Por Santo
Agostinho
DA INFÂNCIA AOS QUINZE ANOS
1.
INVOCAÇÃO A DEUS
1 Grande
és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e atua sabedoria não tem
limite (1). E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado
com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado (2) e com o testemunho
de que resistes aos soberbos (3); e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de
tua criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te ; fizeste-nos para ti, e
inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti (4). Dá-me, Senhor, saber e
compreender (5) qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te
(6). Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em
lugar de outro. Ou será que é melhor seres invocado, para seres conhecido? Como,
porém, invocarão aquele a quem não crêem? E como terão fé sem ter quem anuncie? (7)
Louvarão o Senhor aqueles que o procuram (8). Quem o procura o encontra (9), e,
tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te
invoque, crendo em ti: tu foste anunciado. Invoca-te, Senhor, a minha fé, que me deste,
que me inspiraste pela humanidade de teu Filho, pelo ministério de teu pregador.
1.
Sl 48 (47),2;96(95),4;145(144),3;147(146),5.
2.
Cf. 2Cor 4,10; Rm 7,17.23
3. Pr
3,34; Tg 4,6; 1Pd 5,5
4. A frase tornou-se
célebre. Com a "confissão", isto é, a celebração da grandeza do amor de
Deus, Agostinho abre o livro em que se confessa pecador O homem se converte, encontra-se a
si mesmo, sua plena realização repousando na medida em que busca o Amor, que é Deus.
5. Cf.
Sl 119(118),34 73 144
6. Cf.
De Trin. 9,1;13,5.8
7.
Rm 10, 14
8.
Sl 22(21),27
9.
Cf. Mt 7,8; Lc 11,10
2. COMO
E PORQUE INVOCAR DEUS?
2
E como invocarei o meu Deus, ó meu Deus e meu Senhor? Pois, ao invocá-lo, eu o chamarei
para dentro de mim (1). Que lugar haverá em mim, onde o meu Deus possa vir? Onde virá
Deus em mim, o Deus que fez o céu e a terra (2)? Há, então, Senhor meu Deus,
algo em mim que te possa conter? E o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste,
são eles capazes de te conter? Ou então, visto que sem ti nada existe daquilo que
existe, será que tudo que existe te contém? Portanto, já que eu de fato existo, porque
tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não estivesses em mim? Eu
ainda não estive nas profundezas da terra e, no entanto, tu aí também estás. Pois, mesmo
que eu desça às profundezas da terra, aí estás (3). Pois eu não existiria, meu
Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim (4). Ou melhor, eu não
existiria se não existisse em ti, de quem tudo, por quem tudo, em quem todas as coisas
existem? (5) É assim, Senhor, é assim mesmo. Para onde te chamo, se já estou em ti?
De onde virias para estares em mim? Para onde me afastaria, fora do céu e da terra, para
que daí viesse a mim o meu Deus, que disse: o céu e a terra estão cheios da minha
presença? (6).
1. "Invocar" pode
significar súplica a uma pessoa, ou convite para ela entrar. Agostinho joga com a
responsabilidade desse duplo sentido.
2.
Gn 1,1;2Cr 2,11
3.
Sl 139(138),8; cf. Enarr. in Sl. 138,8
4.
Cf. De Gen. ad litt, 4,12ss
5.
At 17,28; Rm 11,36; 1Cor 8,6
6. Jr 23,24
3. DEUS
ESTÁ EM TODAS AS COISAS E NENHUMA O CONTÉM
3
Portanto, cabes tu no céu e na terra, visto que os enches com a tua presença? Ou,
enchendo-os, resta ainda alguma parte de ti, por não te conterem? Por onde difundes o que
resta de ti, depois de repletos o céu e a terra? Ou não tens necessidade de ser contido
em alguma coisa, tu que tudo conténs, visto que as coisas que enches, as ocupa
contendo-as? (1) Não são, pois, os vasos cheios de tu que te tornam estável porque,
ainda que se quebrem, não te derramas; e quando te derramas sobre nós (2) não és tu
que te baixas, mas nós que somos elevados a ti; não te dispersas, mas nos recolher a
nós.
Mas tu, que tudo enches, o fazes com todo o teu ser. E já que o universo inteiro não
pode conter todo o teu ser, conterá somente uma parte? E todos os seres conterá a mesma
parte, ou cada um conterá uma, os seres maiores a parte maior, os menores a menor? Mas
há em ti partes maiores e partes menores? Ou estás inteiro em toda parte, e nada existe
que te contenha inteiramente? (3).
1. Deus "contém"
todas as coisas, no sentido de que conserva, sustenta, dá ânimo, vida e força a tudo.
2.
Cf. Gl 2,28; At 2,17s; Tt 3,6
3.
Cf. Epist. 13,2,4; Serm. 42,5,15
4. DEUS
É INEFÁVEL
4
O que és, portanto, meu Deus? O que és, pergunto eu, senão o Senhor meu Deus?
"Quem é, pois, senhor, senão o Senhor? Ou quem é deus, senão o nosso Deus?"
(1). Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso,
misericordioso, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo,
estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo (2) e nunca antigo, tudo
inovando (3), conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disto se apercebam (4),
sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando,
preenchendo e protegendo, criando, nutrindo e concluindo; buscando ainda que nada te
falte. Amas, e não te apaixonas; tu és cioso (5), porém tranqüilo; tu te arrependes
(6) sem sofrer; entras em ira (7), mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano;
recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com
os lucros; não és avaro e exiges os juros (8); nós te damos em excesso (9), para que
sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja tua? (10) Pagas as
dívidas, sempre que devas a ninguém, e perdoas o que te é devido, sem nada perderes.
Mas, que estamos dizendo, meu Deus, vida da minha vida, minha divina delícia? Que
consegue dizer alguém quando fala de ti? Mas ai dos que não querem falar de ti, pois
são mudos que falam.
1. Sl 18(17),32
2. É novo quem adquire
algo que antes não possuía; portanto, quem é perfectível.
3.
Cf. Sb 7,27; Ap 21,5
4.
Jó 9,5; Adnot. in Job 9
5.
Cf. Gl 2,18; Zc 1,14;8,2
6. Cf. Gn 6,6s
7. Ex 4,14
Cf.
Mt 25,27
9.
Lc 10,35
10
Cf. Tract. in Joann. 5,1
5.
DESEJO DE DEUS
5
Quem me fará descansar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries a
ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim?
(1) Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes
amar-te e, se eu não o fizer, te indignares (2) e me ameaçares com imensas desventuras?
Como se o não te amar já fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu
Deus, o que é tu para mim? Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação (3). Dize
de forma que eu te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de tu, Senhor;
abre-os e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Correrei atrás destas
palavras e te segurarei. Não escondas de mim a tua face (4): que eu morra para
contemplá-la e para não morrer!
6
Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti, Senhor. Estás
em ruínas: restaura-a! Tem coisas que ofendem aos teus olhos: eu o seu e confesso . Mas
quem pode purificá-la? A quem, senão a ti, eu clamarei: Purifica-me, Senhor, dos
pecados ocultos, e perdoa a teu servo as culpas alheias? (5) Creio, e por isso falo,
Senhor (6): tu o sabes. Não te confessei contra mim as minhas faltas, meu Deus,
e não perdoaste a maldade do meu coração? (7) Não discuto contigo (8), que és a
verdade, e não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniqüidade não minta a si
mesmo (9). Não discuto contigo porque, se te lembrares de nossos pecados, Senhor, quem
suportará teu olhar? (10)
1. Cf.
De Trin. 7,4
2.
Cf. Sl 85(84),6
3.
Sl 35(34),3
4.
Cf. Dt 31,17;32,20
5.
Sl 19 (18),13-14
6.
Cf. Sl 116(115),10
7.
Sl 32(31),5
8.
Cf. Jó 9,3; Jr 2,29
9.
Cf. Sl 27(26),12
Cf.
Sl 130(129),3
6.
MISTÉRIO DA NATUREZA HUMANA E SUA FINITUDE. DEUS É ETERNO
7
Deixa, no entanto, que eu fale diante de tua misericórdia, eu que sou pó e cinza
(1); deixai-me falar, já que à tua misericórdia me dirijo, e não a um homem pronto a
escarnecer de mim. Talvez também tu te rias de mim (2). Mas se olhares para mim, terás
misericórdia. Que pretendo dizer, Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim para
cá, para esta vida mortal, ou antes, para esta morte vital? Não sei. Mas fui escolhido
pelas consolações de tua misericórdia; assim me disseram meus pais: de um me tiraste e
de outro me formaste no tempo; eu de fato não me lembro. Acolhera-me, então, as doçuras
do leite humano; mas não eram minha mãe nem minhas amas que enchiam os seus seios. Eras
tu, Senhor, que me davas por meio delas o alimento da infância, segundo o plano pelo qual
dispuseste todas as riquezas até o mais profundo das coisas. Fazias também com que eu
não desejasse mais do que me davas, e às minhas amas que não me quisessem dar senão o
que lhes concedias: movidas por afeição desordenada, davam-me aquilo de que tinham em
abundância, graças a ti. O bem, delas recebido, era para elas igualmente um bem, do qual
não eram elas a origem, mas intermediárias dele; porque de ti, ó Deus, me vêm todos os
bens, e do meu Deus toda a minha salvação! Percebi isso mais tarde, quando bradaste
através desses mesmos dons que interior e exteriormente concedes. Mas, então, eu nada
mais sabia senão sugar o leite, aquietar-me com o que agradava aos meus sentidos, e
chorar o que importunava a minha carne (3), e nada mais.
8
Em seguida, comecei também a rir, primeiro enquanto dormia, depois acordado. Destas
ações fui informado e nelas acreditei pelo exemplo dados pelas outras crianças. Eu
mesmo nada lembro daquele tempo. Pouco a pouco ia reconhecendo o lugar onde me encontrava,
e queria manifestar meus desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não
conseguia, porque eles estavam dentro de minha alma e elas estavam fora, e através de
nenhuma percepção teriam podido penetrar no âmago de minha alma. E assim eu me debatia
e gritava, exprimindo uns poucos sinais proporcionais aos meus desejos, como eu podia e de
maneira inadequada. Se não era obedecido, ou porque não me entendiam ou por medo de me
fazerem mal, eu me indignava com essas pessoas grandes e insubmissas que, sendo livres,
recusavam ser escravas, chorando, eu me vingava delas. Assim são as crianças, como
depois pude observar. Inconscientemente elas me informam daquilo que eu tinha sido, melhor
que os meus competentes educadores.
9
Minha infância morreu há muito tempo, e eu ainda vivo. Mas tu, Senhor, que estás sempre
vivo e em quem nada morre, - pois és anterior ao começo dos séculos e a tudo o que se
possa dizer anterior, - tu és Deus e Senhor de tudo o que criaste. Em ti permanecem
estáveis as causas de todas as coisas instáveis, permanecem imutáveis os princípios de
todas as coisas mutáveis, permanecem eternas as razões de tudo que é temporal e
irracional. Dize-me Senhor, eu te suplico, tu que tens compaixão da minha miséria,
dize-me se a minha infância sucedeu a outra vida já morta; se tal idade não seria o
tempo passado nas entranhas de minha mãe. Pois, alguma coisa me revelaram dessa vida, e
eu mesmo vi mulheres grávidas. Mas antes disso, que era eu, meu Deus, ó minha doçura?
Existi, porventura, em qualquer outra parte, fui alguém? (4) Não tenho ninguém que
saiba responder a essas perguntas: nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência de
outrem, nem a minha memória. Sorris, talvez, de minhas perguntas, tu que ordenas
louvar-te e glorificar-te apenas pelas coisas que conheço!
10
Eu te glorifico, Senhor do céu e da terra (5), louvando-te por meu nascimento e
pela infância, da qual não me lembro; concedeste ao homem a possibilidade de reconstruir
o próprio passado pelo que vê dos outros homens, e de acreditar em muitas ações
também pelo testemunho de humildes mulheres. Eu já existia, era vivo então, e no fim da
minha infância já procurava a maneira de manifestar aos outros os meus sentimentos. De
onde poderia vir tal criatura, senão de ti, Senhor? (6) Alguém pode ser autor de sua
própria criação? E de onde pode surgir em nós a fonte do ser e da vida, senão de ti,
Senhor (7), para quem, existir e viver não são realidades distintas, pois o supremo
existir e o supremo viver é uma coisa só?
És tu o ser supremo, e não mudas (8). Em ti o dia de hoje não passa, e no entanto passa
por ti, pois todas as realidades deste mundo residem em ti (9); e não teriam meios de
passar, se tu não as contivesses. E porque teus anos não têm fim (10), os teus anos
são o dia de hoje; quanto dos dias nossos e dos nossos pais já passaram por este teu
hoje, e dele receberam a medida e o modo de existir, e quantos ainda passarão e
receberão a medida e o modo de sua existência! Tu, porém, és o mesmo eternamente
(11), e todas as coisas de amanhã e do futuro, de ontem e do passado, hoje as farás,
hoje as fizeste!
Que posso fazer, se alguém não compreende? Que exulte, dizendo: que mistério é
este? (12) Que exulte e prefira encontrar-te, não te compreendendo, a não te
encontrar, compreendendo (13).
1.
Gn 18,27
2.
Cf. Sl 2,4;37(36),13; Sb 14,18
3. Cf. Sb 7,3
4. Alude à doutrina da
pré-existência da alma. Agostinho sofreu forte influência da filosofia neoplatônica,
que ensinava essa doutrina.
5. Mt
11,25
6. Cf.
De immori. animae 6,11
7.
Cf. Sl 100(99),3
8.
Ml 3,6
9.
Cf. Rm 11,36; Confess XI,1; Enarr. in Ps. 9,11
10.
Cf. Sl 102(101),28; Enarr. in Ps. 101,2,10.
11. Sl 102(101),28; Hb 1,12
12. Ex 13,14
13. É melhor não
pretender a compreensão de tudo, ou seja, a presunção de haver compreendido a Deus, sem
tê-lo encontrado realmente: na verdade, é amando que a gente encontra e compreende a
Deus.
7.
AGOSTINHO RECORDA OS PECADOS COMETIDOS NA INFÂNCIA
11
Ouve-me Senhor! Ai dos pecados dos homens! É uma homem que assim fala; e dele te
compadeces, porque és o seu Criador, e não o autor do seu pecado. Quem me poderá
lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja
imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? (1)
Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual
era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da
minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos
alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. Meu
procedimento era então repreensível, mas como não teria podido compreender as
reprimendas, nem a razão nem os costumes permitiam que eu fosse reprovado. Como o crescer
dos anos, extirpamos e atiramos fora tais defeitos, e nunca vi ninguém que, para cortar o
mal, rejeitasse conscientemente o bem! Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade,
exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com violência contra homens adultos
e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam
satisfazer a certos desejos? Seria justo fazer todo o possível para prejudicá-los,
porque eles não se prestavam a obedecer a ordens que seriam nocivas? Portanto, a
inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não da alma. Vi e observei
bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada
para o seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas
têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos; sem dúvida não é inocente a
criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um
irmão embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida. No entanto, tais
fatos são tolerados com indulgência, não por serem de pouca ou nenhuma importância,
mas porque desaparecerão ao correr dos anos. Prova disso é que nos irritamos contra tal
procedimento, quando o surpreendemos em pessoa de mais idade.
12
E tu, Senhor meu Deus, que à criança deste a vida e um corpo, como se vê, dotado de
sentido, composto de membros, ornado de beleza, e lhe insuflaste os impulsos vitais para
defender a sua própria integridade, ordenas que eu te louve por todas as obras, que te celebre
e cante o teu nome, ó Altíssimo (2), porque és o Senhor onipotente e bom, ainda que
somente essas coisas tivesses criado. Nenhum outro as pode fazer, senão tu, ó Deus
único, de quem promana toda harmonia, ó forma perfeita, que formas todas as coisas e que
tudo ordenas de acordo com as tuas próprias leis.
Por isso, Senhor, não me agrada considerar, como parte integrante da minha vida terrena,
essa idade que não lembro ter vivido, a respeito da qual creio no que me dizem os outros
e nas conjecturas, aliás muito bem fundadas, que formei ao observar outras crianças.
Esse tempo de memória envolto em trevas encontra paralelo na época em que vivi no seio
materno. E se fui concebido na iniqüidade, e no pecado me alimentou a minha mãe no
seu seio (3), onde foi, eu te suplico, meu Deus, onde foi, meu Senhor, eu teu servo,
onde e quando foi que estive inocente? (4) Mas deixemos de lado esse tempo; que tenho eu a
ver com ele, se dele não conservo o menor vestígio?
1. Aflora aqui a visão
pessimista de Agostinho sobre a natureza humana corrompida: até os atos instintivos da
criança são visto como manifestações da concupiscência.
2. Sl
92 (91),2
3. Sl
51(50),7
4. Cf.
De Civ. Dei
21,16
8. COMO
APRENDE A FALAR
13
Da infância caminhando para o ponto onde estou, passei à meninice, ou melhor, ela chegou
a mim em seguimento à infância. Esta não se afastou: para onde poderia ir? No entanto,
não mais existia. De fato, eu não era mais uma criança, incapaz de falar, e sim, um
menino muito conversador; disto eu me lembro. E compreendi mais tarde como aprendi a
falar: não eram os adultos que me ensinavam as palavras segundo um método preciso, como
o fizeram mais tarde para me ensinarem as letras, era eu por mim mesmo, graças à
inteligência que tu, Senhor, me deste, era eu que procurava através de gemidos, gritos e
gestos vários, manifestar os sentimentos do coração, para que fizessem minhas vontades.
Eu só o que não conseguia era fazer-me entender de todo e por todos. Procurava guardar
na memória os nomes que ouvia darem às coisas; e vendo que as pessoas, conforme esta ou
aquela palavra, se dirigiam para este ou aquele objeto, eu observava e lembrava que a esse
objeto correspondia o som que produzia quando queriam mostrar esse objeto. Então eu
compreendia o que os outros queriam pelos movimentos do corpo, linguagem por assim dizer
natural, comum a todos os povos e que se manifesta pela expressão do rosto, pelos
movimentos dos olhos, pelos gestos dos demais membros e pela entonação da voz,
indicadores dos estados de espírito, quando alguém pede determinada coisa ou quer
possuí-la, quando a rejeita ou quer evitá-la. Desse modo, à força de ouvir as mesmas
palavras, pelo lugar que ocupavam nas frases, pouco a pouco eu chegava a compreender de
que coisas elas eram os sinais, e ia acostumando a boca a pronunciá-las, servia-me delas
para exprimir meus desejos, e desse modo entrei mais profundamente na tormentosa sociedade
dos homens, sob a autoridade de meus pais e dos mas velhos (1).
1. Não é supérfluo
salientar a habilidade de Agostinho em observar e descrever o desenvolvimento físico e
psicológico da criança, as influências externas que esta sofre, e a parte que tem a
atividade espontânea da alma, no seu desenvolvimento. Isso foi admirado até por Harnack:
Augustin Konfessionen, Giessen, 1904.
9. FALTA
DE INTERESSE PELO ESTUDO; CASTIGO E ZOMBARIA DOS EDUCADORES
14
Ó Deus, meu Deus, que sofrimentos e desilusões padeci, quando ao menino que eu era
propunham que o ideal da vida era obedecer aos mestres para prosperar neste mundo, para
granjear, com a arte da palavra, o prestígio dos homens e as falsas riquezas! Fui enviado
à escola para aprender as primeiras letras. Para minha infelicidade, não entendi a
utilidade desse trabalho; mas, se me mostrava preguiçoso, era castigado à vara. Era um
sistema recomendado pelos adultos, e muitas crianças antes de nós, que tiveram essa
experiência, haviam aberto o doloroso caminho que agora éramos obrigados a percorrer,
multiplicando os trabalhos e dores dos filhos de Adão (1). Por outro lado, Senhor,
encontramos também homens de oração e deles aprendemos, na medida que nos era
possível, a compreender que existe um ser grande, capaz de nos ouvir e socorrer, embora
imperceptível aos nossos sentidos. Assim, ainda menino, comecei a dirigir-me a ti, como a
meu rochedo e meu refúgio (2); rompiam-se em mim os nós da língua, ao
invocar-te; era pequeno ainda, mas era grande o fervor com que eu te implorava para que me
evitasses os castigos na escola. E quando não me atendias - o que era para meu bem
(3) - os adultos e até os meus próprios pais que não me desejavam o menor mal, riam-se
dos açoites, o que constituía então para mim grande e profundo sofrimento.
15
Haverá, Senhor, alma tão generosa e tão unida a ti por extraordinário amor (o que na
realidade pode ser efeito de uma espécie de loucura), existirá alguém que nesse afeto
encontre tal força, que venha a desprezar os cavaletes, aguilhões e demais torturas
semelhantes àquelas que em toda parte da terra os homens aterrorizados te pedem que lhes
evites; haverá alguém que se ria dos que temem esse suplício, como meus pais zombavam
das penalidades que a nós, meninos, infligiam nossos mestres? Para mim, tais castigos
não pareciam menos temíveis que as torturas, e não pedia com menos fervor que deles
fôssemos poupados. No entanto, continuávamos a cometer faltas, escrevendo, lendo e
estudando menos do que se exigia de nós. Não que nos faltasse memória ou inteligência,
pois nos dotaste, Senhor, com o suficiente para a nossa idade. O fato é que gostávamos
de nos divertir, e o mesmo faziam, é verdade, aqueles que nos castigavam. Mas as
distrações dos adultos chamam-se negócios, enquanto que as dos meninos, embora da mesma
natureza, são punidas pelos adultos, sem que ninguém se compadeça da criança, nem do
homem, nem de ambos. Poderia um juiz reto aprovar os castigos que me davam, porque eu, em
pequeno, jogava bola, e o jogo era obstáculo ao rápido aproveitamento nos estudos, que
mais tarde serviriam para folguedos bem menos inocentes? Agia porventura de modo diferente
aquele que me batia? Se vencido por um colega de magistério em alguma discussão fútil,
era roído pela raiva e pela inveja, mais do que eu quando derrotado por um companheiro
num jogo de bola.
10.
PREFERE O JOGO E O TEATRO AO ESTUDO
16
No entanto, é verdade que eu pecava, Senhor meu Deus, ordenador e criador de tudo o que
existe na natureza, com exceção do pecado, de que é apenas regularizador (1). Eu
pecava, Senhor Deus meu, agindo contra as disposições dos pais e dos mestres, pois podia
no futuro fazer bom uso desses conhecimentos que eles queriam que eu adquirisse, qualquer
que tenha sido o motivo que os movia a isso. E eu desobedecia não para fazer coisa
melhor, mas pelo amor ao jogo, amando nas disputas o orgulho da vitória, e amava também
essas histórias frívolas, que tanto me deleitava os ouvidos, com uma curiosidade que a
cada dia brilhava aos meus olhos com os espetáculos (2) e jogos dos adultos. No entanto,
os que presidem tais jogos sobressaem tanto em prestígios, que quase todos desejam para
seus filhos essa honra. Nem se preocupam se os filhos, distraídos pela atividade teatral,
são punidos por se afastarem do estudo que, segundo os desejos deles, permitirá a estes
mais tarde, organizar espetáculos semelhantes. Olha, Senhor, com misericórdia para essas
contradições; socorre os que te invocam, e socorre também aqueles que não te invocam,
a fim de que também eles o façam e sejam libertados.
1. Cf.
De Civ. Dei
14,26; De Gen. ad litt. 3,4,37
2. Cf. De Civ. Dei 1,32;
Enarr. in Sl 147,7
11.
