, nesse encontro progressivo dos irmãos, a
alegria do Reino dos Céus.
Sob a protecção
maternal de Maria
37. Maria é
o caminho certo para encontrarmos o seu Filho Jesus. Na sua missão maternal, ela
deu-O ao mundo, dando-O à luz. Ofereceu-O, aos pés da cruz, para redenção da
Humanidade, selando assim a plenitude da sua maternidade. Com a sua solicitude
maternal, continua a conduzir-nos ao encontro de Jesus Cristo e segreda-nos,
como em Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo. 2, 5).
O papel de Maria,
na Igreja, não é separável de Jesus Cristo. Este tempo jubilar é propício para
inculcar no nosso Povo, que tanto amor tem a Nossa Senhora, esta dimensão do
seu mistério. Amar Nossa Senhora sem amar Jesus Cristo é amor que não a louva.
Jesus Cristo e Maria são uma única manifestação da infinita ternura de Deus.
Lisboa,
Solenidade de Jesus Cristo Rei e Senhor do Universo, 24 de Novembro de 1996
(1) Cf.
Encíclica Redemptor Hominis (RH), nº 1.
(2) Tertio
millenio Adveniente (TMA), nº 40.
(3) TMA,
nº 25.
(4) TMA,
nº 30.
(5) TMA,
nn. 10-11.
(6) TMA,
nn. 12-14.
(7) RH,
nº 7.
(8) Evangelii
nuntiandi (EN), nº 9.
(9) RH,
nº 8.
(10)
Gaudium et Spes (GS), nº 22; cf. RH, nº 8.
(11)
Tradução grega da Bíblia, surgida no séc. III, A.C. no contexto da comunidade
judaica de Alexandria. O seu prestígio, entre outras traduções que existiram,
veio-lhe do facto de ter sido utilizada pelo Novo Testamento e pela Igreja
primitiva.
(12) Cf.
1 Cor. 12,27; Rom. 12,5; Ef. 5,21ss.; Ef. 1,22-23.
(13) EN,
nº 16.
(14) S.
Bernardo. “In laudibus Virginis Matris”, in L. LECLERQ e H. ROCHAIS, S.
Bernardi Opera. vol. IV, p.22.
(15) TMA,
nº 7.
(16) TMA,
nn. 40-43.
(17) TMA,
nº 28.
(18) TMA,
nº 16.
(19) TMA,
nº 32.
ÍNDICE
I. Introdução
– Preparação do Grande Jubileu do Ano 2000
– Jesus Cristo no centro das celebrações jubilares
– Destinatários e perspectiva da Carta Pastoral
II. Jesus
Cristo nosso Salvador e Redentor
– O que é a salvação
– Sentir a necessidade da salvação
– De quem esperamos a salvação
– Pela redenção, Deus adquire para Si um Povo
– A fé é o princípio da salvação
III. O
Encontro com Jesus Cristo
– Reconhecer o Senhor
– Reconhecer Jesus Cristo como nosso Senhor e nosso
Deus
– A Igreja participa da plenitude de Cristo ressuscitado
– Reconhecer Jesus Cristo na sacramentalidade da
Igreja
– Reconhecer o Senhor na Palavra da Igreja
– Reconhecer o Senhor no Baptismo
– A Eucaristia lugar previligiado do reconhecimento do
Senhor
– Na Eucaristia reconhecemos Cristo como Palavra
eterna de Deus
– Reconhecer Jesus Cristo nos irmãos
IV. Em Nosso Senhor Jesus Cristo reconhecemos A
autÊntica dignidade do homem
– A grandeza da nova criação
V. Jesus Cristo nossa
promessa e nossa esperança
– À espera do Senhor que voltará
VI. Interpelações
pastorais
– A cristianização do tempo
– Sagrada Escritura e pastoral da fé
– As comunidades cristãs, lugar da vivência do Jubileu
– Amor dos irmãos e doutrina social da Igreja
– Uma catequese jubilar
– Celebrar a alegria da salvação
– Sob a protecção maternal de Maria