ADIAMENTO DO BATISMO
17
Eu tinha ouvido falar, ainda criança, da vida eterna a nós prometida, graças à
humildade do Senhor nosso Deus, que desceu até a nossa soberba. Fui marcado pelo sinal da
cruz e recebi o sal divino, apenas saído do seio de minha mãe (1), que em ti depositava
todas as suas esperanças. Senhor, tu viste que eu, ainda criança, fui um tomado por
febre alta, motivada por uma disfunção do estômago, e estive às portas da morte; tu
viste, Senhor, pois já eras então o meu protetor, com que ardor e com que te implorei à
piedade de minha mãe e de nossa mãe comum - a tua Igreja - o batismo de Cristo, meu Deus
e Senhor. Minha mãe carnal, muito perturbada, que na sua fé e coração puro me gerava
com maior solicitude para a vida eterna, apressava-se em iniciar-me e purificar-me nos
sacramentos da salvação, para que, confessando-te, Senhor Jesus, eu pudesse obter a
remissão dos pecados. Eis que improvisamente melhorei. Essa purificação foi então
adiada, como se fosse inevitável que, vivendo, devesse continuar a corromper-me, sem
dúvida porque se pensava que a responsabilidade pelas faltas cometidas depois do batismo
é ainda mais grave e perigosa. Nessa época, eu já tinha fé, como minha mãe e toda a
minha família, com exceção apenas de meu pai. Seu exemplo, porém, não predominou em
mim contra os direitos da piedade materna, e não me induziu a não crer em Cristo, no
qual ele ainda não acreditava. Minha mãe desejava ardentemente que fosses meu pai, tu
meu Deus, mais do que ele, e tu neste ponto a ela ajudavas para prevalecer sobre o marido,
ao qual se dedicava, embora mais virtuosa que ele, pois, obedecendo a ele, era às
tuas ordens que ela obedecia (2).
18
Rogo-te, meu Deus, que me mostres - se nisso consentes - por qual desígnio foi adiado o
meu batismo: as rédeas do pecado me foram soltas, por assim dizer, para o meu bem, ou
não? Por esse motivo é que ainda hoje ouvimos dizer deste ou daquele: "Deixe que
ele faça o que quiser: ainda não foi batizado!" Mas, em relação à saúde do
corpo, não dizemos: "Deixe que se fira mais, pois ainda não foi curado!"
Quando teria sido preferível para mim ser logo curado e esforçar-me, eu e os meus, para
conservar intacta a saúde da minha alma, sob a proteção que me terias dado! Sem dúvida
teria sido melhor. Minha mãe, porém, já previra quantas e quão grandes ondas de
tentações ameaçariam minha juventude; e preferiu expor a elas o barro do meu ser, que
poderia tomar um dia a forma do homem novo, mas não expor a minha imagem já feita (3).
1. Alude aos ritos com que
se introduzia o recém-nascido entre os catecúmenos, e que seriam mais tarde inseridos
pela Igreja no rito do batismo. Cf. De
catech. rud. 26,50. O catecúmeno já era membro
da Igreja, mas só era admitido aos sacramentos depois de um longo período de
instrução, coroado pelo batismo.
2.
Cf. 1Cor 11,3; Ef 5,22
3. A mãe de Agostinho
preferiu adiar o batismo do filho para a idade madura, a fim de que se apagasse as culpas
da juventude; não queria que o menino, já batizado, maculasse no pecado a imagem do
cristão.
12. DEUS
TIRA O BEM ATÉ DO MAL
19
No entanto, nesse período da meninice, que a meu respeito suscitava menores apreensões
do que o da adolescência, eu não gostava do estudo e detestava ser obrigado a ele. No
entanto, eu era a isso obrigado, e para o meu bem. Mas eu não agia bem, pois só estudava
quando coagido. Contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma
seja boa. Os que me obrigavam, também não agiam corretamente: somente de ti vinha o bem,
meu Deus. Realmente, eles não viam outra finalidade, no estudo a que me obrigavam, senão
saciar os insaciáveis desejos de uma miséria opulenta e de uma glória ignominiosa. Mas
tu, para quem estão contados os nossos cabelos (1), utilizavas em meu proveito o
erro dos que me coagiam, e utilizavas a minha falta para castigar-me; punição que eu
merecia, embora pequeno, pois era grande pecador. Assim, tu me fazias o bem por meio
daqueles que não o faziam, e me davas justa retribuição pelos meus próprios pecados.
Estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu
próprio castigo (2).
1. Mt 10,30
2. O trecho faz lembrar uma
ária de Pedro Metastásio (1698-1782) : "...mesmo na vida mais serena, de si mesmo o
vício é pena; mesmo no embate rude, vale prêmio a virtude".
13.
UTILIDADE DO ESTUDO
20
Ainda hoje não sei explicar bem a causa da minha repugnância pelo estudo grego, que
tentavam inculcar-me desde criança (1). Pelo contrário, eu gostava muito do latim, mas
não daquele que é ensinado pelas primeiras classes, e sim do que é ensinado pelos
chamados gramáticos. As primeiras noções, em que se aprende a ler, escrever e contar,
eram-me tão pesadas e penosas como o estudo do grego. Donde me vinha tal aborrecimento,
senão do pecado e da vaidade da vida? Porque eu era carne e sopro que se esvai e não
volta (2).
Na realidade, aqueles primeiros estudos, que me permitiam e permitem não só ler qualquer
escrito que encontro, mas também escrever o que me apraz, eram mais úteis e mais
práticos do que aqueles em que eu, esquecido dos meus próprios erros, era obrigado a
gravar na memória as andanças de um certo Enéias e a chorar Dido que se suicidara por
amor. Enquanto isso, na minha extrema miséria, sem derramar uma lágrima sequer, me
deixava morrer em meio a essas coisas longe de ti, meu Deus e minha vida.
21
Na verdade, não há nada mais miserável que um infeliz que chora a morte de Dido,
causada pelo amor de Enéias, sem se compadecer de si mesmo, nem chorar a própria morte
por falta de amor contigo, ó meu Deus, luz do meu coração, pão da boca interior do meu
espírito, poder fecundante da minha inteligência e do meu pensamento. Eu não te amava.
Prevaricava longe de ti (3). E, enquanto prevaricava, de toda parte ressoavam aplausos:
Muito bem! Coragem! A amizade a este mundo é de fato adultério, prevaricação e
infidelidade a ti, e as palavras "Muito bem! Coragem" são proferidas para que o
homem se envergonhe se não for como os outros. Eu não chorava estas faltas, mas
pranteava Dido morta, depois de ter procurado, com a espada, a pior decisão (4), enquanto
eu me apegava aos piores objetivos da tua criação (5), abandonando-te. Eu era terra que
tendia para a terra. Se me proibiam a leitura de tais episódios, afligia-me por não
poder ler o que me afligia. Oh!, loucura!, eu considerava tais estudos mais honrosos e
úteis do que aqueles em que aprendi a ler e escrever.
22
Agora, porém, meu Deus, que a tua verdade clame na minha alma e me diga: Não é assim,
não é assim! São mais importantes aqueles primeiros estudos! Mais depressa eu
esqueceria hoje as aventuras de Enéias e outras narrativas desse gênero do que escrever
e ler. Cortinas pendem na porta das escolas de gramática (6). Elas servem mais para
encobrir os erros que aí se cometem, do que para honrar os seus segredos. Não gritem
contra mim, aqueles que eu já não temo, enquanto revelo as aspirações de minha alma,
meu Deus, e encontro paz em condenar meus perversos caminhos, para amar a retidão dos
teus! Não se ergam contra mim esses vendedores e compradores de gramáticas, porque, se
eu os interrogar se é verdade que Enéias veio a Cartago, - como diz o poeta - os
néscios responderão que não sabem e os instruídos negarão a autenticidade do
fato. Mas, seu eu lhes perguntar com que letras se escreve o nome de Enéias, todos os que
estudaram darão a resposta exata, segundo algumas normas e convenções com que os homens
fixaram entre si os sinais do alfabeto. De igual modo, se eu perguntasse o que é mais
prejudicial na vida, esquecer a leitura e a escrita ou todas aquelas ficções poéticas,
todos sabem qual seria a resposta de quem não houvesse perdido completamente o juízo.
Portanto, eu pecava quando criança, ao antepor todos aqueles conhecimentos vão dos
poetas a estes mais úteis, ou antes, quando simplesmente detestava a estes e amava
àqueles. Um mais um, dois; dois mais dois, quatro. E era para mim um cantilena odiosa,
enquanto me encantava o vão espetáculo de um cavalo de madeira cheio de guerreiros, o
incêndio de Tróia e até a sombra de Creusa (7).
1. Cf.
De Trin. 3,1
2.
Sl 78(77),39
3.
Cf. Sl 73(72),27
4. Virgílio, Aeneidos
6 ,457
5. O texto latino joga com
o duplo significado da palavra "extrema", que tanto pode significar as últimas
realidades da vida, isto é, a morte quanto as últimas coisas em ordem de importância,
isto é, as criaturas inferiores.
6. Como as escolas em geral
se faziam em alpendres ao rés-do-chão, as cortinas serviam para evitar as distrações.
Cf. Apuleio, Florida 20.
7. Vírgilio, Aeneidos
2,772.
14.
DIFICULDADE NO ESTUDO DO GREGO
23
Por que detestava eu as letras gregas, onde se cantam os mesmos temas? Homero tece
habilmente fábulas semelhantes, doce na sua frivolidade. No entanto, era amargo para mim,
ainda menino. Creio que acontece com os jovens gregos obrigados a aprender Virgílio, o
mesmo que se passava comigo em relação a Homero. Era, sim, a dificuldade de aprender uma
língua estrangeira que borrifava de fel toda a suavidade das fantasiosas narrações
gregas. Eu não conhecia palavra alguma dessa língua. E para me fazerem aprendê-la, me
forçavam violentamente com terríveis ameaças e castigos. Outrora, quando menino, nem
mesmo do latim eu conhecia alguma coisa; no entanto, eu aprendi, com um pouco de
atenção, sem temores nem castigos, em meio aos carinhos, sorrisos e brincadeiras de
minhas amas. Aprendi sem a pressão dos castigos e ameaças, impelido pela necessidade que
sentia no coração de exprimir meus pensamentos, o que não tinha sido possível sem
aprender algumas palavras provindas daqueles que falavam, e não dos que ensinavam. Nos
ouvidos deles eu depositava meus próprios sentimentos.
Por aí se conclui, com bastante clareza, que para aprender é mais eficaz a livre
curiosidade do que um constrangimento ameaçador. A este, no entanto, cabe a tarefa de
refrear aquela, segundo as tuas leis, ó Deus. Tuas leis, que sabem desde a palmatória
dos mestres até as torturas dos mártires, temperar com tristezas salutares que nos
trazem de volta para ti, longe dos prazeres perniciosos que de ti nos afastam.
15.
OFERECIMENTO DE TUDO A DEUS
24
Ouve, Senhor, a minha prece (1), para que minha alma não desfaleça sob o peso da
tua lei, nem esmoreça em confessar os atos de misericórdia que me arrancaram de
péssimos caminhos; para que sejas, para mim, mais atraente do que todas as seduções que
eu seguia, e assim eu te ame imensamente e te segure a mão com todas as forças de minha
alma, e me livres de toda a tentação até o fim.
Senhor, tu és o meu Rei e o meu Deus (2)! Que para o teu serviço se consagre tudo
o que de útil eu aprendi em criança: para ti a minha capacidade de falar, escrever, ler
e contar. Pois, quando eu aprendia coisas inúteis, tu me disciplinas e me perdoaste o
pecado do prazer inútil que nelas eu encontrava. É verdade que com elas aprendi muitas
coisas úteis, mas estas podem ser aprendidas também em matérias não frívolas: este
seria o caminho mais seguro a ser percorrido pelas crianças.
1.Sl 61(60),2
2. Sl 5,3
16.
LITERATURA E MITOLOGIA CORRUPTORAS
25
Ai de ti, torrente de hábitos humanos! Quem te resistirá? Até quando hás de correr
antes de secar? Até quando arrastarás os filhos de Eva para o mar profundo e temeroso,
que somente podem atravessar os que navegam no lenho da cruz? (1)
Não foi em teus livros que li sobre Júpiter tonante e adúltero? Dois atos que, de
certo, ele não podia praticar simultaneamente. Mas, assim foi representado, para que
fôssemos levados a imitar um verdadeiro adultério, iludidos por um trovão imaginário
(2).
Mas, certamente, nenhum desses mestres, trajados de capa magistral, se conservaria calmo
ao ouvir um colega, nascido do mesmo pó, proclamar: Homero imaginava essas
ficções e atribuía aos deuses os vícios humanos; eu preferia que nos trouxesse as
perfeições divinas (3). Mas seria exato dizer que Homero, inventando tais coisas,
atribuía qualidades divinas a homens viciados, a fim de que os vícios não fossem
considerados como tais, e quem os comete pareça imitar, não a homens corruptos, mas a
divindades celestes.
26
No entanto, ó torrente infernal, em tuas ondas precipitam-se os filhos dos homens, e
pagam para aprender tais noções! E torna-se acontecimento importante fazer tudo isso em
público, na praça principal da cidade, sob os olhos da lei, que estabelece salários
para os atores, além da paga dos particulares. O fragor de tuas ondas de encontro aos
rochedos parece dizer: "Aqui se aprendem as palavras, aqui se adquire a eloqüência
indispensável para persuadir os outros e para exprimir o próprio pensamento". E
realmente não teríamos conhecido as palavras "chuva de ouro",
"regaço", "disfarce", "templos celestes" e outras
expressões que se encontram nos escritos de Terêncio, se este poeta não nos tivesse
apresentado um jovem debochado que se propõe, para a própria devassidão, o exemplo de
Júpiter: o jovem observa, pintada no muro, a seguinte cena: "Júpiter, segundo a
mitologia, derrama uma chuva de ouro no regaço de Dânae para dessa forma enganá-la"
(4). Vejam como o jovem se excita para satisfazer a própria paixão, diante das lições
do mestre celeste: Que Deus é este - diz ele - que abala os templos do
céu com grande estrondo? Eu simples mortal, não poderia fazer o mesmo? Mas já o fiz, e
com prazer! (5) Não, de forma alguma não é por meio dessas vulgaridades que se
aprendem tais palavras; no entanto, tais palavras encorajam os homens a cometer tais
indecências. Não acuso as palavras, que são como vasos eleitos e preciosos (6), sob
pena de sermos espancados, sem que pudéssemos apelas para um juiz sóbrio. Ó Deus,
diante de ti evoco enfim, tranqüilamente, essas recordações! E no entanto, eu aprendia
de bom grado aquelas noções, que me agradavam - pobre de mim! - e por isso eu era
considerado um jovem de belas esperanças.
1. Clara a alusão ao lenho
da salvação. Agostinho faz explícita aplicação do termo "lenho" à cruz,
como nave que salva no mar da vida, em Tract. in Joann. 2,4
2. Refere-se Agostinho a
uma obra clássica, o Eununchus de Terêncio, em particular à cena V do ato III,
onde se narra a imagem de Júpiter, que desce sobre Dânae sob forma de chuva de ouro,
fecundando-a; essa contemplação torna-se estímulo ao prazer sensual.
3. Cícero, Tuscul.
disputat. I,26,64; Cf. De Civ. Dei 4,26
4. Terêncio, Eununchus
584,589
5. Terêncio, Eununchus
590s
6. Cf. Pr 20,15; At 9,15
17.
INTELIGÊNCIA DESPERDIÇADA EM COISAS VÃS
27
Permite, ó Deus, que fale um pouco também da inteligência, dádiva tua que esbanjava em
frivolidades. Uma tarefa muito inquietante se apresentava ao meu espírito frente à
possibilidade de prestígio ou pelo termos à desonra ou às pancadas: era a tarefa de
exprimir a cólera e a dor de Juno por não poder afastar da Itália o rei dos Troianos
(1) . Eu bem sabia que Juno jamais pronunciaria tais palavras. Todavia, é ramos obrigados
a nos desencaminhar e seguir as fantasias poéticas, e a dizermos em prosa o que o poeta
cantara em versos. Recebia maiores elogios o aluno que exprimisse com mais força e maior
verossimilhança os sentimentos de ira e dor mais adequados ao nível da personagem
representada, e que soubesse revestir as frases com as palavras mais apropriadas. De que
me servia tudo isso, ó Deus meu, vida verdadeira? Para ter os aplausos às minhas
declamações na presença de tantos conterrâneos e colegas meus? Não foi tudo vento e
fumaça? Não havia outra maneira de exercitar minha inteligência e minha língua? Os
teus louvores, Senhor, inspirados por tuas Escrituras, me teriam elevado o coração, e eu
não teria sido envolvido por quimeras vãs, qual presa de aves de rapina. Há realmente
muitos modos de oferecer sacrifícios aos anjos rebeldes!
1. Virgílio, Aeneidos
1,38
18.
UM ERRO DE GRAMÁTICA É MAIS GRAVE QUE UMA FALTA CONTRA UM HOMEM?
28
Não é de estranhar que eu me tenha deixado levar pelas coisas vãs para longe de ti, meu
Deus, pois eu tinha por modelo somente homens que se sentiam consternados quando
reprovados por terem cometido algum solecismo ou barbarismo ao expor boas ações, mas que
exultavam com os louvores, quando relatava seus desmandos pormenorizadamente, com
riqueza e elegância (1), em frases corretas e bem construídas. Vês tudo isso, ó
Senhor, e te calas, ó Deus de paciência, de misericórdia e de verdade (2)?
Porventura ficarás sempre calado? E desde agora arrancas deste abismo profundo a alma que
te procura, que tem sede de tuas alegrias e que diz em seu coração: Busquei a tua
face, Senhor, e a buscarei sem cessar (3). Longe de tua face , caímos nas trevas da
paixão. Porque não é caminhando nem atravessando espaços que de ti nos afastamos ou a
ti retornamos; nem aquele filho mais novo (4) procurou carro ou cavalos, ou navio, ou
alçou vôo com asas invisíveis, nem tampouco marchou a pé, quando foi para longínquas
regiões dissipar prodigamente o que lhes tinhas dado ao partir. Pai bondoso no momento em
que lhe fizeste estes dons, foste mais carinhoso com ele, quando voltou necessitado. Basta
mergulhar nas paixões, isto é nas trevas, para ficar longe de tua face.
29
Vê, Senhor meu Deus, com paciência - segundo o teu modo de ver - como são diligentes os
filhos dos homens em observar as regras convencionais da gramática herdadas daqueles
mestres que o antecederam, e como são negligentes em relação a ti! Desse modo, se um
daqueles que conhecem e ensinam as antigas convenções gramaticais, as transgride,
pronunciando a palavra homo sem aspirar a primeira sílaba, desagradará aos
homens, mais do que se ele contrariar os teus mandamentos, odiando ao homem, que é
seu semelhante. Como se pudesse existir inimigo pior que o próprio ódio, com o qual uma
pessoa se irrita contra si mesma; ou como se alguém com perseguições prejudicasse mais
gravemente a outrem do que ao coração, cultivando tal inimizade! Certamente essas regras
de linguagem não estão mais profundamente gravadas em nós que esta lei da consciência
(5): não fazer aos outros o que não queremos que outros nos façam (6).
Como é profundo o teu mistério, ó Deus grande e único, que habitas no silêncio do
mais alto dos céus e, sem cessar, atinges com o castigo da cegueira as paixões
ilícitas. Enquanto isso o homem, em busca da glória na eloqüência, diante de um juiz
que é outro homem, no meio de muitos outros homens que o cercam, persegue o inimigo com
ódio violento, evitando, com o máximo de atenção, cometer um erro de pronúncia, não
aspirando o h quando diz inter homines. E no entanto, nem se importa quando
no furor da própria alma, elimina um homem do convívio dos homens!
1. Cícero, Tuscul.
disputat. I,4,7
2.
Sl 86(85),15;103(102),8
3.
Sl 27(26),8
4.
Cf. Lc 15,11-32.
5.
Cf. Rm 2,15
6.
Mt 7,12; Lc 6,31; cf. Tb 4,16
19.
OS PRIMEIROS PECADOS DA INFÂNCIA
30
Eu me encontrava, pobre menino, no limiar dessa escola de moral. Minha educação era dada
de tal modo, que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da
inveja que eu sentia daqueles que a evitavam, se eu a cometesse. Digo e confesso diante de
ti, meu Deus, essa fraqueza que me angariava aplausos daqueles, cuja aprovação era a
minha norma de vida. Eu não percebia o abismo de ignomínia em que me atirava, longe
de tua presença (1). Diante de ti, mesmo àqueles homens, ao enganar com inúmeras
mentiras o pedagogo, os mestres e pais, tão grande era o meu amor pelo jogo, a minha
paixão pelos espetáculos frívolos e a mania de imitar os atores. Eu furtava da despensa
e da mesa de meus pais, ora impelido pela gula, ora para ter com que pagar aos
companheiros que vendiam seus jogos, mas que se divertiam tanto quanto eu. Muitas vezes eu
cometia fraudes no jogo para conseguir vitórias, dominado pelo tolo desejo de
superioridade sobre os outros. No entanto, não podia suportar que os outros
fizessem o mesmo, e reprovava asperamente se os descobrisse, enquanto eu, ao ser
descoberto e repreendido, me enfurecia, ao invés de reconhecer-me culpado.
Seria essa a inocência das crianças? Não, Senhor! De modo algum, meu Deus! O que fazem
agora enganando mestres e tutores, furtando nozes, bolas e pássaros, o mesmo hão de
fazer, na idade madura, com os governadores e reis, com as riquezas, com as propriedades,
com os escravos. É o que acontece com o castigo da palmatória, ao qual se seguem
suplícios mais graves. Portanto, ó nosso Rei, no pequeno tamanho das crianças louvaste
o símbolo da humildade, quando disseste: delas é o Reino dos Céus (2).
1. Sl 31(30),23
2. Mt 19,14
20. TUDO
É DOM DE DEUS
31
Contudo, graças sejam dadas a ti, Senhor, Criador e Ordenados do universo, ainda que me
houvesse destinado a ser apenas criança. Pois, já então eu existia, vivia, usava dos
sentidos, cuidava da minha conservação, imagem da tua unidade misteriosa, fonte do meu
ser; já então vigiava com o sentido interior, para a preservação de todos os meus
sentidos, e, até nas reflexões modestas sobre pequenas coisas, eu me alegrava ao
encontrar a verdade. Eu não aceitava ser enganado, tinha boa memória, tinha facilidade
para falar, era sensível à amizade; fugia da dor, da humilhação, da ignorância. Que
havia em tal criatura que não fosse digno de admiração e louvor? Mas, tudo isso são
dons de meu Deus; não os recebi de mim mesmo são coisas boas, e o conjunto deles
constitui o meu eu.
Portanto, bom é aquele que me criou. Ele é o meu bem, e eu exulto em sua honra por todos
os bens que constituem a minha existência desde a infância. Meu pecado era não procurar
nele, e sim nas suas criaturas - isto é, em mim mesmo e nos outros - os prazeres, as
honras e a verdade. Eu me precipitava assim na dor, na confusão e no erro. Graças a ti,
ó minha doçura, minha glória, minha confiança, meu Deus, pelo dons que me deste.
Conserva-os, pois. E assim me conservarás. Então crescerá e se aperfeiçoará tudo o
que me deste. E eu mesmo viverei contigo, porque foste tu que me deste a possibilidade de
existir.
Por Santo
Agostinho
OS DEZESSEIS ANOS
1. POR QUAL MOTIVO AGOSTINHO
RELEMBRA SUAS CULPAS
1 Quero recordar as minhas torpezas
passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar,
ó meu Deus. É por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos
caminhos dos meus graves erros. A recordação é amarga, mas espero sentir tua doçura,
doçura que não engana, feliz e segura, e quero recompor minha unidade depois dos
dilaceramentos interiores que sofri quando me perdi em tantas bagatelas, ao afastar-me de
tua Unidade (1).
Desde a adolescência, ardi em
desejos de me satisfazer em coisas baixas, ousando entregar-me como animal a vários e
tenebrosos amores! Desgastou-me a beleza da minha alma e apodreci aos teus olhos, enquanto
eu agradava a mim mesmo e procurava ser agradável aos olhos dos homens.
1. Cf. Enarr. in
Ps 137,8
2. NECESSIDADE DE AMOR E DE SEUS
ILUSÓRIOS SUCEDÂNEOS
2 E o que é que me encantava,
senão amar e ser amado? (1) Mas, eu não ficava na medida justa das relações de alma
para alma, dentro dos limites luminosos da amizade. Do lado dos desejos carnais e da
própria natureza da puberdade emanavam vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração,
a ponto de não mais distinguir entre um amor sereno e as trevas de uma paixão. Um e
outro ardiam confusamente em mim, arrastando a minha fraca juventude pelos despenhadeiros
das paixões, e a submergiam num abismo de vícios.
Tua cólera concentrava-se em mim, e
eu não percebia. Ensurdecera-me o ruído das cadeias da minha mortalidade, justo castigo
à soberba da minha alma, e eu me afastava cada vez mais de ti; e tu o permitias. Eu me
agitava, me dissipava, ardia nas paixões da carne; e tu calavas. Ó alegria que tão
tarde encontrei! Tu calavas, e eu de ti me afastava, multiplicando as sementes estéreis
do sofrimento, em degradação insolente e inquieto esgotamento.
3 Quem teria podido suavizar-me a
tribulação, ensinando-me a usar bem da formosura passageira das coisas novas? Quem me
fixaria um objeto aos prazeres que delas eu tirava, de tal maneira que, se os ardores da
idade não me pudessem deixar tranqüilo, fossem encaminhados ao matrimônio,
encontrando o fim natural na geração de filhos, como prescreve tua lei, Senhor. Tu, que
asseguras a descendência de nossa raça mortal e tens o poder de abrandar as asperezas
reservadas ao homem expulso de teu paraíso? (2) Tua onipotência está perto de nós,
ainda quando nos afastamos de ti. Eu deveria ter ouvido mais atentamente o som vindo de
tuas nuvens (3): quem escolhe esse tipo de vida terá tribulações na carne; e vo-las
desejaria poupar (4); ou ainda: é bom para o homem não tocar em mulher (5); e
ainda: quem não tem esposa cuida das coisas do Senhor; quem tem esposa cuida das
coisas do mundo e do modo de agradar à esposa (6). Quem me dera ter ouvido mais
atentamente essas palavras! Se me tivesse feito eunuco pelo Reino de Céus (7), aguardaria
agora mais feliz os teus amplexos!
4 No entanto - miserável que sou! -
eu me abandonei com furor à torrente das paixões que me afastava de ti; eu transgredia
todas as tuas leis, sem escapar naturalmente de teus castigos. Quem dos mortais
conseguiria fazê-lo? Sempre estavas presente em tua severa misericórdia, entremeando de
amargos desgostos os meus prazeres ilícitos, a fim de que eu aprendesse a procurar a
alegria sem ofender-te (8). Se eu tivesse encontrado, só teria encontrado a ti, Senhor,
que nos dás a dor como preceito, que feres para curar e nos tiras a vida para não
morrermos longe de ti.
1.
Cf. De catech. rud. 4,7
2. Cf. Gn 3,18
3. Segundo Agostinho, as
"nuvens" são os pregadores da palavra de Deus que, embora revestidos da
opacidade da carne, permitem entrever o esplendor de Deus: cf. Enarr in Ps.
35,8;56,17.
4. 1Cor 7,28
5. 1Cor 7,1
6. 1Cor 7,3 2-33
7. Mt 19,12
8. Agostinho usa o termo latino
"ofensivo", que se pode denotar "desgosto", "repugnância"
ou "ofensa". A frase, portanto, pode ser entendida assim: ""procurar a
alegria sem ofender" a Deus. Nas obras de Agostinho, são freqüentes esses jogos de
palavras.
3. O ÓCIO FAVORECE O
DESENCADEAMENTO DAS PAIXÕES
Nesse mesmo ano, no entanto, meus
estudos foram interrompidos, tendo sido chamado a Madaura, cidade vizinha, para onde havia
ido antes a fim de estudar literatura e oratória, onde aguardava que se preparasse a
quantia necessária para uma permanência mais longa, em Cartago, de acordo mais com a
ambição do que com as possibilidades de meu pai, cidadão bem modesto de Tagaste.
Mas, a quem narro eu esses fatos?
Não a ti, meu Deus; mas, diante de ti, aos meus semelhantes, ao gênero humano, àqueles
que, mesmo pouco numerosos, venham a volver os olhos para estas páginas. E para quê? A
fim de que eu mesmo, e os que me lerem, pensemos de que abismo profundo devemos clamar por
ti (1). Que há mais próximo de teus ouvidos que um coração arrependido (2) e uma vida
de fé?
Todos elogiavam muito meu pai, que
gastava mais do que lhe permitia o patrimônio familiar, nas despesas necessárias para a
permanência do seu filho longe de casa por motivos de estudos. Muitos outros cidadãos,
bem mais ricos que ele, não se interessavam do mesmo modo pelos filhos. No entanto, meu
pai não se preocupava em saber se eu crescia aos teus olhos, meu Deus, e se vivia
castamente, desde que fosse eloqüente; mas eu era vazio (3) em relação à tua cultura,
ó meu Deus, único e verdadeiro senhor do teu campo (4), que é o meu coração.
6 Mas, quando aos dezesseis anos, as
necessidades domésticas me forçaram a interromper os estudos por algum tempo, e eu,
livre de qualquer escola, passe a viver com meus pais, os espinhos das paixões me subiram
à cabeça, sem que houvesse mão para os arrancar. Pelo contrário, meu pai um dia me viu
no banho e percebeu em mim os sinais da puberdade e adolescência inquieta; antegozando
desde logo a alegria dos netos que eu lhe daria, relatou-o, com alegria, à minha mãe,
essa alegria nasce da embriaguez em que este mundo miserável esquece o Criador, para em
teu lugar, Senhor, amar tuas criaturas, embriaguez que se inclina ao vinho invisível de
uma vontade pervertida que se inclina para o que é baixo.
Mas, no coração de minha mãe já
havias começado a edificar o teu templo, a lançar os fundamentos de tua santa
habitação. Meu pai, no entanto, era apenas catecúmeno de há pouco tempo. Por isso,
minha mãe agitou-se, apreensiva e temerosa. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou
que eu enveredasse por caminhos tortuosos trilhados por aqueles que voltaram para ti as
costas e não a face (5).
7 Ai de mim! Como ouso dizer que
estavas calado, quando eu me afastava de ti cada vez mais? É verdade que te calavas
diante de mim em tais momentos? (6) De quem eram, senão de ti , aquelas palavras que me
fazias soar aos ouvidos, através de minha mãe, tua serva fiel? Mas, nenhuma tocou-me o
coração para converter-se em prática. Ela queria que eu evitasse a luxúria (tenho
ainda dentro de mim a lembrança de suas solícitas recomendações) e sobretudo que eu
não cometesse adultério com a esposa de quem quer que fosse. Envergonhava-me de atender
as suas solicitações, porque pareciam conselhos de mulher. No entanto, eram teus os
conselhos, e eu não sabia; eu estava convencido de que tu te calavas, e que era ela quem
falava; mas por meio dela eras tu que me falavas, e nela eu te desprezava, eu, teu servo, filho
de tua serva (7). Mas eu ignorava e caminhava para minha perdição, com cegueira tal,
que me envergonhava, diante de meus companheiros, de parecer menos depravado que os
outros, quando os ouvia exaltando as próprias infâmias, tanto mais dignas de glória
quanto mais infames eram; eu queria fazer o mesmo, não só pelo fato em si, mas pelo
louvor que disso resultava.
Nada é tão digno de censura como o
vício; no entanto, para não ser censurado, eu mergulhava ainda mais no vício; quando
não me podia igualar a meus companheiros corruptos, fingia ter praticado o que não
praticara, para não parecer desprezível pela inocência ou ridículo por ser casto.
8 Eis com que companheiros andava eu
pelas praças de Babilônia, revolvendo-me na lama como se fosse em cinamomo e perfumes
preciosos. E para afundar-me ainda mais, o inimigo invisível me pisoteava e seduzia,
porque era eu fácil de seduzir.
Minha mãe carnal, que já tinha
fugido de Babilônia, mas caminhava, ainda lenta, pelos seus arredores, recomendou-me vida
pura, mas não se preocupou em encaminhar-me para um afeto conjugal aquela minha
virilidade de que lhe falara o marido e que não podia ser materialmente eliminada. Já
então a considerava bastante perigosa e mais perigosa ainda a previa para o futuro; mas
não se preocupou, temendo que as responsabilidades conjugais constituíssem empecilho às
minhas esperanças, não de uma vida futura, tais como as suas, mas de progresso nos
estudos, cujo êxito era a ambição de meus pais. Meu pai, porque quase não pensava em
ti e alimentava a meu respeito ambições vãs; e minha mãe, por acreditar que a
aquisição da cultura em voga não sé era livre de perigo, mas podia até favorecer a
minha aproximação de ti. Eis as conclusões a que chego hoje, reconstruindo como posso o
caráter de meus pais.
Chegavam até a afrouxar-me as
rédeas dos divertimentos, sem a justa e normal severidade, deixando-me entregue, ao
desregramento das várias paixões. De toda essa misericórdia, ó meu Deus, subia uma
escuridão que me ocultava a luz serena de tua verdade, e de meu coração emanava a
iniqüidade (8).
1. Cf. Sl 130(129),1
2. Ver nota 4, Livro I, cap. 1
3. Agostinho emprega trocadilhos,
jogando freqüentemente com palavras homógrafas ou homófonas (ver livro I, cap. 2,1 e
livro II, cap. 2,8). Em português não dá para reproduzir fielmente o trocadilho latino
aqui usados por Agostinho: disertus = eloqüente e desertus = deserto,
privado, vazio.
4. Cf. Mt 13,24-30 e 36-43; Jo
15,1-2
5. Jr 2,27
6. Conf. II,
cap. 2
7. Sl
116(114-115),16
8. Cf. Sl 73(72),7
4. O FURTO DAS PÊRAS
9 Tua lei, Senhor, condena
certamente o furto, como também o faz a lei inscrita no coração humano, e que a
própria iniqüidade não consegue apagar. Nem mesmo um ladrão tolera ser roubado, ainda
que seja rico e o outro cometa o furto obrigado pela miséria. E eu quis roubar, e o fiz,
não por necessidade mas por falta de justiça e aversão a ela por excesso de maldade.
Roubei de fato coisas que já possuía em abundância e da melhor qualidade; e não para
desfrutar do que roubava, mas pelo gosto de roubar, pelo pecado em si. Havia, perto da
nossa vinha, uma pereira carregada de frutos nada atraentes, nem pela beleza nem pelo
sabor. Certa noite, depois de prolongados divertimentos pela praças até altas horas,
como de costume, fomos, jovens malvados que éramos, sacudir a árvore para lhe roubarmos
os frutos. Colhemos quantidade considerável, não para nos banquetearmos, se bem que
provamos algumas, mas para jogá-las aos porcos. Nosso prazer era apenas praticar o que
era proibido.
Eis o meu coração, Senhor, o
coração que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Que o meu coração te diga,
agora, o que procurava então, ao praticar o mal sem outro motivo que não a própria
malícia. Era asquerosa e eu gostava dela. Gostava de arruinar-me, gostava de destruir-me;
amava, não o objeto que me arrastava ao nada, mas o aniquilamento em si. Pobre alma
embrutecida, que se apartava do teu firme apoio para autodestruir-se, buscando, não algo
desonesto, mas a própria desonestidade!
5. A CAUSA DO PECADO
10 Existe certo atrativo num corpo
belo, no ouro, na prata, e em todas as coisas; entre o tato e os objetos, existe uma sorte
de harmonia de grande importância de grande importância; e os outros sentidos encontram
também nos corpos um estímulo adequado. As honras do mundo, o poder de comandar e
dominar têm sua sedução, e deles nasce o desejo de vingança. Todavia, para conseguir
tais bens, não deve o homem afastar-se de ti, Senhor, nem desviar-se de tua lei. A vida
neste mundo seduz por sua própria beleza e pela harmonia que mantém com todas as
pequenas coisas belas que nos cercam.
Também a amizade entre os homens
torna-se querida pelo vínculo suave que uni muitas almas numa só. Mas se desejamos todos
esses bens imoderadamente e por eles mesmos, bens inferiores que são, e abandonamos os
bens superiores como és tu, Senhor nosso Deus, a tua verdade e a tua lei, então
cometemos pecado. Na verdade, esses bens inferiores também satisfazem, mas não como
satisfaz o meu Deus, que tudo criou, pois nele o justo encontra a sua alegria, e ele é a
alegria dos homens de coração reto (1).
11 Quando se indaga da causa de um
crime, nela ordinariamente não acreditamos, enquanto não descobrimos que pode ter sido o
desejo de obter algum dos bens, que chamamos de inferiores, ou o medo de perdê-lo (2);
são , de fato, belos e atraentes esses bens, embora sejam desprezíveis e baixos quando
comparados aos bens superiores e beatíficos.
Alguém matou um homem: por que o
terá feito? Cobiçava a mulher do assassinado ou a sua propriedade, ou procurava
roubá-la para viver, ou porque temia ser privado de algum bem, ou, talvez, ardesse no
desejo de vingar uma ofensa. Haverá alguém que tenha assassinado sem motivo, só pelo
prazer de matar? Quem acreditaria nisso? Do homem louco e cruel (3) se diz que era
gratuitamente mau e perverso, mas não lhe faltava um motivo: como diz o historiador,
era o receio de que o ócio lhe entorpecesse as mãos e o espírito (4)! Por que
ele procedia assim? Evidentemente para alcançar o poder, honras e riquezas, com a
prática do crime, uma vez subjugada a cidade, e assim libertar-se do medo das leis e das
dificuldades devidas à estreiteza do patrimônio e aos remorsos da consciência (5).
Portanto, nem mesmo Catilina amou os seus crimes, mas a causa pela qual os cometia.
1. Cf. Sl 64(63),11
2. Cf. Enarr. in
Ps 38,2
3. Trata-se de Catilina
4. Salústio, De Coniur. Catil
16,3
5. Cf. Salústio, De Coniur Catil
5,5
6. AS PAIXÕES DÃO SATISFAÇÕES
ILUSÓRIAS; SOMENTE DEUS PODE SACIAR AS EXIGÊNCIAS DO ESPÍRITO HUMANO
12 Eu, miserável, o que foi que eu
amei em ti, furto meu, noturno delito dos meus dezesseis anos? Não eras belo, pois eras
roubo! Mas, realmente és alguma coisa, para que eu possa dirigir-me a ti (1)? As pêras
que roubamos, sim, eram belas, por serem criaturas tuas, ó Deus bom, criador de toda
beleza, sumo bem e meu verdadeiro bem. Sim, eram belas aquelas frutas, mas não era a elas
que minha alma infeliz cobiçava, eu as possuía em abundância e melhores. Eu as colhi
somente para roubar, e uma vez colhidas, atirei-as fora para saciar-me apenas, com a minha
maldade, saboreada com alegria. Se alguma tocou meus lábios, foi o meu crime que me deu
sabor.
E agora, Senhor meu Deus, procuro o
que me seduziu nesse furto. Não possui beleza alguma. E não falo da beleza que reside na
justiça ou na sabedoria, nem da beleza da inteligência humana, da memória, dos
sentimentos e de toda a vida vegetativa, nem da beleza das estrelas na harmonia do
firmamento, nem da beleza da terra e do mar, cheios de vidas que nascendo tomam o lugar
dos mortos. Nem tampouco falo da beleza limitada e ilusória dos vícios sedutores. A
soberba quer imitar a grandeza, enquanto somente tu és o Deus altíssimo que estás sobre
todas as coisas (2).
13 E a ambição, o que procura
senão honras e glórias, enquanto somente tu és digno de ser honrado e glorificado
eternamente?
A crueldade dos poderosos deseja ser
temida; mas, quem deve ser temido, senão tu, meu Deus? Ao teu domínio nada pode fugir:
quem o poderia fazer, e como, e quando?
Os carinho dos voluptuosos buscam a
reciprocidade do amor, mas nada é mais acariciante do que tua caridade, e nada mais
salutar para ser amado, que a tua verdade, a mais bela e resplandecente de todas as
coisas.
A curiosidade quer aparentar
interesse pela ciência, mas só tu conheces plenamente tudo.
Até a ignorância e insipiência
cobrem-se com o manto da simplicidade e da inocência; mas nada é mais simples, nada é
mais inocente do que tu. As próprias obras é que prejudicam os malvados.
A preguiça parece desejar apenas a
tranqüilidade, mas que repouso seguro existe fora de ti, Senhor?
A luxúria quer ser chamado de
saciedade e abundância; mas só tu és a plenitude, tu és a fonte da suavidade
inexorável e incorruptível.
A prodigalidade cobre-se com a
sombra da liberalidade; porém, és tu o mais generoso doador de todos os bens.
A avareza quer possuir muito, mas tu
possuis todas as coisas.
A inveja pleiteia a primazia, mas
quem mais excelente do que tu?
A cólera procura a vingança; qual
a vingança mais justa que a tua?
O temor, enquanto zela pela
segurança, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados, que ameaçam os objetos
amados; mas, para ti, que há de insólito ou inesperado? Quem pode separar-te daquilo que
amas? Onde se encontra segurança, senão a teu lado?
A tristeza definha na perda dos
bens, nos quais a cobiça se satisfaz, porque desejaria que nada, como a ti, se lhe
pudesse tirar?
14 É assim que o homem peca, quando
se afasta de ti e busca fora de ti a pureza e a limpidez, que ele não pode encontrar
senão voltando para ti.
Todos aqueles que se afastam de ti e
contra ti se rebelam, a ti estão imitando de forma pervertida. Ainda que imitando-te
desse modo, mostram que és o criador do universo e, portanto, que não há para onde nos
possamos afastar totalmente de ti.
Mas o que foi que achei naquele
roubo, em que foi que imitei o meu Senhor, ainda que mal e pervertidamente? Talvez eu
tenha sentido prazer em agir contra a lei pela fraude, já que não o podia fazer pela
força, para imitar, escravo que era, uma falsa liberdade, praticando impunemente o que
não me era lícito, mediante uma tenebrosa paródia de tua onipotência. Eis-me aqui,
escravo que foge do seu senhor, à procura da escuridão (3). Oh, podridão! Oh vida
monstruosa! Oh abismo da morte! Como pude achar prazer no ilícito somente por ser
ilícito?
1. Cf. Conf. III,
7; IV,15; VII,12; Enarr. in Ps 68,1,5
2. Cf. Sl 97(96),9
3. Cf. Jó 7,2-4
7. A BONDADE DE DEUS PRESERVA-NOS
DAS CULPAS E NOS PERDOA AS CULPAS COMETIDAS
15 Como agradecerei ao Senhor (1)
por minha memória recordar tais fatos, sem que isso perturbe a minha alma? Hei de
amar-te, Senhor, hei de dar-te graças e exaltar-te porque me perdoaste atos tão graves e
tão maus. Sei que, pela tua graça e misericórdia, meus pecados também fizeram como
gelo ao sol (2); devo à tua graça também todo mal que não pratiquei. A que ponto não
poderia ter chegado, eu que amei o pecado por si mesmo, sem motivo? Senhor, proclamo que
me perdoaste todas as culpas, quer cometidas voluntariamente, quer as que, por tua graça,
não cometi.
Qual homem que, consciente da sua
própria fraqueza, tem a ousadia de atribuir às próprias forças o mérito da castidade
e da inocência, a ponto de amar-te menos, como se não precisasse de tua misericórdia,
pela qual perdoas as culpas de quem arrependido se volta para ti?
Quem, chamando por ti, seguiu a tua
voz e evitou as faltas, de cuja confissão e relato toma conhecimento nestas páginas,
não se ria de mim, doente que fui curado por aquele médico, a quem ele próprio deve o
fato de não ter caído doente, ou de ter sido menos doente do que eu. Que esse alguém
apenas te ame meu Deus, ainda mais, reconhecendo que aquele que me libertou da exaustão
do pecado, o preservou também da mesma funesta debilidade.
1. Sl
116(114-115),12
2. Cf. Eclo 3,15
8. A ATRAÇÃO DO PECADO
16 Eu, miserável, que frutos colhi
das ações que cometi então, e que agora recordo envergonhado, especialmente daquele
furto que me satisfez pelo fruto em si e nada mais? De fato, ele em si nada valia, e por
isso me tornei ainda mais miserável!
No entanto, eu não o teria
praticado, se estivesse sozinho. Lembro-me bem do meu estado de alma: sozinho não o teria
feito absolutamente. Portanto, amei também no furto a companhia daqueles com quem o
cometi; daí não ser verdade ter amado apenas o furto em si. Não, não amei mais nada,
pois a cumplicidade não é mais um nada. O que será ela na realidade?
Quem me pode responder senão aquele
que me ilumina o coração e lhe dissipa as trevas? Por que me ocorreu indagar, discutir,
analisar estes fatos? Se eu tivesse na ocasião desejado de fato aqueles furtos que
roubei, e com eles me tivesse regalado, poderia tê-los roubado sozinho. Poderia ter
cometido a iniqüidade, satisfazendo o meu desejo, sem necessidade de estimular, por
outras companhias, o prurido de minha cobiça.
O fato é que não eram os furtos
que me atraíam, mas a ação má que eu cometia em companhia de amigos, que comigo
pecavam.
9. A INFLUÊNCIA DAS MÁS COMPANHIAS
17 Qual era, pois, o sentimento do
meu coração? Era sem dúvida um sentimento vergonhoso, e ai de mim que o trazia! Mas de
que se tratava?
Quem pode compreender os pecados
(1)? Era uma vontade de rir que nos acariciava o coração ao pensar que estávamos
enganados os que não esperavam de nós semelhante ato e muito o detestariam. Por que eu
me divertia ainda mais por não praticá-lo sozinho? Sim, é mais difícil. No entanto,
acontece às vezes que rimos sozinhos, sem a presença de outros, se algo muito ridículo
se apresenta aos nossos sentidos ou ao nosso pensamento. Ah! sozinho eu não teria
praticado tal ação; absolutamente não o faria!
Meu Deus, eis diante de ti a
lembrança viva de minha alma. Sozinho, eu não cometeria aquele furto, no qual não me
comprazia na coisa que eu roubava, mas no ato de roubar; sozinho, não me teria atraído a
idéia de roubar nem sequer teria roubado.
Oh amizade tão inimiga! Oh
sedução misteriosa da mente, vontade de fazer o mal por brincadeira ou diversão,
gracejo, prazer de lesar os outros sem vantagem pessoal ou sede de vingança! Basta que
alguém diga: "Vamos, mãos à obra!" E temos vergonha de não ser despudorados.
1. Sl 19(18), 13
10. ASPIRAÇÃO À PAZ INTERIOR
18 Quem desembaraçará este nós
assim tão complicado e emaranhado? É uma ação indigna; nela não quero pensar, não a
quero analisar. Eu quero a ti, ó justiça, ó inocência, ó beleza que atrai o olhar dos
virtuosos, que em ti se satisfazem sem jamais se saciar. Junto de ti existe
paz profunda e vida imperturbável. Quem mergulha em ti, entra no gozo do seu Senhor
(1); não terá mais receio, e permanecerá sumamente bem no Bem supremo.
Desandei longe de ti, meu Deus, e na
minha adolescência andei errante sem teu apoio, tornando-me para mim mesmo um antro de
miséria (2).
1. Cf. Mt 25,21
2. Ver adiante, Livro III, cap. 10
Por Santo
Agostinho
JOVEM ESTUDANTE
1. AMORES SENSUAIS
1 Vim para Cartago e logo fui cercado pelo
ruidoso fervilhar dos amores ilícitos. Ainda não amava, e já gostava de ser amado (1),
e, na minha profunda miséria, eu me odiava por não ser bastante miserável.
Desejando amar (2), procurava um objeto
para esse amor, e detestava a segurança, as situações isentas de risco. Tinha dentro de
mim uma fonte de alimento interior - fome de ti, ó meu Deus. Mas, não sentia essa fome,
porque não me apeteciam os alimentos incorruptíveis, não por estar saciado, mas porque,
quanto mais vazio, mais enfastiado eu me sentia.
Minha alma estava doente, coberta de
chagas, ávida de contato com as coisas sensíveis. Mas, se estas não tivessem alma,
certamente não seriam amadas.
Era para mim mais doce amar e ser amado, se
eu pudesse gozar do corpo da pessoa amada. Assim, eu manchava as fontes da amizade com a
sordidez da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões.
Não obstante eu ser feio e indigno, apresentava-me, nem excesso de vaidade, como pessoa
elegante e refinada. Mergulhei então no amor em que desejava ser envolvido.
Deus meu, misericórdia minha (3), como
foste bom em derramar tanto fel sobre meus prazeres! Fui amado e cheguei ocultamente às
cadeias do prazer; mas, na alegria, eu me via amarrado por laços de sofrimento, castigado
pelo ferro em brasa do ciúme, das suspeitas, dos tem ores, das cóleras e das contendas.
2. O TEATRO ALIMENTA A SEDE DE SENSAÇÕES
2 Extasiavam-me os espetáculos teatrais,
que espelhavam copiosamente as minhas misérias e alimentava a minha fogueira.
Por que o homem procura no teatro o
sofrimento, assistindo a acontecimentos trágicos e tristes, cuja experiência não
desejaria sofrer na vida real? No entanto, o espectador busca aí o sofrimento dessas
situações que, afinal, para ele constitui o seu prazer.
Que é isso senão deplorável loucura?
Com efeito, quanto mais alguém se comove
com tais cenas, tanto menos imune se encontra das paixões apresentadas. Todavia, enquanto
habitualmente chamamos de desgraça o sofrimento em si, a participação na dor alheia se
chama compaixão. Mas, afinal, que compaixão é essa das cenas fictícias do teatro? O
espectador não é solicitado a prestar auxílio, mas apenas convidado a afligir-se; e
tanto mais aplaude o ator, quanto mais é levado a sofrer. E se essas tragédias humanas,
remotas ou fictícias, são representadas de modo a não suscitar compaixão, o espectador
retira-se aborrecido e cheio de críticas; se, ao contrário, fazem sofrer, ele se mantém
atento e chora de satisfação.
3 Amamos portanto as lágrimas e o
sofrimento.
Sem dúvida, todo homem deseja alegrar-se.
Ora, ainda que ninguém tenha gosto em ser desgraçado, todavia sentimos prazer em
experimentar compaixão. E como a compaixão está sempre acompanhada de sofrimento, não
seria por essa razão que apreciamos os sofrimentos?
A amizade é a fonte desse prazer. Mas onde
correm essas águas e para onde vão? Por que se perdem em torrentes de piche fervente, em
ondas de tenebrosas paixões, nas quais voluntariamente se transforma, afastando-se de sua
limpeza celeste? Deve-se então repudiar a compaixão? De modo algum.
Que sejam, pois, alguma vez amados os
sofrimentos. Acautela-se porém contra a impureza, ó minha alma, e conserva-te sob a
proteção do meu Deus, do Deus de nossos pais, digno de todo louvor e honra por todos
os séculos (1). Foge da impureza!
Não que eu tenha renunciado agora à
compaixão. Mas, naquele tempo eu no teatro compartilhava da alegria dos amantes no gozo
mútuo de cenas escandalosas, embora se tratasse apenas de ficções cênicas. Cheio de
compaixão, eu me entristecia quando se separavam. Num e noutro caso, sentia prazer. Mas,
atualmente tenho mais compaixão do homem que se alegra no vício, do que pena de quem
sofre a privação de um prazer funesto e a perda de uma felicidade ilusória.
Essa piedade é mais real. E a dor, neste
caso, não tira dela prazer algum. Se é louvável aquele que por dever de caridade sofre
com a miséria alheia, quem é genuinamente misericordioso preferiria que não houvesse
motivo para sofrimento. Somente no caso de existir uma benevolência malévola, o que é
impossível, é que poderia aquele que experimenta verdadeira e sincera misericórdia
desejar que houvesse infelizes para deles se compadecer! Em certos casos, podemos aprovar
que haja alguma dor, mas nunca a podemos amar. Portanto, Senhor meu Deus, que amas os
homens, tua compaixão é muito mais profunda e mais pura que a nossa, pois não está
eivada de dor alguma.
E quem estaria à altura de tal missão (2)?
4 Mas eu, miserável, gostava de sofrer e
buscava motivos de dor; no sofrimento alheio, imaginário, teatral, os gestos do ator,
quanto mais me faziam chorar, mais me agradavam e mais me seduziam. POrtanto, não é de
admirar que eu, ovelha infeliz, errando longe do teu rebanho e me opondo à tua guarda,
fosse atingido por essa tão vergonhosa corrupção. Daí o meu amor pelos sofrimentos,
mas não pelos que me atingissem profundamente, pois eu não desejava suportar as dores
que amava contemplar; as ficções que eu via e ouvia tocavam-me a superfície da alma.
Mas, como acontece quando revolvemos uma ferida com as unhas, esse contato me provocava
inflamação ardente, infecção e pus repelente.
Tal era a minha vida. Mas, meu Deus,
poderia isso chamar-se vida?
3. AGOSTINHO NÃO SEGUE OS COMPANHEIROS EM
TODOS OS SEUS EXCESSOS
5 Tua fiel misericórdia pairava de longe
sobre mim. Em quantas iniqüidades me corrompia! Eu te abandonava para seguir uma
curiosidade sacrílega que me precipitava nos abismos da infidelidade e do serviço
enganador aos demônios. A estes eu oferecia em sacrifício as minhas maldades. No
entanto, não cessava de flagelar-me em todas as experiências. Ousei até, durante as
celebrações do teu culto, entre as paredes da tua igreja, conceber desejos impuros e
fazer planos para satisfazê-los e assim buscar frutos de morte!
Por isso me puniste com graves
castigos; mas estes eram nada diante das minhas culpas, ó Deus meu, ó misericórdia
infinita, que é o meu refúgio (1) contra esses males terríveis, entre os quais
presunçoso divaguei, de cabeça erguida, afastando-me de ti cada vez mais, ao amar os
meus, e não os teus caminhos, ao amar a liberdade de um fugitivo.
6 Mesmo os estudos a que me entregava,
chamados de liberais, tinham se curso voltado para o foro litigioso, para se obter
sucesso, e quanto mais fraude se comete, mais glória se granjeia. Tão cegos são os
homens, que chegam a gloriar-se da própria cegueira!
Eu era o primeiro nas aulas de retórica, o
que me satisfazia o orgulho e me fazia inchar de vaidade. No entanto, Senhor, tu sabes que
eu era muito mais controlado que os outros e que me esquivava de promover as desordens
praticadas pelos "arruaceiros" (nome sinistro e diabólico de que se orgulhavam
como sinal de civilizados). Vivia contudo entre eles com a despudorada vergonha de não
saber imitá-los. Encontrava-me com eles e alegrava-me com a sua amizade, se bem me
esquivasse sempre de seus empreendimentos, isto é, das desordens com que escarneciam com
arrogância dos tímidos e inocentes, provocando-os com zombarias e regalando-se com esses
cruéis divertimentos. Nada mais semelhante aos atos dos demônios, nada mais digno do
nome de "arruaceiros". Mas eles eram os primeiros a serem destruídos e
pervertidos pelos maus espíritos, que ocultamente deles escarneciam, seduzindo-os com os
mesmos enganos com que gostavam de ludibriar e enganar os outros.
4. O HORTÊNSIO DE CÍCERO DESPERTA EM
AGOSTINHO O AMOR À SABEDORIA
7 Era entre tais companheiros que, na idade
da inexperiência, eu estudava retórica, esforçando-me por ser o primeiro, com a
intenção deplorável e vã de satisfazer à vaidade humana. Seguindo o programa normal
do curso, chegou-me às mãos o livro de um tal Cícero, cuja linguagem - mas não o
coração - é quase unanimemente admirada.
O livro é uma exortação à filosofia e
chamava Hortênsio (1). Devo dizer que ele mudou os meus sentimentos e o modo de me
dirigir a ti; ele transformou as minhas aspirações e desejos.
Repentinamente pareceram-me desprezíveis
todas as vãs esperanças. Eu passei a aspirar com todas as forças à imortalidade que
vem da sabedoria. Começava a levantar-me para voltar a ti (2). Eu contava dezenove anos e
meu pai havia morrido havia dois anos.
Não era para apurar a linguagem que eu lia
esse livro, motivo pelo qual eu recebia o dinheiro de minha mãe: o que me apaixonava era
o seu conteúdo, e não a maneira de dizer.
8 Como eu ardia, ó meu Deus, em desejos de
voar para ti, abandonando as coisas terrenas! No entanto, eu ainda não sabia o que
pretendias fazer de mim! Em ti reside a sabedoria (3). Ora, o amor da sabedoria, pelo qual
eu me apaixonava com esses estudos, tem o nome grego de filosofia.
Há quem seduza o próximo pela filosofia,
colorindo e mascarando os próprios erros com nome grandioso, fascinante e nobre. Quase
todos os filósofos dessa época e de épocas anteriores, que assim o fizeram, são
censurados e denunciados neste livro. Aparece em suas páginas o salutar conselho que
deste por intermédio de teu servo fiel: Estai de sobreaviso, para que ninguém vos
engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do
mundo, em vez de se apoiar em Cristo. Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da
divindade. Tendes tudo plenamente nele, que é a cabeça de todo principado e potestade
(4).
Sabes, ó luz do meu coração, que nessa
época eu não conhecia ainda essas palavras do apóstolo. Atraía-me aquela exortação,
pelo fato de não me excitarem a amar, buscar, seguir, abraçar com ardor essa ou aquela
seita, mas simplesmente a sabedoria, qualquer que fosse. Mas, no meio de tanto fervor,
havia uma circunstância que me mortificava: a ausência de Cristo no livro. Este nome, por
tua misericórdia, Senhor (5), o nome do meu Salvador, do teu Filho, meu coração, o
havia sorvido com o leite materno quando ainda pequenino, e o conservava no meu íntimo.
Qualquer escrito que se apresentasse a mim sem esse nome, por mais literário, burilado e
verdadeiro que fosse, não conseguia conquistar-me totalmente.
5. PRIMEIRA APROXIMAÇÃO ÀS SAGRADAS
ESCRITURAS
9 Resolvi por isso dedicar-me ao estudo das
Sagradas Escrituras, para conhecê-las. E encontrei um livro que não se abre aos soberbos
e, que também não se revela às crianças; humilde no começo, mas que nos leva aos
pícaros e está envolto em mistério, à medida que se vai à frente. Eu era incapaz de
nele penetrar ou de baixar a cabeça à sua entrada (1).
O que senti nessa época, diante das
Escrituras, foi bem diferente do que agora afirmo. Tive a impressão de uma obra indigna
de ser comparada à majestade de Cícero. Meu orgulho não podia suportar aquela
simplicidade de estilo. Por outro lado, a agudeza de minha inteligência não conseguia
penetrar-lhe o íntimo. Tal obra foi feita para acompanhar o crescimento dos pequenos, mas
eu desdenhava fazer-me pequeno (2), e, no meu orgulho, sentia-me grande.
6. ADESÃO AO MANIQUEÍSMO
10 Caí assim nas mãos de homens
desvairados pela presunção, extremamente carnais e loquazes. Suas palavras traziam as
armadilhas do demônio, numa mistura confusa do teu nome com o de nosso Senhor Jesus
Cristo e do Espírito Santo consolador (1). Pronunciavam continuamente tais nomes, que
eram apenas sons e movimentos de lábios, mas seus corações eram vazios da verdade.
Repetiam: "verdade, verdade!" E me falavam muito dela, mas não a possuíam:
pelo contrário, ensinavam falsidades, não só a teu respeito, que és realmente a
verdade, mas também sobre a existência do mundo, criatura tua. Quanto a essas coisas,
graças ao teu amor, eu deveria ter superado mesmo aqueles filósofos que ensinam coisas
verdadeiras, meu Pai, bondade soberana, beleza das belezas!
Verdade, verdade! Já então, suspirava por
ti do mais íntimo do meu ser, enquanto eles me faziam ouvir o teu nome tantas vezes e de
várias maneiras, mas apenas com os lábios e através de numerosos e pesados volumes! Eu
tinha fome de ti, e as iguarias que, ao invés de ti, me eram apresentadas, eram o sol e a
lua (2), tuas belas criaturas, mas sempre criaturas, não tu mesmo, nem ao menos tuas
principais criaturas, porque as obras espirituais precedem as materiais, ainda que
luminosas e celestes. Mas também não era dessas primeiras criaturas que eu andava
faminto e sequioso, mas sim de ti, verdade não sujeita a transformações nem a
sombras de mudanças (3).
Eram-me apresentadas fantasias brilhantes;
teria sido melhor amar o próprio sol, verdadeiro ao menos para os olhos, em lugar
daquelas falsidades destinadas a enganar a inteligência através dos olhos.
Alimentava-me, no entanto, de tais manjares, porque julgava que eras tu, mas na realidade
não o fazia com grande avidez, porque não tinham o teu autêntico sabor; e longe de me
nutrirem, me debilitavam cada vez mais. A comida em sonho é muito semelhante à comida
real, mas os que sonham não se alimentam, porque dormem. No entanto, aqueles alimentos de
modo algum eram semelhantes a ti: agora o sei, porque a mim o revelaste. Eram de fato pura
fantasia, falas realidade. Mais verdadeiros do que eles são os corpos celestes ou
terrestres que vemos com os olhos da carne. E os vemos como os vêem os animais e as aves,
e têm mais realidade do que as imagens que deles formamos. Por sua vez, tais imagens são
ainda mais reais que as conjunturas que nos sugerem, maiores e infinitas; contudo não
existem de modo algum. São como aquelas fantasias com as quais eu então me alimentava e
não me saciavam.
Mas tu, meu amor, diante de quem desfaleço
para tornar-me forte (4), tu não és estes corpo que vemos, mesmo que estejam no céu,
nem aqueles que aí não conseguimos ver, porque tu os criaste todos, e não chegam a ser
as melhores obras de tuas mãos. Quão longe estás de minhas fantasias de então,
ficções de corpos inexistentes. Mais reais que essas são as imagens dos corpos que
existem, e mais reais ainda que estas mesmas imagens são os próprios corpos que não
são tu! Mas também não és a alma, que é vida dos corpos e, por isso mesmo, mais nobre
e mais real que os próprios corpos. Tu és a vida das almas, a vida das vidas, que vives
em razão de ti mesmo, e que não mudas, ó vida da minha alma (5)!
11 Onde estavas então? E como estavas
longe de mim! Antes era eu que errava afastando de ti, excluindo até das bolotas que
distribuía aos porcos (6). As fábulas dos mestres e poetas são bem melhores que aquelas
mentiras! Os versos, a poesia, o vôo de Medéia (7) são realmente mais úteis que os
cinco elementos do mundo que se transformam de vários modos em cinco antros de trevas
que, além de não existiram, matam a quem neles acredita (8). Dos versos e da poesia
seria possível extrair alimento. Eu podia declamar o vôo de Medéia, mas não o aceitava
como autêntico; podia ouvir a sua declamação, mas não acreditava nele. Mas - ai de
mim! - acreditei neles. Por esses degraus desci às profundezas do inferno, atormentado
pela sede da verdade, enquanto te buscava, Deus meu, não com a razão, pela qual me
quiseste superior aos animais, mas com os sentimentos da carne. Agora eu te
reconheço e confesso, a ti que tiveste compaixão de mim quando eu ainda não te
conhecia. Tu estavas mais dentro de mim do que a minha parte mais íntima. E eras superior
a tudo o que eu tinha de mais elevado.
Encontrei a mulher audaz e desprovida de
prudência que, na alegoria de Salomão, está sentada à porta e diz: Comei à
vontade o pão tomado às escondidas e bebei as doces águas roubavas (9). Ela
me seduziu, porque me encontrou fora de mim, atento que eu estava a ruminar o que
já havia devorado com os olhos da carne.
7. OS DESATINOS DOS
MANIQUEUS. O PROBLEMA DA MORALIDADE
12 Eu ignorava a outra realidade, a
verdadeira, e era levado a aceitar o que me parecia o penetrante raciocínio de estúpidos
impostores, quando me faziam perguntas sobre a origem do mal, se Deus se circunscreve a
uma forma corpórea, se tem unhas e cabelos, se se devia considerar honesto quem tivesse
ao mesmo tempo várias mulheres, quem assassinasse homens e quem sacrificasse animais (1).
Na minha ignorância, ficava perturbado com tais perguntas, afastando-me da verdade
enquanto acreditava aproximar-me dela. Pois eu não sabia que o mal é apenas privação
do bem, privação esta que chega ao nada absoluto. Mas teria podido conhecer a verdade,
se meus olhos só atingiam o meu corpo e meu espírito não via mais do que fantasias?
Não sabia que Deus é espírito (2) e que não possui membros com medidas de comprimento
e largura; nem é matéria, porque a matéria é menor em sua parte que no seu todo. Ainda
que a matéria fosse infinita, seria menor em alguma de suas partes, limitada por um certo
espaço, do que na sua infinitude; nem se concentra toda inteira em qualquer parte, como o
espírito, como Deus. Ignorava totalmente que princípio havia em nós, segundo o qual
existimos, e porque se diz na Sagrada Escritura que fomos feitos à imagem de Deus (3).
13 Desconhecia a verdadeira justiça
interior que não julga pelos costumes, mas pela retíssima lei de Deus onipotente, com
aquela se devem conformar os costumes das nações e dos tempos; ela permanece a mesma
sempre e em qualquer lugar, sem se alterar, enquanto mudam as nações e os tempos. De
acordo com essa lei viveram na justiça Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e todos os
outros que Deus louvou por sua própria boca. Os ignorantes, porém, que julgam conforme a
sabedoria humana, os consideram injustos, e medem os costumes de todos os homens de todos
os tempos segundo pontos de vista de seus modos pessoais de agir. Raciocinam como alguém
que não conhece as estruturas de uma armadura e a que membro do corpo cada peça se
adapta e tenta cobrir a cabeça com a couraça e guarnecer os pés com o capacete, e se
queixa de que as peças não se adaptam a ele convenientemente. Ou como se num dia, cuja
tarde fosse declarada feriado, alguém se irritasse por não lhe ser permitido expor
mercadorias à venda, o que lhe fora permitido pela manhã; ou como se na mesma casa
alguém visse um escravo manejando objetos que ao copeiro é proibido tocar, ou fazer
atrás de uma estrebaria o que não é permitido fazer à mesa, e se indignasse porque, em
se tratando de uma só habitação e de uma só família, não tivessem todos as mesmas
atribuições em toda parte. Assim fazem aqueles que se irritam ao ouvir dizer que noutros
tempos se permitia aos justos o que agora lhes é vedado, e que Deus deu ordens diversas
segundo as circunstâncias de tempo, estando todos sujeitos à mesma justiça. Esses tais
não vêem como, com a mesma pessoa, no mesmo dia, na mesma casa, o que convém a um
membro, não convém a outro, o que há pouco era permitido, já não é agora; certos
atos que eram lícitos, e até prescritos aqui, agora são lá proibidos e até
proscritos.
Por acaso a justiça é desigual e
mutável? Não, os tempos que ela preside não caminham da mesma forma, e justamente por
isso se denominam tempos (4). Os homens cuja vida terrena é breve (5) - são incapazes de
harmonizar as razões válidas em séculos passados e de outros povos, que escapam à sua
experiência com os dados que a própria experiência lhes fornece. No entanto facilmente
podem ver o que convém a tal membro, a tal hora do dia, a tal lugar ou pessoa, no mesmo
corpo, no mesmo dia, na mesma casa. No primeiro caso chocam-se, mas no segundo
submetem-se.
14 Eu não conhecia, não percebia todas
essas coisas. De todos os lados feriam-me os olhos e eu não via. Por exemplo, quando
fazia versos, sabia bem que não me era permitido fazê-los de qualquer forma, mas devia
colocar em cada verso o pé adequado à metrificação, e não podia colocar sempre o
mesmo pé no mesmo verso. A própria arte de versejar não seguia princípios diversos em
diferentes pontos, mas consistia num conjunto unitário. Não percebia que a justiça, a
que os homens santos e retos se sujeitavam, constituía também um sistema unitário de
preceitos muito nobres e sublimes: imutável no essencial, não os impõe todos
simultaneamente, mas segundo as circunstâncias e as pessoas. E na minha cegueira
censurava os piedosos patriarcas, não só porque usavam o presente conforme as ordens e
inspiração de Deus, mas também porque haviam prenunciado o futuro, segundo as
revelações que Deus lhes fizera.
8. FUNDAMENTOS NATURAIS DA MORAL
15 Existirá tempo ou lugar em que seja
injusto amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento, e ao
próximo como a si mesmo (1)? Por isso, os crimes contra a natureza, como os de Sodoma
(2), devem ser sempre e em toda parte condenados e punidos. Mesmo que todos os homens os
cometessem, todos estariam incluídos na mesma condenação, em virtude da lei divina, que
não criou os homens para que fizessem tal uso de si mesmos. É de fato uma violação do
vínculo que deve subsistir entre Deus e nós, o profanar, pela paixões depravadas, a
própria natureza de que ele é o autor. Os atos imorais, contrários aos costumes
humanos, devem ser evitados por causa desses mesmos costumes, variáveis conforme os
tempos, a fim de que não seja violado pelo capricho de quem quer que seja, cidadão ou
estrangeiro, o pacto estabelecido pelo costume ou pela lei de uma cidade ou nação.
De fato, é um disparate a discordância de
qualquer parte com o todo. Todavia, quando o próprio Deus dá alguma ordem contra os
costumes ou contra as convenções de determinado lugar, é preciso praticá-la, ainda
mesmo que tal preceito jamais aí tenha sido observado , é preciso restabelecê-lo, no
caso de ter sido suspenso, e instituí-lo, se ainda não o foi. De fato, é permitido a um
rei ordenar, na cidade em que reina, algo que jamais tenha sido antes ordenado por ele
próprio ou por outros; e obedecer a tal ordem não significa ir contras as convenções
da cidade; ao contrário, assim seria o fato de não obedecer, pois o pacto fundamental de
toda sociedade humana é de fato a obediência ao próprio rei. Muito mais então se deve
obedecer, sem hesitar, às ordens de Deus, rei de toda a criação.
16 Tal como na sociedade humana, em que a
autoridade maior precede à menor quanto à obediência devida, assim Deus deve ser
obedecido por todos. As mesmas considerações valem quanto aos crimes que implicam o
desejo por vingança, como ocorre de prejudicar, seja pela violência, seja pela injúria.
Uns e outros, procedem entre inimigos, ou pela cobrança de um bem alheio, como acontece
com o ladrão que assalta o viajante; ou para evitar uma desgraça, como acontece ao que
é temido; ou por inveja, como no caso do miserável em relação ao mais afortunado; ou
deste que, bem sucedido em alguma coisa, teme ser igualado, ou sofre porque já foi
igualado, ou, finalmente, até mesmo e apenas pelo prazer que sente com o mal alheio, como
acontece a quem assiste ao espetáculo dos gladiadores, ou a quem ri e zomba dos outros.
São essas as principais fontes de
iniqüidade, que brotam das três paixões do poder, da curiosidade e da satisfação dos
sentidos (3), ora de uma só, ora de duas, ora de três simultaneamente. Vive-se então
pecaminosamente contra os primeiros três e os outros sete mandamentos, que são a lira de
dez cordas (4), o teu decálogo, ó meu Deus altíssimo e cheio de doçura.
Mas que ações pecaminosas podem atingir-te, ó Deus, se és incorruptível? Que delitos
te ofendem se é impossível fazer-te mal? Castigas as culpas que os homens cometem contra
si mesmos, porque, mesmo quando pecam contra ti, fazem mal à sua própria alma, e a sua
iniqüidade se engana a si mesma (5), destruindo e pervertendo a própria natureza das
coisas lícitas, quer desejando ardentemente as ilícitas, mediante uso contrário à
natureza (6). São culpáveis no seu íntimo, imprecando contra ti e recalcitrando
contra o aguilhão (7), ou quando, rompendo as barreiras da sociedade humana, se alegram
audaciosamente com a formação de conciliábulos ou com a criação de hostilidade, ao
sabor de simpatias ou ressentimentos.
Tudo isso acontece quando é abandonado, ó fonte da vida, único e verdadeiro criador e
moderador do universo. Por orgulho individual ama-se uma parte de ti, falsamente tomado
pelo todo. E assim retornamos a ti com humilde piedade, e tu nos purifica dos maus
hábitos, e te mostras indulgente para com quem se reconhece pecador, ouves os lamentos
dos cativos (8), e nos libertas daqueles grilhões que nós mesmos preparamos,
contanto que jamais nos ergamos contra ti em atitude de falsa liberdade, cobiçosos de
possuir mais, como o risco de tudo perder, dando mais preferência ao nosso bem particular
do que a ti, que és o bem universal.
9. É DIFÍCIL JULGAR OS HOMENS
17 Mas ao lado de delitos, crimes e muitas
outras iniqüidades, há também as faltas daqueles que avançam no caminho do bem,
censurados pelos que julgam retamente segundo as normas da perfeição e louvados pela
esperança dos bons frutos que revelam, tal como a verdura dos campos anuncia a colheita.
Há certos atos que se assemelham a pecados
e crimes; contudo, não o são, porque não ofendem nem a ti, Senhor nosso Deus, nem à
sociedade humana. Tal é o caso de quem procura alcançar algum bem para usá-lo na vida
em tempo oportuno, sem que se possa afirmar se é por desejo desregrado de possuir; ou o
caso da legítima autoridade, quando pune com intuito de corrigir o culpado, e não se
sabe se ela sentou prazer em fazê-lo sofrer. Portanto, muitas ações que aos homens
pareciam reprováveis, na realidade são aprovadas por ti, enquanto outras que os homens
elogiam, tu as condenas. De fato, sucede muitas vezes que a aparência de um ato não
corresponde à intenção de quem o pratica ou às circunstâncias desconhecidas no
momento.
Mas quando subitamente ordenas alguma
ação inesperada, quem duvidará da obrigação de obedecer, ainda que não reveles na
ocasião o motivo de determinados indivíduos, visto que só é justa a sociedade humana
que te obedece? Felizes os que compreendem tratar-se de preceitos teus, pois, quem serve a
ti, ou faz o que é necessário no presente ou preanuncia o que sucederá no futuro.
10. ESTRANHAS DOUTRINAS DOS MANIQUEUS
18 Por desconhecer tais fatos, eu ria de
teus santos servidores e de teus profetas. Na realidade, eu é que deveria ser escarnecido
por ti, eu que, aos poucos, me deixara induzir e crer em tolices, como, por exemplo, que o
figo chora lágrimas de leite ao ser colhido, como também sua mãe a figueira (1). Mas se
algum eleito comesse com naturalidade o figo (2), criminosamente colhido por outros e não
por ele, desse figo macerado nas entranhas, através de orações, gemidos e soluços,
sairiam anjos e até partículas de Deus, do soberano e verdadeiro Deus, que teriam ficado
prisioneiras nesse fruto, caso não tivessem sido liberadas pelos dentes e pelo estômago
do eleito (3). E eu, infeliz, julgava ser necessário dispensar maior atenção aos frutos
da terra do que aos homens a quem eles se destinam. E se um homem esfaimado, que não
fosse maniqueísta, me pedisse de comer, o fato de dar-lhe migalhas me parecia coisa digna
de pena capital.
11. PRANTO E SONHO DE MÔNICA
19 Do alto estendeste a tua mão (1) e arrancaste
a minha alma (2) de um abismo de trevas, enquanto minha mãe, tua fiel serva, chorava
por mim, mais do que as mães choram pela morte física dos filhos. É que ela, com o
espírito de fé com que a dotaste, via a morte da minha alma, e tu, Senhor, lhe ouviste
os pedidos. Ouviste-a, e não lhe desprezaste as lágrimas que, brotando-lhe dos olhos,
regavam a terra por toda parte em que orava. Sim, tu a ouviste. Porque, de quem senão de
ti veio aquele sonho tão consolador, que ela aceitou tornar a viver comigo e ter-me à
sua mesa, o que antes recusava fazer, por horror e aversão às blasfêmias do meu erro?
Nesse sonho, viu-se de pé sobre uma régua de madeira, e um jovem luminoso e alegre
lhe foi sorridente ao encontro, enquanto ela estava triste e amargurada. Perguntando-lhe
os motivos da tristeza e das lágrimas cotidianas, não por curiosidade, mas para
instruí-la, como acontece muitas vezes. E respondendo ela que chorava a minha perdição,
ele a confortou, aconselhando-lhe que prestasse atenção e visse que onde ela se
encontrava aí estava também eu. Ela olhou e me viu diante de si, de pé, na mesma
régua. De onde viria tal sonho, senão do fato de teres ouvido a voz do seu coração, ó
Bondade onipotente, que cuidas de cada um como se de um só cuidasses, e de todos como se
fossem um só?
20 De onde vem ainda o seguinte fato?
Quando ela me contou o sonho, tentei dizer-lhe que ela não devia perder a esperança de
um dia vir a ser como eu. Mas ela me respondeu imediatamente, sem hesitação: "Não,
não me foi dito: 'onde ele está, aí estarás tu'. Mas sim: 'onde estás, aí estará
também ele'".
Confesso-te, Senhor, tanto quanto posso me
lembrar, e nunca o escondi: mais do que o próprio sonho, abalou-me aquela tua resposta,
dado por intermédio da solicitude de minha mãe. Ela não se perturbou diante de uma
interpretação sutil, porém falsa, e logo percebeu o que devia ser visto e o que eu na
verdade não tinha visto antes de ela contar. Por esse sonho, foi anunciada com
antecedência, a essa piedosa mulher, para sua consolação na aflição presente, uma
alegria que só teria muito tempo depois.
Passaram-se de fato nove anos, durante os
quais eu me revolvi no lodo desse profundo abismo (3) e nas trevas do erro,
tentando levantar-me, mas afundando-me cada vez mais. No entanto, aquela viúva casta,
piedosa e sóbria - tal como gostas que sejam - sustentada sempre pela esperança, mas sem
poupar lágrimas, não cessava de chorar por mim diante de ti, em todos os momentos de
suas orações. Desse modo, chegavam à tua presença as preces dela, mas tu permitias
ainda que me revolvesse e Debatesse, naquelas trevas.
12. RESPOSTA DE UM BISPO
21 Tu me deste ainda outra resposta que
recordo agora. Como tenho pressa de relatar o mais urgente, deixo de referir fatos, sem
falar de muitos outros que não mais recordo.
Deste-me, pois, outra resposta por meio de
um sacerdote teu, certo bispo formado na tua igreja e perito nos teus livros. Instado por
minha mãe para ter comigo um conversa, para refutar meus erros, dissuadir-me do mal e
ensinar-me a verdade, como fazia sempre que encontrava pessoas receptivas, ele se recusou
muito prudentemente, como mais tarde percebi. Respondeu que eu ainda era indócil, por
estar completamente enfatuado com a novidade da heresia e envaidecido por ter embaraçado,
como algumas objeções, pessoas despreparadas, como ela havia dito. "Deixe-o onde
está, disse a ela. Limite-se a orar por ele ao Senhor: ele descobrirá por si mesmo,
através da leitura, o erro e toda a impiedade dessa doutrina". Ao mesmo tempo,
contou que também ele, quando menino, fora confiado aos maniqueus pela mãe, enganada
pelo erro; não somente havia lido, mas também copiara quase todos os livros deles. E,
sem que ninguém discutisse para persuadi-lo, chegou à conclusão de quanto tal seita
devia ser evitada, e de fato a abandonou. Minha mãe, porém, não se rendeu a essas
palavras, mas insistiu, suplicando-lhe com muitas lágrimas, que me fosse ver e tivesse
uma conversa comigo, até que o bispo, já um tanto aborrecido, respondeu-lhe: "Vá e
viva em paz, pois é impossível que possa perecer um filho de tantas lágrimas".
Muitas vezes ela recordava, mais tarde, em suas conversas comigo, que recebera essas
palavras como vindas do céu.
Por Santo
Agostinho
O PROFESSOR
1. SEDUZIDO E SEDUTOR
1
Durante os nove anos que se seguiram, dos dezenove aos vinte e oito anos de idade, fui
muitas vezes seduzido e sedutor, enganado e enganador, em meio às diversas paixões,
ensinando, de público, as ciências chamadas liberais e, em nome particular, praticando
uma religião indigna de tal nome. Ora, soberbo, ora supersticioso, sempre vaidoso. Ora em
busca do quimérico louvor popular - até mesmo de aplauso no teatro - e dos concursos de
poesia, das disputas de coroas de feno (1), de espetáculos frívolos e dos desregramento
das paixões. Ora, desejando purificar-me dessas manchas, levava alimentos aos chamados
eleitos e santos, para que estes, nas oficinas de seus estômagos, fabricassem anjos e
deuses que nos libertassem (2).
Eu tinha essas opiniões e as praticava, como meus amigos, enganando a eles e a mim mesmo.
Riam-se de mim os orgulhosos ainda não salutarmente humilhados e esmagados por ti, meu
Deus. Mas, para teu louvor, não deixarei por isso de confessar minhas indignidades.
Imploro me concedas que eu possa percorrer com memória fiel o caminho de meus erros
passados, oferecendo-te sacrifícios de júbilo (3).
Sem ti, o que sou eu para mim, senão um guia a caminho do abismo? Que sou eu quando tudo
me corre bem, senão alguém que te suga o leite e se nutre de ti, ó alimento
incorruptível (4)? E que vem a ser o homem, qualquer homem, visto que é apenas homem?
Zombem de nós os fortes e poderosos: nós, miseráveis e fracos, não cessaremos de nos
confessar a ti.
2. O PROFESSOR DE
RETÓRICA. O AMOR DE UMA MULHER
2
Naqueles anos eu ensinava retórica: vencido pelas paixões, eu vendia tagarelices para
ensinar a ganhar causas. Todavia, Senhor, tu bem sabes que eu preferia ter bons
discípulos, no verdadeiro sentido da palavra, e, sem artimanhas, eu lhes ensinava
artifícios úteis, dos quais pudessem um dia usar, não contra a vida de um inocente,
mas, quem sabe, para salvar a vida de um culpado. E tu, meu Deus, vias de longe meus
tropeços nesse caminho, escorregadio, vias também, no meio de densa fumaça, algumas
centelhas de fidelidade que eu oferecia aos discípulos que como eu amavam a vaidade e
buscavam o que é falso (1).
Durante esses anos, eu vivia em companhia de uma mulher, a quem não estava unido
legítimo matrimônio, mas que a imprudência de uma paixão inquieta me fez encontrar.
Era, porém, uma só, e eu lhe era fiel. Com esta união experimentei pessoalmente a
diferença entre o laço conjugal instituído em vista da procriação, e uma ligação
baseada na paixão sensual, da qual podem nascer filhos sem serem desejados, embora uma
vez nascidos se imponham ao amor dos pais.
3
Recordo-me também de que, tendo querido participar de um concurso de poesia teatral, não
sei que adivinho mandou perguntar-me que recompensa estaria eu disposto a dar-lhe para me
fazer sair vencedor. Eu lhe respondi que detestava e desprezava práticas tão
abomináveis e que não deixaria imolar nem mesmo um mosca pela minha vitória, ainda que
a coroa fosse de ouro puro. Ele de fato se prontificava a matar animais como sacrifícios
e julgava evidentemente, com tais homenagens, invocar para mim o auxílio dos demônios.
Mas não foi por amor à tua pureza, Deus da minha alma (2), que repudiei os esplendores
materiais. Uma alma que suspira por essas falsidades acaso não comente adultério longe
de ti, não se apóia em mentiras e apascenta ventos (3)? Eu não queria que por mim se
imolassem vítimas aos demônios, mas eu me imolava a eles pela superstição. De fato,
que significa, apascentar ventos, senão apascentar os espíritos diabólicos, isto é,
dar-lhes, com nossos erros, motivos para alegrias e zombarias?
3. INTERESSE PELA
ASTROLOGIA
4 Por
isso, eu não cessava de consultar esses embusteiros denominados astrólogos, que pareciam
não sacrificar nem dirigir preces aos espírito para adivinhar o futuro. Todas as
práticas desse gênero são coerentemente rejeitadas e condenadas pela verdadeira piedade
cristã. É bom louvar-te, Senhor (1), e dizer-te: Tem compaixão de mim, Senhor:
cura-me, porque contra ti pequei (2). Todavia, não convém abusar de tua
misericórdia para tornar a pecar, e sim lembrar as palavras divinas: Eis que estás
curado; não peques mais, para que não te sucedas algo ainda pior (3). Mas esses
impostos procuram destruir esse plano de salvação, dizendo: "Pecar é inevitável,
a causa vem do céu. É obra de Vênus, de Saturno, ou de Marte". Evidentemente,
querem com isso inocentar o homem, que é carne, sangue e orgulhosa podridão; a culpa
recairia sobre o criador e ordenador do céu e dos astros. E quem é este, senão tu,
nosso Deus, suavidade e fonte da justiça, que retribui a cada um de acordo com seu
comportamento (4), e não desprezas um coração contrito e humilhado (5)?
5 Ora,
vivia nesse tempo um homem sagaz, ótimo e famoso médico (6). Substituindo o cônsul, mas
não como médico, com suas próprias mãos colocou sobre minha cabeça insana a coroa
pela qual eu lutara. Esse gênero de doença só tu és o médico que o curas, tu que
resistes aos soberbos e dás a graça aos humildes (7). Contudo, mesmo através desse
ancião, não me abandonaste nem deixaste de me curar a alma! À medida que aumentava
nossa intimidade eu me tornava mais assíduo e atento às conversas dele, destituídas de
palavras rebuscadas, porém, ao mesmo tempo, agradáveis e profundas pela riqueza de
pensamento. Quando ele soube pelas minhas conversas, que eu me dedicava ao estudo dos
livros de horóscopo, com paternal bondade me aconselhou a lançá-los fora e não
despender em coisas vãs o tempo e o trabalho necessários a coisas mais úteis. Contou-me
que também ele fizera tais estudos e que na juventude chegara a pensar em fazer disso uma
profissão; se havia entendido Hipócrates, poderia também entender esses livros. No
entanto, decidiu abandonar tais estudos para seguir a medicina, por tê-los achado
completamente falsos e não querer, como homem honesto, ganhar o pão às custas de
enganar as pessoas. E acrescentou: "Mas tu tens a retórica que te oferece uma
posição social, e cultivas essas falsidades apenas por prazer e não por necessidade
econômica! Com mais razão deves crer em quem as estudou a fundo com a intenção de
fazer delas o seu único sustento". Perguntei-lhe então por qual motivo muitos
presságios se realizavam. Respondeu-me, como pôde, que era pela força do acaso,
presente em toda parte na natureza. Se alguém, explicava ele, consultando por acaso
qualquer poeta que canta e pensa uma coisa totalmente diversa, muitas vezes depara com um
verso extraordinariamente adequado à preocupação do momento. Assim, não é para
admirar que, em virtude de alguma inspiração superior, venha a soar, na alma humana,
embora inconsciente do que lhe está acontecendo, alguma palavra que se harmonize, não
por arte, mas por acaso, com a situação e os atos da pessoa que interroga.
6 Esse
aviso, eu o recebi desse homem, ou melhor, de ti, por intermédio desse homem, e me
esboçaste na mente as linhas de um pensamento que eu deveria desenvolver mais tarde por
conta própria. Mas, nesse momento, nem ele nem o meu caríssimo Nebrídio, jovem muito
bom e reto que costumava rir de qualquer gênero de adivinhação, conseguiram
persuadir-me a livrar-me disso; porque, mais do que eles, influenciava-me a autoridade
daqueles autores. Também, eu ainda não havia encontrado prova evidente, como desejava,
que me mostrasse sem ambigüidades que as predições dos astrólogos consultados atingiam
a verdade por acaso ou por sorte, e não pela arte da observação dos astros.
4. A MORTE DE UM AMIGO:
DESCONSOLO DE AGOSTINHO
7 Na
época em que eu começava a ensinar na cidade em que nasci, travei relações com um
amigo que, tendo os mesmos interesses de estudo, veio a ser muito querido. Era da minha
idade e estava, como eu, na flor da juventude. Crescemos juntos desde meninos, fomos
colegas de escola e de folguedos; mas só então tornou-se verdadeiramente meu amigo,
embora não fosse essa a verdadeira amizade, pois a amizade só é verdadeira quando une
pessoas ligadas a ti pelo amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que
nos foi dado (1). Todavia, essa amizade, amadurecida ao calor dos mesmos interesses,
era para mim cheia de suavidade. Eu o desviara da verdadeira fé que ele, ainda jovem,
professava um tanto superficialmente, e o arrastara para as superstições falsas e
perniciosas que tantas lágrimas por minha causa custaram à minha mãe. Suas idéias,
como as minhas, incidiam no erro, e eu não podia passar sem ele. Mas eis que alcançaste
os fugitivos, Senhor Deus das vinganças (2), e ao mesmo tempo fonte de toda
misericórdia, que convertes os homens a ti pelos caminhos mais estranhos. Levaste-o desta
vida, quando apenas um ano se passara nessa amizade, a mais doce de todas as suavidades da
minha vida.
8 Quem
poderá, sozinho, enumerar os teus louvores (3), ainda que reduzidos aos que apenas ele
experimentou?
Que fizeste então, ó meu Deus? Como é impenetrável o abismo de tuas decisões! Atacado
pela febre, permaneceu por muito tempo inconsciente, banhado em suores mortais; como não
havia esperança de salvá-lo, foi batizado à revelia, sem que eu me importasse com isso,
persuadido como estava de que seu espírito reteria o que de mim recebera, de preferência
ao que lhe fora feito sobre o corpo inconsciente. Sucedeu, porém, exatamente o
contrário. Recobrou ânimo e, fora de perigo, logo que pudemos conversar (o que aconteceu
imediatamente, mal pôde falar, pois não me afastava de seu lado, de tal maneira
estávamos ligados um ao outro), tentei pôr em ridículo diante dele o batismo que
recebera sem a elaboração do pensamento e dos sentidos. Ele já fora informado de tê-lo
recebido. Eu estava certo de que ele se riria disso comigo. Mas, pelo contrário ,
olhou-me aborrecido como a um inimigo. Estupefato e perturbado, preferi não manifestar no
momentos a minha reação, até que se restabelecesse e recobrasse as forças, para depois
tratar do assunto a meu modo.
Ele porém, foi arrancado da minha loucura para ser conservado junto a ti, para minha
consolação: poucos dias mais tarde, estando eu ausente, a febre voltou, e ele morreu.
9 O
sofrimento encheu-me de trevas o coração, e eu não via senão a morte em toda parte.
A pátria tornou-se para mim tormento; a casa paterna, motivo incrível de infelicidade, e
tudo o que tivera em comum com ele, agora, sem ele, transformava-se em sofrimento
ilimitado. Meus olhos o procuravam por toda parte sem encontrá-lo; eu odiava o mundo
inteiro, me aborrecia porque o amigo não mais existia, e ninguém podia dizer-me:
"Ai vem ele", como quando em vida se ausentava por algum tempo. Tornei-me um
grande problema para mim mesmo e perguntava à minha alma por que estava tão triste e
angustiado, mas não tinha resposta. Se eu lhe dizia: "Confia em Deus!", ela
não me obedecia, e com razão, pois a pessoa queridíssima que havia perdido era melhor e
mais real que o fantasma (4) no qual eu pedia que ela aparecesse. Somente as lágrimas me
eram doces e substituíam o amigo no conforto do meu espírito.
5. PRANTO CONSOLADOR
10 Agora,
Senhor, tudo já passou, e o tempo aliviou a ferida. Aproximando de tua boca o ouvido do
meu coração, poderei ouvir de ti, que és a verdade, por qual razão o pranto é
doce aos infelizes. Embora presente em toda parte, repelis para longe de ti a nossa
miséria? Permaneces em ti mesmo, enquanto nos revolvemos nas provações? No entanto, se
não chorássemos diante de teus ouvidos nada restaria de nossa esperança. Como é que
acontece colher da amargura da vida os doces frutos do gemido, do pranto, dos suspiros e
dos lamentos? A doçura nasce talvez da esperança de que nos escutes? Tal acontece
justamente nas orações, animadas que são do desejo de chegarem a ti; mas, também no
sofrimento por uma perda, num luto como aquele que me oprimia então!...Não esperava, é
claro, que meu amigo ressuscitasse, nem era isso que minhas lágrimas pedia,: eu apenas
sofria e chorava. Era um infeliz, e tinha perdido minha alegria. Talvez o pranto - amarga
realidade - dê alívio na medida em que nos aborrecemos dos prazeres de que antes
gozávamos?
6. DESGOSTO DA VIDA E
MEDO DA MORTE
11 Mas por
que falar de tudo isso? Não é este o momento para indagações, mas de confessar-me a
ti. Eu era infeliz, como infeliz é todo espírito subjugado pelo amor às coisas mortais,
cuja perda o dilacera, e então deixa perceber a extensão da infelicidade que já o
oprimia antes de perdê-las. Assim me encontrava eu nessa ocasião, e chorava lágrimas
amargas e me consolava na amargura. Desse modo era infeliz, e essa vida infeliz era agora
para mim mais cara que o amigo perdido. Sim, eu teria desejado mudar de vida, mas não
aceitaria perdê-la para reaver o amigo. Não sei se teria feito como Orestes e Pílades
que, segundo a tradição, se não é invenção, aceitaram morrer ao mesmo tempo, pois,
para eles, não viver juntos era pior que a morte (1). Surgiu em mim um sentimento
indefinido, decididamente oposto a isso. Tratava-se de um profundo desgosto pela vida,
aliviado ao grande medo de morrer. Quanto mais eu o amava, creio eu, tanto mais odiava e
temia a morte - feroz adversária - que o tinha levado e estava pronto a devorar todos os
homens, como tinha feito com ele. Tanto quanto me lembro, tal era meu estado de espírito.
Eis o
meu coração, ó Deus, ei-lo por dentro. Contempla-o através de minhas recordações, ó
esperança minha (2), tu que me purificas de tais sentimentos, dirigindo para ti o meu
olhar e libertando-me os pés das armadilhas (3).
Parecia-me estranho que a vida continuasse para os outros mortais, já que estava morta a
pessoa que eu tinha amado como se ela não devesse morrer nunca. E mais ainda me espantava
estar vivo, achando-se morto aquele de quem eu era um outro eu. Disse muito bem quem
definiu o amigo como metade da própria alma (4). Eu tinha de fato a sensação de que
nossas duas almas fossem uma em dois corpos (5), e por isso eu detestava a vida, pois não
queria viver partido ao meio, e temia a morte, talvez por não querer que morresse
inteiramente aquele que eu amara (6).
7. NECESSIDADE DE MUDAR
DE AMBIENTE: AGOSTINHO DEIXA TAGASTE
12 Que
loucura não saber amar os homens como eles são! Tolo de quem não sabe suportar a
condições humana. Assim eram meus sentimentos de então, e por isso me inquietava,
gemia, chorava e me agitava, sem encontrar paz, sem saber o que fazer. Trazia a alma de
despedaçada, a escorrer sangue, qual fardo importuno do qual não sabia
descartar-me. Não encontrava paz nos bosques amenos, nem nos jogos e cânticos, nem nos
jardins perfumados, nem nos banquetes faustosos, nem nos prazeres do amor e tam pouco nos
livros e na poesia. Tudo era insuportável, até a luz do dia. Tudo o que não era ele,
era triste e odioso, exceto os gemidos e as lágrimas, pois somente nisso eu encontrava um
pouco de paz. Quando me privavam desse alívio, minha alma era oprimida ao peso de grande
angústia. Senhor, eu sabia que a ti deveria erguê-la (1), para que ficasse curada, mas
não o queria nem podia, tanto mais que, ao pensar em ti, não me aparecias como algo real
e consistente (2). Não eras tu. O meu deus era um fantasma irreal, era o meu erro. Se aí
tentava pousar a alma para descansar, deslizava pelo vácuo e caía sobre mim, continuando
eu a ser um foco de infelicidade para mim mesmo, onde não podia permanecer e de onde não
podia fugir. Para onde o coração me fugiria de si mesmo? Para onde fugiria de mim mesmo?
Para onde eu não me seguiria (3)? No entanto, fugi da pátria: os olhos procurariam menos
o amigo nos lugares em que não costumavam vê-lo, e, assim, de Tagaste vim para Cartago.
8. A VIDA RECOMEÇA
13 O tempo
não pára nem passa em vão pelos nossos sentimentos, mas atua sobre o nosso espírito de
modo surpreendente. Os dias se sucediam, e, como o passar do tempo, novas esperanças e
outras lembranças se apresentavam. Aos poucos, ressuscitava em mim o interesse pelos
antigos prazeres, que iam tomando o lugar da minha dor. Mas em seguida vinham, se não
propriamente novas dores. Mas em seguida vinham, se não propriamente novas dores, pelo
menos motivos para novas dores. Aliás, como poderia tão facilmente ter atingido o mais
íntimo do meu ser aquele sofrimento, senão por haver eu derramado a alma na areia (1),
amando uma criatura mortal, como se imortal fosse?
O que mais me aliviava e reconfortava era o consolo dos amigos que, em vez de amar a ti,
comigo amavam aquilo que eu amava: a imensa fábula, a grande impostura, cujo contato
enganador nos corrompia a mente curiosa de novidades (2). Mas essa mentira não morria em
mim, ainda que morresse em um amigo meu.
Havia outras atrações que me prendiam o espírito: as conversas e risadas em comum, a
troca de afetuosas gentilezas, a leitura em comum de livros agradáveis, o desempenho de
tarefas em conjunto, ora insignificantes ora impotentes, contradições passageiras, sem
rancor, como acontece a cada um até consigo mesmo, e com tais contradições, assim mesmo
bastante raras, tornar mais agradável a habitual concordância de pontos de vista, o
ensino recíproco de novidades, o sentir intensamente a nostalgia dos ausentes e o alegre
acolhimento no retorno. Estes e outros sinais semelhantes, que brotavam de corações que
amam e se sente amados, e que se manifestam no procedimento, nas palavras, no olhar e em
mil gestos de agradecimento, como centelhas que inflamam muitos corações e deles fazem
um só.
9. FELIZ QUEM AMA A DEUS
14 Eis o que
amamos nos amigos, o que amamos de tal modo que sentimos a consciência culpada quando
não pagamos amor com amor, sem nada esperar do outros senão sinais de afeto. Daí o luto
quando morre um amigo, daí as trevas da dor, a doçura que se transforma em amargura, o
coração inundado de pranto e a morte dos vivos pela vida perdida dos que morrem.
Feliz aquele que te ama e que, por teu amor, ama o amigo e o inimigo! Somente não
perde nenhum ente querido aquele para quem todos são queridos, aquele que nunca perdemos.
E quem é ele senão o nosso Deus, o Deus que criou o céu e a terra e que lhes confere
plenitude, pois foi plenificando-os que os fez? Somente quem te abandona pode perder-te.
Mas onde irá ao abandonar-te? Para onde fugirá, senão para longe de tua bondade e para
perto da tua cólera? Onde poderia ele, no seu castigo, não encontrar a tua lei? E a tua
lei é a verdade (1); e a verdade és tu (2).
10. DESTINO EFÊMERO DAS
CRIATURAS
15 Deus
das virtudes, volta-nos para ti, mostra-nos a tua face e seremos salvos (1). Para
qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda
que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de
belo, se não proviessem de ti. Nascem e morre: nascendo, começam a existir e a crescer
para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece,
mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem começam a existir, quanto mais
rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser. Tal é a condição que
lhes impuseste, por serem partes de coisas que não existiam simultaneamente. São coisas
que, desaparecendo e sucedendo-se umas às outras, compõem o universo. Também assim se
realizava a fala, através de sinais sonoros. E o discurso não seria completo, se cada
palavra, depois de pronunciada, não morresse para deixar lugar a outra.
Que minha alma te louve por tudo isso, ó meu Deus, criador de todas as coisas, mas a elas
não se deixe apegar por amor aos sentidos. Elas caminham para o seu destino, para
deixarem de existir e dilaceram a alma com paixões pestilentas, porque o desejo da alma
é existir e repousar no objeto que ama. Mas ele não encontrava lugar de repouso nas
coisas, porque não são estáveis: fogem. E quem poderia segui-las com a sensibilidade ou
alcançá-las, mesmo quando presentes? Os sentidos são lentos, precisamente por serem
carnais; tal é a condição deles. Servem a outros fins, para os quais foram feitos, mas
não podem impedir que as coisas corram desde o seu devido princípio ao seu devido
destino. Porque, a tua palavra, ao criá-la, disse: "Daqui até ali".
11. SÓ DEUS É ESTÁVEL
16 Não sejas
vã, ó minha alma. Não ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto de tuas vaidades.
Ouve também: é o próprio Verbo que clama para voltares. O lugar do repouso
imperturbável está onde não se renuncia ao amor, se este não recua. Eis que estas
coisas passam para deixar lugar a outras, e de todas essas partes se forma o universo das
realidades inferiores. "Porventura eu me afasto de um lugar para outro?", diz o
Verbo de Deus: "Fixa nele a tua morada, confia-lhe tudo que dele recebes, ó minha
alma, já cansada de tantos enganos. Entrega à verdade tudo o que da verdade tens
recebido, e nada perderás; reflorirá tudo o que em ti estiver apodrecido, todas as tuas
doenças serão curadas, as tuas fraquezas serão reparadas, renovadas estarão
estreitamente ligadas a ti, e não te arrastarão para o abismo, mas subsistirão contigo
junto a Deus, que é sempre estável e presente.
17 Por que te
deixas perverte e segues a tua carne? Que ela se converta e te siga! O que ela te faz
sentir são apenas partes de um todo que ignoras do teu corpo fossem capazes de
compreender o todo e não tivessem sido, para teu castigo, rigorosamente limitados a uma
parte do todo, desejarias que passasse tudo quanto existe no presente para melhor
saboreares o conjunto. Ora igualmente pelos sentidos é que ouves tudo o que se diz, e,
naturalmente, não desejas que parem as sílabas, pelo contrário, que passem rapidamente
e outras se sucedam, e assim possas compreender o pensamento. O mesmo acontece com as
partes que, formando um todo, não são coexistentes: percebidas em conjunto, dão mais
prazer do que cada uma separadamente.
Todavia, melhor ainda é aquele que criou todas as coisas, o nosso Deus, que não passa,
pois nada se sucede a ele.
12. EXORTAÇÃO À
PROCURA DA FELICIDADE EM DEUS
18 Se te
agradam os corpos, louva a Deus por eles e dirige o teu amor a quem os criou, para não
lhe desagrades ao encontrar prazer em tais criaturas. Se te agradam as almas, ama a elas
em Deus, pois são também mutáveis e somente nele tornam-se estáveis; de outro
modo, passariam e pereceriam. Portanto é em Deus que deves amá-las; leva-as contigo até
ele, dizendo-lhes: "Amemos, amemos a Deus!" Foi ele o criador dessas realidades,
e delas não está longe, pois não as abandonou depois de criá-las. Dele elas vêm e
nele existem. Ele está onde se saboreia a verdade. Ele esta no íntimo do nosso
coração; mas o coração se afastou dele.
Voltai
aos nossos corações, pecadores (1), e ligai-vos àquele que vos criou. Firmai-vos
nele e sereis estáveis. Repousai nele e tereis a paz. Por que ir à procura de
sofrimento? Aonde quereis ir? O bem que amais procede dele, mas só é bom e suave quando
para ele dirigido. Torna-se justamente amargo, porque, se abandonamos a Deus, torna-se
injusto amar aquilo que dele deriva. Por que percorrer ainda esses caminhos ásperos e
difíceis? A paz não está onde a procurais. Procurais a vida na região da morte.
Como poderá haver a vida onde nem sequer existe vida?
19 Desceu
até a nós a nossa vida, a vida verdadeira; tomou sobre si a nossa morte para matá-la
com a superabundância de sua própria vida. E com a voz de trovão chamou para que
voltássemos a ele, ao lugar inacessível de onde veio até nós, entrando primeiro no
seio da Virgem para unir-se à natureza humana, à carne mortal, para torná-la imortal; e
de lá, como o esposo que sai da câmara nupcial, exulta, como um herói, para
percorrer o caminho (2). Não se deteve, mas correu, clamando com palavras, como
obras, com a próxima morte, com a vida, com a descida aos infernos, com a ascenção,
para que retornássemos a ele: para isso havia descido, e para isso tornou a subir e
desapareceu da nossa vista para que entremos no coração e aí o encontremos. Partiu, de
fato, mas ei-lo aqui. Não quis estar conosco muito tempo, mas não nos abandonou. Partiu
para o lugar de onde nunca se retirou, porque o mundo foi feito por ele, e ele estava
neste mundo (3), e veio a este mundo para salvar os pecadores (4). É a ele que
se confessa a minha alma; é ele quem lhe dá a cura , porque foi contra ele que ela pecou
(5).
Ó
homens, até quando sereis duros de coração (6)? Será possível que, depois que a
vida desceu sobre a terra, não queirais subir e viver? Mas, para onde subiu, se já
estais no alto, abrindo a boca contra o céu (7)? Descei, a fim de subirdes para Deus,
pois caístes elevando-vos contra ele!
Dize estas coisas a eles, ó minha alma, a fim de que chorem neste vale de lágrimas (8),
leva-os assim contigo até Deus: pois é o Espírito de Deus que te inspira essas
palavras, se as pronuncias ardendo no fogo da caridade.
13. DO BELO E DO
HARMONIOSO
20 Ignorando
tudo isso, eu amava as belezas terrenas e caminhava para o abismo, dizendo a meus amigos:
"Amamos por acaso algo que não seja o belo? E o que é o belo, o que é a beleza? O
que é que nos atrai e nos liga aos objetos que amamos? Se não tivéssemos harmonia e
encanto, não seríamos atraídos". Eu via e observava, então, que, num corpo, uma
coisa é a beleza no seu todo e outra é a sua sintonização com os outros corpos, e isso
é a harmonia, tal como a parte em relação ao todo, o calçado em relação ao pé, e
coisas semelhantes (1).
Essa consideração brotou-me no espírito, do fundo do coração, e por isso escrevi
alguns livros, não sei se dois ou três, sobre a beleza e a harmonia. Sabes, ó Deus,
porque os esqueci e não mais os possuo. Eles me desapareceram, não sei como.
14. HOMENAGEM A HIÉRIO
21 Que
motivo, Senhor Deus meu, me levou a dedicar esses livros ao orador romano Hiério? Não o
conhecia pessoalmente, mas o estimava pela grande fama de seu saber e porque me agradaram
palavras suas que eu ouvira. Estimava-o sobretudo por agradar a outros, que o cumulavam de
louvores e admiravam de que um sírio de nascimento, célebre na oratória grega, se
tornasse também orador notável da língua latina e profundo conhecedor de questões
relativas à filosofia. Portanto, pode-se amar e louvar a um homem, ainda que distante.
Mas, esse amor, que sai da boca de quem louva, entrará no coração de quem ouve? Claro
que não. Mas no amor de um se acende o amor do outro. A gente ama a pessoa elogiada,
quando se está persuadido de que tais louvores não nascem da adulação, mas do amor de
quem elogia.
22 Desse modo
eu amava então aos homens de acordo com a opinião dos homens, e não de acordo contigo,
ó meu Deus. Pelo teu juízo ninguém é enganado. Por que então eu não louvava a
Hiério como se elogia um cocheiro famoso ou um célebre caçador, ídolo das multidões,
e sim de maneira diferente, isto é, com seriedade e conforme eu próprio desejaria ser
louvado? Certamente eu não desejava ser louvado e amado como os atores, embora também os
louvasse e os amasse; minha preferência era ser um personagem obscuro mais do que ser
famoso desse modo, ser odiado mais do que ser objeto de um amor de tal gênero. Como se
distribuem na mesma alma a força tão diferente de amores tão variados? Como se pode
amar nos outros aquilo que se detesta e não se quer para si, sendo embora igualmente
homens? A gente ama um bom cavalo, embora não querendo ser igual a ele, ainda que fosse
possível. Mas não se pode dizer o mesmo de um ator, que participa de nossa natureza.
Será então que eu amo no homem aquilo que detesto ser, mesmo sendo homem também eu? O
homem é realmente um grande mistério; mas tu, Senhor, conheces até o número de seus
cabelos (1), sem que se perca um só! E, no entanto, os cabelos são muito mais facilmente
enumeráveis do que as afeições e sentimentos do coração.
23 Aquele
orador pertencia à espécie de homens que eu amava tanto, a ponto de desejar ser como
ele. Eu andava cheio de orgulho e vagueava de um lado para outro ao sabor do vento (2),
enquanto ocultamente me dirigias. Como podia saber e como posso confessar-te com plena
certeza que eu amava aquele homem mais pelo amor de quem o louvava do que pelos motivos
pelos quais ele era louvado: Se, em vez de o homem, essas mesmas pessoas o tivessem
censurado, se tivessem dito dele as mesmas coisas, porém com ar de crítica e desprezo,
não me teria inflamado de entusiasmo por ele. No entanto, os fatos não teriam sido
diferente, nem ele teria sido outra pessoa: somente teria sido outro o sentimento dos
narradores.
Eis a condição da alma fraca que ainda não aderiu solidamente à verdade. Vai e volta,
avança e retrocede, conforme sopra o vento das palavras de quem exprime uma opinião.
Ofusca-se a luz, e não mais enxerga a verdade. E ei-la que está diante de nós.
Para mim, teria sido muito
importante que aquele personagem tivesse conhecido o meu estilo e os meus estudos. Uma
aprovação sua teria estimulado meu entusiasmo, ao passo que sua aprovação ter-me-ia
apunhalado o coração vazio e carente de tua firmeza. No entanto, contemplava com íntima
satisfação a obra a ele dedicada sobre a beleza e a harmonia, e a admirava, sem que
ninguém mais comigo a louvasse.
15. COMPLACENTES
ELUCUBRAÇÕES DE AGOSTINHO; DEUS RESISTE AOS SOBERBOS
24 Eu,
porém, não percebia ainda o fulcro de tão grandes coisas na tua sabedoria, ó Deus
onipotente, o único que opera maravilhas (1)! Meu espírito percorria as várias formas
corpóreas e definia como belo o que é bem feito em si, e como conveniente, o que é
harmonioso em relação aos demais objetos; e justifica essa distinção por meio de
exemplos concretos. Voltei-me então para a natureza da alma, mas a falsa opinião que
tinha sobre as coisas espirituais impedia-me de ver a verdade (2). A própria força da
verdade saltava-me aos olhos, e eu desviava da realidade incorpórea a mente ansiosa para
fixá-la nas linhas, nas cores, nas grandes massas. Não conseguindo percebê-las na alma,
julgava impossível ver o meu espírito. Amando a paz na virtude e detestando as
discórdias no vício, notava unidade na primeira e uma certa divisão no vício;
pareci-me que nessa unidade residia a alma racional, essência da verdade e do sumo bem,
enquanto nessa divisão percebia o princípio da vida irracional e não se que substância
e que essência do sumo mal, que para mim - miserável! - era não somente substância,
mas vida, embora estão não procedesse de ti, meu Deus, de quem provém todas as coisas
(3). À primeira eu dava o nome de mônada, enquanto inteligência assexuada; e díade
à segunda, enquanto ira no delito e prazer do vício. Eu não sabia o que dizia. Não
sabia; de tato, não havia aprendido que o mal não é substância, nem é a inteligência
bem supremo e imutável.
25 Assim como
surge o crime, quando o impulso espiritual que move nossas ações é corrupto e se
manifesta com arrogância e tumulto, ou se pratica o vício, quando não se refreiam as
paixões que alimentam os prazeres físicos, assim também, se a alma racional é
corrompida, os erros e opiniões falsas contaminam a existência. E viciada estava então
a minha alma, ignorando que, não sendo ela mesma a essência da verdade, outra luz
deveria iluminá-la se quisesse participar da verdade. És tu, Senhor, a minha
lâmpada; iluminarás, ó Deus, as minhas trevas (4), pois de tua plenitude todos
nós recebemos (5). Tu és a luz verdadeira que ilumina todo homem quem vem a
este mundo (6), pois em ti não há mudança nem sombra momentânea (7).
26
Esforçava-me, porém, por aproximar-me de ti, mas tu me repelias, para que eu provasse a
morte, pois resistes aos soberbos. Haverá soberba maior que afirmar inaudita loucura ser
eu igual a ti por natureza? Ora, sendo eu mutável - o que para mim era evidente, pois
desejava ser sábio para de pior passar a melhor - preferia imaginar-te mutável também
tu, a imaginar-me diferente do que és.
E assim me repelias e resistias à minha vaidade e obstinação. Fixava a imaginação em
formas corpóreas. Era carne, e acusava a carne (8). Era um sopro errante, e não me
decidia a voltar a ti, e andava vagando por quimeras que em ti não existem nem em mim,
nem nos corpos materiais. Não eram criações de tua verdade, e sim fruto das minhas
ficções que as imaginavam corpóreas. Eu dizia a teus humildes fiéis, meus concidadãos
de cujo meio encontrava-me inconscientemente exilado, dizia-lhes com tola petulância:
"Por que deveria a alma, criada por Deus, enganar-se?" E não tolerava que me
retrucassem: "Por que deveria Deus enganar-se?" Preferiria sustentar que a tua
imutável natureza era fatalmente condenado ao erro, a confessar que a minha, mutável, se
tivesse desencaminhado por livre vontade e tivesse ficado sujeita ao erro por castigo.
27 Tinha
cerca de vinte e seis anos ou vinte e sente anos quando escrevi aqueles livros, revolvendo
no pensamento imagens materiais que me zumbiam aos ouvidos do coração. Ó doce verdade,
era tua doce melodia interior que eu escutava ao meditar sobre o belo e o conveniente.
Desejava ouvir-te e ficar contigo tomado de alegria ouvindo à voz do esposo (9), mas não
o podia, porque as vozes do erro arrastavam-me para fora, e o peso da soberba me
precipitava no abismo. Não me concedias ao ouvido o gozo e a alegria, nem podiam meus
ossos rejubilar-se, pois não tinha ainda sido humilhados (1).
16. AS DEZ CATEGORIAS DE
ARISTÓTELES
28 De que me
servia ter lido e compreendido sozinho, aos vinte anos, a obra de Aristóteles, intitulada
As dez categorias, que me viera às mãos? Quando meu mestre de retórica, em
Cartago, e outras pessoas consideradas eruditas citavam esse nome com ênfase, eu ficava
atônito e ansioso, como diante de uma realidade grandiosa e divina.
Conversando sobre o assunto com alguns que confessavam tê-las com dificuldade
compreendido, mediante explicações de mestres cultíssimos, não só por palavras, mas
através de desenhos traçados na areia, nada mais me puderam ensinar, que eu já não
tivesse aprendido na simples leitura particular. Parecia-me que o livro era
suficientemente claro ao falar das substâncias, tais como a forma exterior do homem, sua
estatura: quanto mede, o parentesco: de quem é irmão, ou então o lugar onde vive,
quando nasceu, se está em pé ou sentado, calçados os pés ou armado, agente ou paciente
de uma ação, enfim, todas as inúmeras qualidade compreendidas nas nove categorias, das
quais dei algum exemplo (1), e na própria categoria de substância.
29 Para que
me servia tudo isso? Até me prejudicava, pois, julgando que tudo estava incluído nos dez
atributos, esforçava-me por conceber-te da mesma maneira, ó meu Deus, tu que és
admiravelmente simples e imutável. Acreditava que tua grandeza e tua beleza
substituíssem em ti como os acidentes nas substâncias, por exemplo, nos corpos. Mas tu
és a própria grandeza e a própria beleza; os corpos, pelo contrário, não são grande
e belos pelo simples fato de serem corpos, pois, ainda que fossem menos grandes e menos
belos, não deixariam de ser corpos. Era falso, e não verdadeiro, o que eu pensava de ti,
invenção de minha miséria, em lugar da verdadeira realidade de tua beatitude. Tinhas
ordenado que a terra produzisse para mim espinhos e cardos, e que eu comesse o pão
com o suor do meu rosto (2), e era o que me acontecia.
30 Mas sendo
escravo das piores paixões, de que me servia ter lido e compreendido por mim mesmo todos
os livros que pude ler sobre as artes chamadas liberais? Comprazia-me neles, sem perceber
de onde provinha tudo o que encerravam de certo e verdadeiro. Voltava as costas à luz, e
a face aos objetos por ela iluminados; e, assim, o meu rosto, com que os via iluminados,
não era ele próprio iluminado.
Tu sabe, Senhor meu Deus, quantas noções de arte e dialética, de geometria, música e
aritmética, eu aprendi sem grande dificuldade e sem auxílio humano, já que a agilidade
da inteligência e a perspicácia crítica são dons teus. No entanto, eu não os oferecia
a ti. E assim, longe de me serem úteis, causavam-me dano ainda maior. De fato, insisti em
apoderar-me de boa parte da minha herança (3), e não quis confiar-te minha força (4),
mas afastei-me de ti para uma região longínqua a fim de tudo dissipar em paixões
luxuriosas (5).
Mas, de que me serviam tão preciosos dons, se deles não fazia bom uso? Eu não percebia
que essas doutrinas eram de difícil compreensão até a homens de gênio e de estudo: só
o percebia quando as tentava explicar. E o melhor deles era quem menos demorava em
acompanhar-me as explicações.
31 Mas, de
que me servia isso, Senhor Deus da verdade, se eu acreditava que tu eras um corpo luminoso
e imenso, e eu uma parcela desse corpo? Requintada perversidade! Mas eu era assim, e
agora, meu Deus, não me envergonho de confessar as misericórdias por ti operadas em mim
e de invocar-te, como então não me envergonhei de pronunciar blasfêmias diante dos
homens ladrando contra ti.
Que me adiantava então possuir talento tão ágil para entender as ciências humanas,
e deslindar, sem ajuda de ensino humano, tantos livros intricados, se depois errava
de modo tão monstruoso e sacrílego na doutrina religiosa? E que prejuízo sofriam teus
humildes filhos por terem menos inteligência, se de ti não se afastavam, se no ninho de
tua Igreja lhes cresciam as penas, nutrindo as asas da caridade com o alimento de uma fé
sadia?
Senhor nosso Deus, faze que sejamos cheios de esperança à sombra de tuas asas (6), e
dá-nos proteção e apoio. Tu nos sustentarás desde pequenos e até o tempo dos cabelos
brancos (7), pois a nossa firmeza é firmeza quando se apóia em ti, mas é fraqueza
quando se apóia em nós.
Vive sempre junto a ti o nosso bem, e nos tornamos perversos quando nos afastamos de ti.
Retornemos a ti, Senhor, para que não sejamos destruídos. De fato, é em ti que o nosso
bem vive e não desfalace, pois tu mesmo és o bem; e não receamos mais encontrar o lugar
de onde caímos, pois em nossa ausência não se destrói a nossa casa, que é a tua
eternidade.
Por Santo
Agostinho
DA ÁFRICA À
ITÁLIA
1. LOUVOR AO DEUS
DAS MISERICÓRDIAS
1
Recebe o sacrifício destas minhas confissões através de minha língua (1), que criaste
e encorajaste, para que cante o teu nome (2); cura-me todos os ossos (3) e faze que eles
digam: "Senhor, quem é semelhante a ti?" (4).
Quem a ti se confessa, nada de novo te informa de quanto lhe vai na alma, pois nem do
coração mais fechado pode subtrair-se ao teu olhar, nem a dureza dos homens pode afastar
a tua mão: tu a tornas branda de acordo com o teu querer, seja perdoando, seja punindo.
Ninguém pode fugir ao teu calor (5).
Que minha alma te louve (6) para te amar; que confesse as tuas misericórdias para te
louvar. Toda a criação entoa sem cessar os teus louvores: os seres espirituais voltados
para ti, e os demais seres animados ou inanimados, através da boca de quem os contempla.
Desse modo, nossa alma, apoiando-se nas criaturas e recuperando-se d a própria fraqueza,
junta-se a ti, admirável criador delas, pois em ti encontra renovação e força
verdadeira.
2. PRESENÇA DE
DEUS CONSOLADOR
2
Afastem-se, fujam de ti os revoltados e os maus (1). Tu os vês e lhes distingues as
sombras: o universo com eles é belo, embora sejam feios e disformes (2)! Mas, que
mal puderam fazer-te? Como puderam desonrar-te o reino, puro e santo, desde o mais alto
dos céus às últimas extremidades da terra? Para onde fugiram, ao fugirem, de tua face?
Em que lugar não os podes encontrar? Fugiram para não verem teu olhar a observá-los,
ofuscados e para esbarrarem contigo - pois não abandonas as tuas criaturas (3); - sim,
para esbarrarem contigo e serem com justiça punidos. Quiseram fugir de tua bondade, e
esbarraram na tua justiça, e incidiram na tua severidade. Evidentemente não sabem que
estás em toda parte, que nenhum espaço te encerra, e que somente tu sempre estás
presente, mesmo àqueles que se afastam de ti. Que voltam atrás e te procurem, porque
não abandonas as tuas criaturas, como estas abandonam o Criador. Voltem a procurar-te,
eis que aí estás, em seus corações, no coração de cada um que te reconhece e se
lança a teus pés, e chora no teu seio, após longa e difícil jornada. Tu estás pronto
a enxugar as suas lágrimas; choram ainda mais e no pranto encontram a alegria, porque tu,
Senhor, não és um homem qualquer de carne e osso, mas és tu o Senhor, que os fizeste,
que agora os encoraja e consola. Onde estava eu quando te procurava? Estavas diante de
mim, e eu até de mim mesmo me afastava, e se não encontrava nem a mim mesmo, menos podia
encontrar-te a ti.
3. ENCONTRO COM
FAUSTO, BISPO MANIQUEU
3
Contarei, na presença do meu Deus, os acontecimentos daquele meu vigésimo nono ano de
idade.
Tinha vindo a Cartago um bispo maniqueu chamado Fausto, grande armadilha do diabo (1),
cuja melíflua eloqüência envolvera já muitas pessoas. Embora grande admirador dessa
eloqüência, eu sabia distingui-la da verdade das coisas que era ávido de aprender; eu
não reparava tanto no prato do discurso, mas que comida me servia esse famoso Fausto,
tão citado pelos seus. Precedia-o a fama de homens competentíssimos nas ciências mais
nobres e, em particular, de erudito nas letras. Eu que recordava - por tê-las lido e
estudado - as obras de muitos filósofos, comparava algumas delas às prolixas fantasias
dos maniqueus, e concluía por achar mais verossímeis as teorias daqueles que possuíram luz
suficiente para poder perscrutar a ordem no mundo, embora não tenham de nenhuma forma
encontrado o seu Senhor (2); pois tu, Senhor, és grande e olhas para o pobre, e de
longe fitas o soberbo (3), tu te aproximas do coração contrito, e não te revelas
aos soberbos, ainda que a curiosidade e perícia deles consigam contar as estrelas do céu
e os grãos da areia, medir os espaços celestes e explorar o curso dos astros.
4
Investigando esses mistérios com a inteligência e a perspicácia de ti recebidas,
fizeram muitas descobertas: predisseram com antecipação de muitos anos os eclipses do
sol e da lua, precisando o dia, a hora e o modo de cada evento, sem erro de cálculo. E
tudo sucedeu conforme tinham previsto. De suas descobertas resultaram as leis até hoje
consultadas e usadas para predizer o ano, o mês, o dia, a hora dos eclipses totais ou
parciais do sol e da lua; e o fenômeno se realiza segundo as previsões. O povo se
admira, os ignorantes ficam estupefatos, os sábios cientistas exultam e se orgulham, mas,
afastados e eclipsados de tua luz por sua vã soberba, prevêem com tanto antecipação o
eclipse do sol e não enxergam o seu próprio, já presente, porque não procuram indagar,
como espírito religioso, aquele de quem recebem a inteligência que usam em tais
pesquisas. E ainda que descubram terem sido feitos por ti, não são capazes de se
entregarem a ti, para que conserves o que fizeste. Como se fossem seus próprios criadores
(4), não se oferecem a ti; não sacrificam as próprias ambições, como se abatem os
pássaros que voam; não sufocam as próprias curiosidades que, como peixes do mar,
perscrutam os segredos do abismo; nem extirpam as luxúrias como se caçam os animais do
campo (5), a fim de que tu, meu Deus, fogo devorador, possas recriar suas pessoas para uma
vida nova, destruindo nelas os desejos mortais.
5
Não conhecem o caminho, que é a tua Palavra, por meio da qual criaste, não só o que
eles medem, mas também a eles mesmos que medem, até os sentido pelos quais vêem o que
calculam, e a inteligência com a qual calculam, ilimitada (6)! O próprio
Unigênito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação (7), foi
considerado um de nós e pagou tributo a César (8). Não conhecem o caminho pelo qual,
deixando o orgulho, iriam até o Salvador, e, por ele, subiriam novamente a ele; ignoram
este caminho e se consideram tão elevados e cintilantes quanto os astros; e tombaram por
terra, com o coração coberto pelas trevas da ignorância. Dizem muitas verdades sobre as
criaturas, e não buscam devotamente a verdade, artífice da criação; assim, não a
encontram, ou, se a encontram, embora conhecendo a Deus, não lhe prestam honra como a
Deus, nem lhe rendem graças. Perdem-se em vãs reflexões. Proclamam-se sábios,
atribuindo a si dons que são teus; e se emprenham, cegos e perversos, em atribuir-te o
que propriamente pertence a eles: transferem suas falsidades a ti, que és a Verdade, e
assim trocam a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de
aves, quadrúpedes e répteis; trocam a verdade de Deus pela mentira, e adoram e servem a
criaturas em lugar do Criador (9).
6
Eu, no entanto, conservava dessas filosofias muitas verdades sobre as criaturas, e tinha
prova racional pelos cálculos, pela sucessão das estações, pelo testemunho visível
dos astros, e a confrontava com a doutrina de Manés, que escrevera abundantemente muitos
disparates sobre tais problemas, mas não me ocorria explicação racional, nem dos
solstícios e dos equinócios, nem dos eclipses dos astros, nem de coisa alguma que
aprendera nos livros dos sábios profanos. Todavia, era obrigado a acreditar, embora a
doutrina deles não concordasse com os resultados de meus cálculos e de minhas
experiências, deles divergindo totalmente.
4. CIÊNCIA HUMANA
E FÉ DIVINA
7
Senhor, Deus da verdade (1), será suficiente conhecer essas coisas para ti agradar?
Infeliz o homem que conhece tudo isso e não te conhece. Feliz aquele que te conhece,
ainda que ignore o resto. Aquele que te conhece a ti e também as outras coisas, não é
mais feliz por esse conhecimento, mas somente por conhecer a ti, e conhecendo-te, te
glorifica pelo que és, e te rende graças, e não se perde em vãs reflexões. De fato,
aquele que se reconhece possuidor de uma árvore e te é grato pelo uso que dela pode
fazer, ainda que não saiba qual a altura ou largura dela, é melhor do que aquele que a
mede, lhe conta os galhos, mas não a possui e não conhece nem ama o criador dela. Do
mesmo modo, a pessoa de fé possui todas as riquezas do mundo (2) e, mesmo que nada tenha,
é como quem tudo possui (3), pois está unida a ti, Senhor de todas as coisas, pouco
importando se nada sabe sobre o percurso da Ursa Maior! Seria loucura duvidar de que está
em melhor situação do que aquele que sabe medir os céus, contas as estrelas e pesar os
elementos, e no entanto despreza a ti, que tudo dispuseste com medida, quantidade e peso
(4).
5. MANÉS SE
APRESENTA COMO PESSOA DIVINA
8
Mas quem pedia a esse Manés que escrevesse sobre tais assuntos, de cujo conhecimento se
pode prescindir para se aprender a piedade? Disseste ao homem: "A piedade é
sabedoria" (1). Por isso, ele podia ignorar a piedade ainda que possuísse
profundamente todos aqueles conhecimentos. Mas já que teve a desfaçatez de ensinar as
coisas que não sabia, certamente não podia conhecer a piedade. É vaidade o fato de
exibir a ciência mundana que se possui, mas é piedade reconhecê-la como dádiva tua.
Manés falava tanto e tão desatinadamente sobre esses assuntos, que era facilmente
confundido pelos verdadeiramente instruídos na matéria, de onde se concluía claramente
qual a sua competência em outras questões mais recônditas. Não querendo ser
desconsiderado pelos homens, tentou provar que o Espírito Santo, consolo e riqueza de
teus fiéis, nele habitava pessoalmente e com a plenitude de sua autoridade. Portanto,
quando era apanhado em flagrante erro nas teorias ensinadas sobre o céu, as estrelas, os
movimentos do sol e da lua - assuntos estranhos à doutrina religiosa - tornava-se
evidente sua sacrílega temeridade: transmitia noções não só por ele ignoradas, como
também falsas, com tão insensato orgulho, que não hesitava em atribuí-las a si
próprio, como se fosse pessoa divina.
9
Quando ouço algum de meus irmãos cristãos que ignora tais questões e confunde uma
coisa com outra, suporto-lhe o erro com paciência, e não me parece nocivo que ignore a
posição e o comportamento das criaturas corpóreas, contanto que não tenhas
opiniões indignas a teu respeito, Senhor, criador de tudo. Todavia ser-lhe-á funesto
julgar que essas questões pertencem à essência doutrinal da religião, e ter a ousadia
de insistir em afirmações sobre assuntos que ignora. No entanto, tal fraqueza, nos
primeiros passos do caminho da fé, é amparada maternalmente pela caridade, até que o
homem atinja a plena maturidade e não mais se deixe levar ao sabor de qualquer doutrina
(2). Mas, aquele que teve a ousadia de fazer-se doutor, mestre, guia, chefe, e que faz
seus discípulos crerem que estão seguindo não a um homem qualquer, mas o teu próprio
Espírito Santo - quem não o julgaria, por tamanha loucura, digno de excreção e
desprezo, uma vez demonstrada sua falsidade? Eu, porém, não via ainda com clareza se era
ou não possível explicar, à luz de seus ensinamentos, as mudanças de duração dos
dias e das noites, ora mais longa ora mais breve, a própria alternância deles, e os
eclipses e fenômenos semelhantes, sobre os quais havia lido em outros livros. Que tal
explicação fosse possível, era ainda incerto para mim, porém, a autoridade dele se
antepunha à minha fé, devido à sua fama de santidade.
6. PERSONALIDADE
DE FAUSTO
10
Durante cerca de nove anos, em que me pensamento errante escutava a doutrina maniqueísta,
aguardava ansiosamente a chegada desse Fausto. Todos os outros maniqueus, com quem tivera
ocasionalmente contato, não sabiam responder às objeções que eu lhes apresentava, e me
prometiam que, à chegada dele, e num simples colóquio, seriam resolvidas, com extrema
facilidade, essas e outras questões ainda mais graves que eu viesse a propor. Assim,
quando ele chegou, travei conhecimento com um homem amável, de fala agradável, capaz de
expor de forma muito mais atraente o que os outros dizem. Mas que importavam à minha sede
os preciosos cálices de um elegantíssimo copeiro? Meus ouvidos já estavam saturados
porque feitos em linguagem mais burilada, ou mais verdadeiros por serem mais eloqüentes.
Nem me parecia ele mais sábio pelo fato de ter aspecto simpático e falar elegante. E
aquele que o haviam elogiado não eram bons conhecedores da realidade, pois o tinham na
conta de prudente e sábio por se agradarem de sua eloqüência.
Conheci também outro tipo de pessoas, para as quais até a verdade era suspeita, e que
não a aceitavam quando apresentada em linguagem rebuscada. Eu, porém, já tinha sido
ensinado por ti, meu Deus, de modo extraordinário e misterioso. Creio no que me
ensinaste, porque é verdade, e fora de ti ninguém é mestre da verdade, qualquer que
seja a maneira ou lugar em que esta apareça. Eu já havia aprendido de ti que uma coisa
não deve ser aceita como verdade apenas pelo fato de ser afirmada em belo estilo, e não
deve ser tida por falsa porque as palavras saem dos lábios de modo confuso; por outro
lado, não deve ser julgada verdadeira porque expressa sem cuidado, ou falsa porque
apresentada com elegância. A sabedoria e a ignorância são mais ou menos como os
alimentos úteis ou nocivos: podem ser apresentadas através de palavras polidas ou rudes,
como os bons e maus alimentos podem ser servidos em pratos finos ou grosseiros.
11 A
avidez com que durante tanto tempo esperei por aquele homem era satisfeita agora pelo
calor e animação de sua dialética, e por suas palavras tão bem escolhidas e que lhe
ocorriam com facilidade para revestir seu pensamento. Eu estava encantado, e, como muitos
outros, ou antes, mais do que muitos outros, eu o louvava e exaltava. todavia,
aborrecia-me o fato de não conseguir, entre a multidão de ouvintes, comunicar-lhe as
dificuldades que me angustiavam, compartilhando-as familiarmente com ele, e ouvindo e
respondendo a seus argumentos. Quando finalmente me foi possível, com alguns amigos,
fazer que ele me escutasse num momento oportuno, então lhe apresentei algumas
dificuldades que me perturbavam. Descobri logo que ele nada entendia das disciplinas
liberais, com exceção da gramática, da qual conhecia apenas o corriqueiro. Tinha lido
alguns discursos de Cícero, pouquíssimas obras de Sêneca, algumas obras de poetas, e
umas poucas, de seus correligionários, escritas em latim mais cuidado. E, como se
exercitava diariamente na oratória, havia adquirido facilidade de falar, tornada ainda
mais agradável e sedutora pelo emprego inteligente de seu talento e de certa graça
natural.
Serão exatas essas recordações, Senhor meu Deus, árbitro da minha consciência? Coloco
diante de ti meu coração e minha memória; tu, que desde então me guiavas pelos
caminhos secretos de tua providência, já me lançavam em rosto meus graves erros, a fim
de que eu os enxergasse e os detestasse.
7. O MANIQUEÍSMO
COMEÇA A DESILUDI-LO
12
Depois que me pareceu evidente ser aquele homem incompetente nas ciências em que o
considerara competentíssimo, comecei a desesperar de sua capacidade para explicar e
resolver os problemas que me angustiavam. Ele poderia perfeitamente ser ignorante em tais
questões e, no entanto, possuir a verdade da fé, desde que não fosse maniqueísta. Os
livros desta seita, na verdade, estão cheios de intermináveis fantasias a respeito do
céu, dos astros, do sol e da lua. Na verdade, eu já não esperava que ele pudesse
demonstrar, de modo satisfatório, o que eu mais desejava saber: se essas dificuldade eram
resolvidas claramente nos livros maniqueístas ou naqueles em que eu havia encontrado
cálculos que me satisfaziam, ou se pelo menos as duas soluções se equivaliam. Fosse
como fosse, e ele modestamente não teve a coragem de assumir a responsabilidade de uma
demonstração. Reconhecia a própria ignorância e não se envergonhou de confessá-la.
Não pertencia ao grupo de palradores que muitas vezes eu suportara e que tinham procurado
elucidar-me sem nada dizer. Este homem tinha um coração que, se não era dirigido a ti
(1) pelo menos era bastante prudente consigo mesmo. Não ignorando a própria ignorância,
não quis arriscar-se temerariamente numa discussão que não lhe permitiria saída nem
retirada fácil. Foi-me por isso mais simpático do que os outros. A modéstia de um
espírito sincero é mais bela que a ciência que eu buscava. E foi sempre o mesmo diante
de todas as questões mais difíceis e sutis.
13
Apagado assim meu entusiasmo pelas obras maniqueístas, e nada podendo esperar de outros
mestres, já que o de maior fama se revelara tão incompetente diante dos problemas que me
angustiavam, resolvi manter com ele relações baseadas apenas no grande interesse que
mantinha pela literatura, que eu, como professor de retórica, ensinava aos jovens de
Cartago. Lia com ele, ora os textos que ele desejava conhecer, ora os que eu considerava
mais adequados a uma inteligência com a sua. Quanto ao mais, o ardor que eu tivera em
progredir na seita que abraçara, arrefeceu completamente logo que conheci esse homem, mas
não a ponto de desligar-me radicalmente dos maniqueístas. Com efeito, não encontrando
solução melhor, decidira contentar-me temporariamente com ela, até encontrar algo mais
claro que merecesse ser abraçado. Nessas condições, aquele Fausto, que para muitos se
constituía em armadilha mortal, começava já, involuntária e inconscientemente, a
desfazer o laço no qual eu havia caído.
Eram tuas mãos, meu Deus, que, no segredo de tua providência, não abandonava minha
alma, enquanto no sangue do coração de minha mãe em pranto, te era oferecido, dia e
noite, um sacrifício por mim.
Agiste para comigo de modo maravilhoso. Assim o fizeste, meu Deus. Pois é o Senhor
quem conduz os passos do homem e lhe inspira o seu caminho (2). Como alcançar a
salvação senão por tuas mãos, que renovam a obra que criaste?
8. PARTIDA PARA
ROMA
14 Foi
portanto por tua ação em mim que eu me deixei convencer em ir para Roma, preferindo
ensinar aí o que ensinava em Cartago. Não hesitarei em confessar de onde me veio tal
inspiração, porque é nessas ocasiões que se deve reconhecer e proclamar a profundidade
dos teus desígnios e a tua misericórdia sempre pronta a nos ajudar. Não me decidi a ir
a Roma porque os amigos que a isto me solicitavam prometiam maior lucro e mais prestígio,
embora tais motivos também me atraíssem. A razão principal e quase única era o fato de
ter ouvido dizer que aí os jovens se dedicavam ao estudo mais tranqüilamente, refreados
por uma disciplina mais severa. Não invadiam desordenada e atrevidamente a sala de aula
de um mestre, do qual não eram alunos, nem eram aí admitidos sem sua licença. Em
Cartago, a liberdade dos estudantes é completamente desinibida; precipitam-se cinicamente
salas a dentro, em atitude furiosa, perturbando a ordem que o professor procura
estabelecer entre os alunos, para próprio benefício destes. Com insolência fazem
freqüentes provocações que seriam punidas por lei, se a tradição não os protegesse,
o que revela miséria ainda maior, por praticarem, como se fossem lícitas, ações que,
segundo tua lei, jamais o serão.
Julgam agir impunemente, ao passo que a própria cegueira de seu comportamento já
constitui um castigo. Sofrem assim dano muito maior do que o mal que cometem. Eu, como
estudante, jamais assumira semelhantes atitudes (1); como professor era obrigado a
suportá-las nos outros. Agradava-me por isso a idéia de transferir-me para um lugar
onde, conforme se dizia, não acontecia o mesmo. Mas tu, minha esperança, minha
herança na terra dos vivos (2), a fim de induzir-me a mudar de ambiente para o bem de
minha alma, fazias com que encontrasse em Cartago motivos para afastar-me e me oferecias,
em Roma, seduções através dos homens que amam esta vida de morte e que se entregam aqui
a atos de loucuras e lá me faziam promessas de vaidade. Para me corrigires os passos,
usavas misteriosamente da perversidade deles e minha. De fato, os que me perturbavam o
sossego eram cegos de furor degradante, e os que me convidavam a mudar de vida eram
ávidos de coisas terrenas. Quanto a mim, se eu detestava aqui uma realidade miserável,
apetecia em Roma uma falsa felicidade.
15 No
entanto, somente tu, meu Deus, conhecias os motivos que me faziam deixar Cartago e me
levavam a Roma, mas não os manifestavas à minha mãe nem a mim. Ela chorou amargamente a
minha partida e me seguiu até o mar. Quando me apertou estreitamente, tentando
persuadir-me a voltar ou a deixá-la vir comigo, enganei-a, fingindo que desejava
acompanhar um amigo que aguardava vento favorável para navegar. Menti à minha mãe
- e que mãe! Fugi dela. No entanto, apesar da sordidez execrável de que eu estava cheio,
tu me salvaste, porque me perdoaste misericordiosamente ainda dessa vez, pois me
livraste ileso das águas do mar para conduzir-me às águas da tua graça. Estas,
purificando-me, enxugariam os rios de lágrimas dos olhos de minha mãe, que por mim
regavam a terra quotidianamente diante de ti. Recusando voltar sem mim, eu a convenci com
esforço a passar a noite numa capela dedicada a são Cipriano, vizinha ao lugar onde se
achava nosso navio. Nessa mesma noite parti escondido, e ela ficou a chorar e a rezar. Que
te pedia ela, meu Deus, com tantas lágrimas, senão que impedisses a minha viagem? Mas
tu, em teus misteriosos desígnios, escutando o ponto vital de seus desejos, não
atendeste ao que ela te pedia, exatamente para realizares em mim a aspiração das suas
contínuas preces.
Soprou o vento, encheram-se as velas, e desapareceu a nossos olhos a praia, na qual na
manhã seguinte ela enlouqueceria de dor e encheria de lamentos e gemidos teus ouvidos
indiferentes. Tu me levavas para longe dela, a fim de que eu vencesse as paixões pelas
próprias paixões e para punir com o merecido flagelo da dor a saudade do seu amor humano
por mim. Como acontece com todas as mães, queria conservar-me a seu lado, porém muito
mais que o normal, e não sabia que tu, com minha ausência, lhe preparavas grandes
alegrias. Ela não o sabia, e por isso chorava e se lamentava. Surgia, neste seu
sofrimento, e herança de Eva, pois procurava na dor aquele que na dor tinha dado à luz
(3). Acusando-me de tê-la enganado cruelmente, voltou à vida habitual e às orações
por mim. Eu viajava para Roma.
9. CHEGADA A ROMA.
MÔNICA REZA DE LONGE
16 Em
Roma, fui atingido pelo flagelo dos sofrimentos físicos, e já me encaminhava para o
inferno, carregado de todas as faltas, cometidas contra ti, contra o próximo e contra mim
mesmo, numerosas e graves, além da culpa original, pela qual todos morremos em Adão (1).
Nenhuma delas me tinha sido perdoada pelos merecimentos de Cristo, nem ele tinha ainda
apagado com a sua cruz a inimizade que eu, pelos meus pecados, contraíra contigo; e como
poderia fazê-lo um fantasma na cruz, como eu o considerava (2)? Tão falsa me parecia sua
morte corporal, quanto era verdadeira a morte de minha alma; e tão verdadeira era a morte
da sua carne, quanto era falsa a vida da minha alma. Aliás, disto eu não me persuadia.
Entretanto, a febre aumentava, e eu ia morrer em perdição. De fato, morrendo então,
para onde iria eu, senão para o fogo e para as penas estabelecidas por tua lei para um
comportamento semelhante ao meu? Minha mãe ignorava o perigo que eu corria. Mas bem longe
continuava a rezar por mim. Mas tu, que estás presente em toda parte, a ouvias onde ela
estava, e tinhas compaixão de mim, onde eu me encontrava. E de novo deste a saúde do
corpo. Minha alma sacrílega, porém, estava ainda doente; de fato, mesmo diante de perigo
tão grave, eu não desejava o batismo. Eu era melhor quando menino, quando pedi ao amor
de minha mãe que eu fosse batizado, como já relatei (3). Cresci. E, para vergonha minha, era tão louco que
desprezava as prescrições de tua medicina. Mas não permitiste, naquela condição de
pecado, que eu sofresse as duas mortes; o coração de minha mãe receberia um golpe, do
qual não se recuperaria jamais. Não é fácil explicar o que ela sentia por mim: sofria
muito mais agora ao dar-me à luz pelo espírito, do que quando sofreu as dores do parto
natural (4).
17
Não vejo como ela se recuperaria, se a minha morte ocorrida em tais condições, tivesse
ferido as entranhas do seu amor. E assim, para onde teriam ido tantas orações, tão
constante e ininterruptas, senão para junto de ti? Tu, ó Deus da misericórdia (5), não
podias desprezar o coração contrito e humilhado (6) de uma viúva pura e modesta,
fiel nas esmolas e devota servidora de teus santos, que não deixava passar um dia sem
apresentar ao altar a sua oferta, que duas vezes por dia, pela manhã e pela tarde, ia à
igreja, não para inúteis tagarelices, conforme o costume de certas senhoras, mas para
ouvir tua palavra e fazer-se ouvida por ti em suas orações. Ela era assim por graça
tua: poderias, acaso, recusar ajudá-la, não te importando com aquelas suas lágrimas,
que não te pediam nem ouro, nem prata, nem outros bens frágeis e passageiros, senão
apenas a salvação de seu filho? Certamente não, Senhor. Pelo contrário, estavas a seu
lado e escutavas, realizando teu plano preestabelecido. É certo que não a enganavas nas
visões e respostas que lhe davas, tanto aquelas que já recordei (7), como outras que
não relembrei. Ela as conservava cuidadosamente no coração e as apresentava a ti, em
oração, como promessas por ti subscritas. De fato, tua misericórdia é eterna (8), e
através de tuas promessas queres fazer-te devedor daqueles aos quais perdoas todas as
dívidas.
10. ENTRE O
MANIQUEÍSMO E O CETICISMO ACADÊMICO
18 Restabeleceste minha saúde
e salvaste no corpo o filho da tua serva, para mais tarde dar a ele uma salvação maior e
mais segura. No entanto, eu continuava em Roma a freqüentar os chamados santos (1)
enganados e enganadores, e não só com os seus "ouvintes" - entre os quais
estava aquele que me acolheu em casa quando adoeci e convalesci - mas também com os
chamados "eleitos". Conservava ainda a idéia de que não éramos nós que
pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem culpa e de
não dever confessar o mal após tê-lo cometido satisfazia o meu orgulho; desse modo eu
não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti (2) preferindo desculpá-la e
acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. Na realidade,
tudo aquilo era eu, mas a impiedade me dividia contra mim mesmo. Pecado ainda mais grave
era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, Deus
onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína, em lugar de eu ser vencido em ti para
minha salvação! Ainda não tinhas posto guarda à minha boca, e uma porta de
proteção para meus lábios, a fim de que o meu coração não se afeiçoasse às
palavras de malícia, a fim de encontrar desculpas para os meus pecados (3). Por isso
me entendia ainda com seus eleitos, não mais esperando progredir naquela falsa doutrina;
passei a olhar com menor empenho e interesse os princípios que havia decidido adotar,
até que encontrasse algo melhor.
19
Vieram-me de fato a idéia de que os mais esclarecidos entre os filósofos eram os
chamados Acadêmicos, quando afirmavam ser preciso duvidar de tudo, e que o homem nada
pode compreender da verdade (4). Eu conhecia o pensamento deles, pelo que lhes era
comumente atribuído, pois não compreendia ainda seus reais propósitos. Nessa
condições, não deixei de reprimir claramente a excessiva confiança que - como eu
constatei - meu hospedeiro nutria pelas fábulas que enchem os livros maniqueus. No
entanto, eu cultivava mais amizade com eles do que com os estranhos a essa heresia. Já
não defendia essa doutrina com o entusiasmo de outrora. Mas, a amizade dos maniqueus (em
Roma muitos se ocultavam) impedia-me de procurar outra coisa, mesmo porque não tinha
esperança de encontrar na tua Igreja a verdade da qual me havia afastado, ó Senhor do
céu e da terra, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Parecia-me realmente
indigno acreditar que havias tomado a imagem humana e circunscrito tua divindade nos
limites do corpo humano. E, no entanto, quando queria pensar no meu Deus, só sabia
representá-lo sob a forma de massa corpórea. (Parecia-me que não deixa existir nada de
incorpóreo). E esta era a principal, e talvez, a causa única do meu erro.
20
Em conseqüência, eu deduzia que também o mal era uma substância desse gênero, ora
massa escura e disforme, ora espessa, chamada terra, ora tênue e sutil, como o ar, que os
maniqueus imaginavam como um espírito maligno rastejando sobre a terra. Mas certa
religiosidade que possuía me obrigava a crer que um deus bom não podia ter criado a
natureza má. Concluía daí que devia haver duas substâncias opostas entre si, ambas
infinitas, sendo porém a má em medida mais limitada, e a boa em medida mais ampla. E
desse princípio peçonhento derivavam todas as outras idéias errôneas. E quando meu
espírito tentava retornar à fé católica, sentia-me repelido, porque a opinião que
formava da fé católica não era exata. E me parecia mais reverente, ó meu Deus - que te
manifestas nas tuas misericórdias para comigo - acreditar-te infinito em todo sentido,
exceto em que se opõe a ti a substância do mal, onde me via obrigado a reconhecer-te
finito, do que imaginar-te limitado pela forma de um corpo humano. E me parecia mais justo
crer que não tivesses criado mal nenhum, do que acreditar que a natureza do mal - como eu
imaginava - proviesse de ti. Na minha ignorância, eu imaginava o mal, não só como
substância corpórea, pois não sabia conceber um espírito, mas também como um corpo
sutil que se difunde no espaço. Nosso próprio Salvador, teu Filho único, eu o imaginava
como se proviesse da massa do teu corpo de luz para a nossa salvação. Em relação a
ele, nada eu acreditava, a não ser o que minha ignorância deixava conceder. Sustentava,
portanto, que uma natureza de tal gênero não podia nascer da virgem Maria sem unir-se à
carne. Mas eu não conseguia ver como poderia unir-se à carne, e ao mesmo tempo não se
contaminar, este ser que eu imaginava.
Os homens espirituais (5) talvez se riam de mim agora, com afetuosa indulgência, ao ler
estas confissões. Todavia, nesse tempo, eu era assim.
11.
OS MANIQUEUS E AS SAGRADAS ESCRITURAS
21
Parecia-me impossível combater as críticas que os maniqueus faziam a certas passagens de
tuas Escrituras. Às vezes, eu desejava mesmo examinar alguns desses textos com pessoas
competentes, para ouvir-lhes a opinião. Começavam a interessar-me os debates públicos
contra os maniqueus, realizados em Cartago por um certo Elpídio, que citava as Sagradas
Escrituras, de tal modo que era difícil contradizê-lo. As respostas que lhe davam me
pareciam fracas, e não o faziam em público, mas em segredo, sustentando que as
Escrituras do Novo Testamento haviam sido falsificadas por um desconhecido que quisera
inserir a lei judaica na fé cristã; mas não apresentavam desses textos nenhum exemplar
não adulterado. Eu, porém, incapaz de imaginar seres incorpóreos, estava como que preso
e sufocado por aquelas duas substâncias, sob cuja pressão procurava em vão aspirar o ar
puro e límpido de tua verdade
12.
COMPORTAMENTO DOS ESTUDANTES ROMANOS
22
Atirei-me com zelo a tarefa, que era a razão da minha ida a Roma, isto é, ao ensino da
retórica. No princípio, reunia em casa alguns alunos, aos quais e pelos quais comecei a
tornar-me conhecido. Percebi logo que em Roma havia certos hábitos que eu não toleraria
na África. É verdade que não se verificavam as conhecidas desordens dos jovens
depravados de Cartago, mas fui avisado de que muitos estudantes romanos, para não pagarem
ao professor, entravam em acordo e passavam repetidamente para outro mestre, traindo a boa
fé e menosprezando a justiça, por amor ao dinheiro. De coração eu os odiava (1), mas
não de ódio perfeito, pois era talvez provocado mais pelo prejuízo que eu sofreria do
que pela injustiça de suas ações ilícitas. Sem dúvida tratava-se de indivíduos
infames que te traem ao correrem atrás de ilusões efêmeras e lucros imundos que maculam
as mãos ao serem tocados; eles se apegam aos mundo que passa, esquecendo-se de ti, que
permaneces, que chama de volta e sabes perdoar a alma humana prostituída que retorna a
ti. Detesto ainda agora essa gente depravada e corrupta, mas amo-a também para corrigi-la
e ensinar-lhe a dar preferência à doutrina que aprendem mais do que ao dinheiro, e para
que te apreciem, meu Deus, mais a ti que à própria doutrina, a ti que és a verdade, a
abundância de felicidade segura e de paz puríssima. Mas, nessa época, eu preferia
evitar as maldades deles por meu próprio interesse do que torná-los melhores por teu
amor.
13.
ENCONTRO COM AMBRÓSIO EM MILÃO
23
Quando o prefeito de Roma recebeu de Milão o pedido de um professor de retórica para es
ta cidade, com a oferta de transporte público, eu mesmo solicitei o emprego através de
amigos embriagados de idéias maniqueístas, sem saber que minha ida deveria separar-nos
para sempre. O prefeito Símaco, após submeter-me à prova de um discurso, me fez partir.
Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como
um dos melhores, e teu fiel servidor. Suas palavras ministravam constantemente ao povo a
substância do teu trigo (1), a alegria do teu óleo (2) e a embriaguez sóbria do teu
vinho. Tu me conduzias a ele sem que eu o soubesse, para que eu fosse por ele conduzido
conscientemente a ti. Esse homem de Deus acolheu-me paternalmente e ficou feliz com a
minha chegada, na bondade digna de um bispo. Comecei a estimá-lo, a princípio não como
mestre da verdade, pois não tinha esperança de encontrá-la em tua Igreja, mas como
homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a
intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloqüência merecia a fama de que
gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras me prendiam a
atenção. Mas, o conteúdo não me preocupava, até o desprezava. Eu me encantava com a
suavidade de seu modo de discursar; eram mais profundo, embora menos jocoso e agradável
que o de Fausto quanto à forma. A respeito do conteúdo, porém, não era possível
qualquer comparação: perdia-se este último entre as falsidades dos maniqueus, ao passo
que o outro ensinava a doutrina mais sadia da salvação. Mas, a salvação está longe
dos ímpios (3). Eu era um deles, ainda que estivesse me aproximando dela paulatinamente e
sem o perceber.
14.
AFASTAMENTO DO MANIQUEÍSMO
24
Não me esforçava em aprender os temas que ele expunha, mas somente em ouvir como ele os
dizia. Permanecera em mim esse fútil interesse, perdidas as esperanças de que se
patenteasse ao homem um caminho para chegar a ti. No entanto, junto com as palavras que me
agradavam, chegavam-me também ao espírito os ensinamentos que eu desprezava. Não me era
possível separar as duas coisas: enquanto abria o coração às palavras eloqüentes,
entrava também, pouco a pouco, a verdade que ele pregava. Comecei então a notar que eram
defensáveis suas teses, e logo vim a perceber não ser temerário defender a fé que eu
supunha impossível opor aos ataques dos maniqueus. E isto sobretudo porque via
resolverem-se uma a uma as dificuldades de várias passagens do Antigo Testamento que,
tomadas ao pé da letra, me tiravam a vida (1). Ouvindo agora a explicação espiritual de
tais passagens, eu me reprovava a mim mesmo por ter acreditado que a Lei e os Profetas
não pudessem resistir aos ataques e insultos de sues inimigos. Todavia, não me sentia no
dever de abraçar a fé católica, só pelo fato de que ela podia contar com doutos
defensores, capazes de refutar as objeções dos adversários com argumentos sérios. Por
outro lado, não me pareciam condenáveis as doutrinas que abraçar: os argumentos de
defesa das duas partes equivaliam-se. A fé católica não me parecia vencida, mas para
mim ainda não se afigurava vencedora.
25
Foi então que comecei a empenhar todas as forças do espírito na busca de um argumento
decisivo para demonstrar a falsidade dos maniqueus: se me fosse possível conceber uma
substancia espiritual, todos os obstáculos teriam sido superados e afastados do meu
espírito. Mas não podia. Contudo, em relação à própria estrutura do mundo e à
natureza inteira perceptível a nossos sentidos físicos, minhas reflexões e
comparações me convenciam cada vez mais de que a maior parte dos filósofos tinha
opiniões bem mais aceitáveis. Assim, duvidando comumente - flutuando entre todas as
doutrinas, resolvi abandonar os maniqueus. Parecia-me, nesse momento de dúvida, que não
devia permanecer nessa seita, que eu colocava em plano inferior a alguns filósofos, se
bem que recusasse terminantemente confiar a seus cuidados a fraqueza de minha alma, por
ignorarem eles o nome de Cristo. Resolvi então permanecer como catecúmeno na Igreja
Católica, conforme o desejo de meus pais, até que alguma certeza viesse apontar-me o
caminho a seguir.
Por Santo
Agostinho
AGOSTINHO AOS TRINTA
ANOS
1. MÔNICA ENCONTRA-SE COM O FILHO EM MILÃO
1 Ó minha esperança desde a minha juventude (1), onde estavas, para onde te retiraste? Não foste tu que me criaste e me quiseste diferente dos animais, mais inteligente que as aves do céu? E, no entanto, eu caminhava em meio às trevas e por terrenos escorregadios. Eu te buscava fora de mim, e não encontrava o Deus do meu coração (2). Havia chegado ao fundo do mar, e não tinha mais confiança nem esperança de encontrar a verdade.
Minha mãe, forte na piedade, já viera ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, em ti confiando em todos os perigos. Era ela, nos momentos críticos da navegação, quem incutia coragem aos próprios marinheiros, que habitualmente confortam os viajantes inexperientes e timoratos, prometendo-Ihes uma chegada a salvo. Foste tu, em visão, quem o havias prometida ela.
Ao chegar, encontrou-me em grande perigo, provocado pela completa falta de confiança em conhecer a verdade. Quando a informei de que já não era maniqueu, embora ainda não fosse cristão católico, não saltou de alegria, como quem ouve uma notícia inesperada. Quanto a este aspecto de minha miséria, ela estava tranqüila. Chorava por mim como se estivesse morto, porém morto destinado à ressurreição, e me oferecia a ti no esquife do pensamento, a fim de que dissesses ao filho da viúva: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te", para que ele revivesse e começasse a falar, e tu o entregasses à sua mãe (3). Assim, o coração não lhe estremeceu de tumultuada alegria ao ouvir que já havia acontecido em grande parte o que todos os dias ela te pedia chorando: eu ainda não chegara à verdade, mas já estava liberado do erro. Mas como estava certa de que realizarias o resto, pois tudo lhe havias prometido, respondeu-me com toda a tranqüilidade e com o coração cheio de confiança, que em Cristo ela ainda esperava, antes de morrer, ver-me autêntico católico. Esta é a resposta que me deu. Mas a ti, fonte de misericórdia, ela aumentava cada vez mais as súplicas e lágrimas, a fim de que apressasses o teu auxílio e iluminasses as minhas trevas (4). Corria com mais freqüência à igreja, ficando suspensa dos lábios de Ambrósio, como de uma fonte de água jorrando para a vida eterna (5). Estimava aquele homem, como a um mensageiro de Deus, logo ao saber que fora por intermédio dele que eu flutuava nas dúvidas em que agora me encontrava. E estava certa de que eu passaria, atravessando o ponto mais perigoso que os médicos denominam momento crítico, da doença para a saúde.
1 SI 71,5.
2 Cf. SI 73,26.
3 Cf. Lc 7,12-15
4 Cf. SI 17,29.
5 To 4,14.
2. MÔNICA E AMBRÓSIO
2 Um dia minha mãe, como costumava fazer na África, levava bolo, pão e vinho para as sepulturas dos santos. E foi impedida pelo porteiro. Logo que soube ser proibição do bispo, aceitou-a com tal docilidade e obediência, que eu mesmo me admirei de vê-Ia disposta a renunciar a um hábito, antes que discutir a proibição.
Não tinha o espírito sufocado pela embriaguez, nem o amor do vinho a incitava ao ódio da verdade, como muitos homens e mulheres que, diante de exortações à sobriedade, experimentam a mesma náusea que sentem os bêbados diante de um copo de água
Quando levava a cesta com os alimentos rituais, para distribuir depois de tê-los provado, não bebia mais que um pequeno copo de vinho diluído em água, segundo seu paladar sóbrio, e o fazia principalmente para homenagear aos santos. E se havia muitas sepulturas de santos a honrar dessa maneira, ela levava sempre o mesmo copo, que depunha em cada túmulo, e com os presentes repartia pequenos goles desse vinho, não só muito aguado como também morno. E agia assim por devoção, e não por prazer pessoal
O bispo, famoso pregador e pessoa piedosa, tinha proibido esses ritos, mesmo quando celebrados com sobriedade, não só para que não se oferecesse aos ébrios ocasião de se embebedarem, mas também pela semelhança com os "parentais", ritos de superstição pagã. Ao tomar conhecimento da proibição, ela aceitou-a de boa vontade, e, ao invés do cesto cheio de frutos da terra, passou a levar à sepultura dos mártires um coração cheio dos mais puros sentimentos. Assim dava aos pobres aquilo que podia e celebrava nesses lugares a comunhão com o Corpo do Senhor, pois foi imitando-lhe a paixão que os mártires foram imolados e coroados. Mas parece-me, Senhor meu Deus (e conheces bem meus pensamentos secretos), que talvez minha mãe não houvesse aceitado tão facilmente o cerceamento de seus hábitos, se a proibição tivesse partido de outra pessoa que não fosse tão amada quanto Ambrósio. Ela o estimava sobretudo pela minha salvação, como ele a respeitava pela minha salvação, como ele a respeitava pela vida tão religiosa que ela levava, tão dedicada às boas obras e aos serviços da Igreja. Muitas vezes, ao encontrar-me, ele rompia em elogios a ela, e se congratulava comigo por ter semelhante mãe. Não sabia que filho era eu, cético a respeito de tudo e convicto de não poder encontrar o caminho.
3. FIGURA DE AMBRÓSIO
3 Eu ainda não pedia em gemidos que viesses em meu auxílio, mas estava cheio de ardor em tua busca, ávido de discussão. Considerava o próprio Ambrósio um homem realiza.do segundo o espírito do mundo, homenageado pelos poderosos; somente seu celibato parecia-me duro de suportar. Quanto às suas esperanças, suas lutas contra as tentações de grandeza, suas consolações nas adversidades, as saborosas alegrias que experimentava ao ruminar o vosso pão com a boca misteriosa do seu coração, de tudo isso eu não fazia idéia nem tinha experiência. De seu lado, ele ignorava também as minhas tempestades e o risco que eu corria de cair no abismo. Não conseguia fazer-lhe as perguntas que queria e como desejaria, pois dele me separavam numerosas pessoas carregadas de problemas e que recebiam ajuda de seus ouvidos e de sua boca. O pouco tempo que não estava ocupado com elas, Ambrósio o empregava restaurando o corpo com o sustento necessário, ou alimentando a alma com leituras. Ao ler, corria os olhos pelas páginas: a mente penetrava o significado, enquanto a voz e a boca se calavam. Muitas vezes, ao entrarmos (pois a ninguém era proibido o ingresso nem precisava anunciarse), o víamos lendo, sempre em silêncio. Sentávamos em longo silêncio (quem ousaria perturbar tão intensa concentração?) e depois nos afastávamos, pensando que, durante o pouco tempo que lhe restava para restabelecer a mente, livre dos problemas alheios, não quisesse ser distraído por outras coisas. Talvez evitasse ler em voz alta, para não ser obrigado por algum ouvinte curioso e atento a explicar alguma passagem difícil do autor, ou a discutir alguma questão por demais complexa. Empregando o tempo desse modo, não poderia ler tanto quanto desejaria. Talvez, lendo baixo, também quisesse apenas poupar a voz, que se enfraquecia facilmente. Qualquer que fosse sua intenção, não podia deixar de ser boa, em se tratando de um homem como ele
4 O certo é que nunca tinha oportunidade de consultar teu santo oráculo, que residia no coração dele, sobre minhas dúvidas, a menos que se tratasse de questões rápidas. No entanto, minhas perplexidades espirituais exigiam que eu o encontrasse disponível por muito tempo, para abrir-me com ele, o que não acontecia nunca. Todos os domingos ia escutá-lo quando ele apresentava, com retidão, a palavra da verdade (1) ao povo. E eu me convencia cada vez mais de que podia ser desfeito o nó das astuciosas calÚnias, com que os meus sedutores envolviam os livros sagrados. Logo descobri também que teus filhos espirituais, regenerados pela graça na santa Igreja católica, não entendiam as palavras onde se diz que o homem foi criado por ti à tua imagem (2), no sentido de te acreditarem e julgarem encerrado na forma de corpo humano. Eu, que nem de longe suspeitava o que era substância espiritual, então me envergonhei alegremente de ter vociferado por tantos anos, não contra a fé católica, mas contra as ficções criadas por imaginações carnais. Tinha sido temerário e ímpio por ter acusado a fé católica, sem antes me haver informado através de pesquisa séria. Tu, porém, que estás tão alto e tão perto, tão escondido e tão presente, que não tens membros maiores e menores e que existes todo em toda parte, mesmo não possuindo esta forma corpórea, fizeste à tua imagem o homem que, da cabeça aos pés, está contido num determinado espaço
1 2Tm
2,15.
2 Cf. Gn 1,26;9,6.
4. DESCOBERTA DA VERDADE
5 Ignorando em que consistia essa tua imagem, deveria ter batido à porta e indagado sobre o sentido dessa crença, e não me opor com insultos ao que eu supunha fosse essa crença. Quanto mais agudo era no meu íntimo o desejo de saber o que devia considerar como certo, tanto mais me envergonhava de me ter deixado enganar e iludir por tanto tempo com promessas de certeza e de ter proclamado como seguras tantas incertezas, pueril no meu erro e na minha paixão. Mais tarde percebi a falsidade dessa doutrina. Mas o que já era certo para mim é que elas eram incertas, e que eu as tinha considerado certas, quando perseguia a fé católica com minhas cegas acusações. E se eu ainda não estava convencido de que esta fé ensinava a verdade, sabia no entanto que não ensinava aquilo de que eu a acusava. Assim, sentia-me confuso e transformado, e estava contente, ó Deus meu, porque tua Igreja única, corpo do teu único Filho, em cujo seio desde menino aprendi o nome de Cristo, não tinha nenhum gosto por questões pueris, e que sua autêntica doutrina não cometia o erro de circunscrever-te, ó Criador de tudo, num espaço que, embora alto e amplo, seria limitado de todos os lados por configurações de corpo humano.
6 Alegrava-me, também, por ter aprendido a ler as antigas Escrituras da Lei e dos Profetas, com interpretação diferente daquelas que antes me pareciam absurdas, quando eu acusava teus santos de terem fé em coisas nas quais realmente não acreditavam.
Alegrava-me ouvir Ambrósio quando, muitas vezes em seus sermões, recomendava ao povo a norma a ser escrupulosamente observada: a letra mata, mas o espírito comunica a vida (1). Removido assim o místico véu, esclareceram-se espiritualmente passagens que, tomadas ao pé da letra, pareciam ensinar o mal. Nada ele dizia que eu não pudesse aceitar, embora ainda não estivesse certo de que as palavras dele eram verdadeiras. Mantinha o coração ao abrigo de qualquer adesão, hesitando diante do salto. e esse meu estado de perplexidade era morte ainda mais angustiante. Desejava ter, em relação a fatos não demonstráveis, a mesma certeza com que dizia que sete mais três são dez. Não era eu tão insensato a ponto de julgar que mesmo essa verdade fosse incompreensível; queria ter, a respeito de todo o resto, a mesma compreensão que tinha sobre isso, tanto em relação às coisas corpóreas não atingidas pelos sentidos, quanto em relação às espirituais, que eu só podia conceber em termos materiais. Só a fé podia curar-me: desse modo, os olhos da minha inteligência, já purificada, se dirigiriam à tua verdade imutável e perfeita (2). Mas, assim como acontece muitas vezes, depois de experimentar um médico mau, a gente receia confiar num bom, o mesmo acontecia à saÚde de minha alma, que somente poderia curar-se pela fé, mas, para não acabar novamente acreditando em coisas falsas, recusava a cura, resistindo a ti que fabricaste o remédio da fé e, dotando-o de tão grande poder, o derramaste sobre todas as enfermidades da terra.
1 2Cor
3,6
2 Cf. Sl 117,2
5. "PREFIRO AGORA A FÉ CATÓLICA"
7 Desde então comecei a preferir a doutrina católica, porque agora compreendia: era mais modesto e sincero prescrever a fé em algo que não podia ser demonstrado, tanto por incapacidade da maioria dos homens, como simplesmente por absoluta impossibilidade, do que zombar da fé, prometendo temerariamente uma ciência, para afinal impor a crença numa grande quantidade de fábulas absurdas, incapazes de demonstração. E enquanto tua mão suave e misericordiosa plasmava e formava pouco a pouco o meu coração, eu refletia na infinidade de fatos em que acreditava, sem tê-los visto ou deles ter sido testemunha. Assim, os muitos episódios da história da humanidade, a existência de lugares e cidades nunca visitados, conhecimentos recebidos de amigos, de médicos e de tantos outros em quem temos de acreditar, sob pena de nada podermos realizar na vida. Enfim, como estava absolutamente seguro da identidade de meus pais, o que não poderia saber sem acreditar no que ouvia. Convenci-me então de que, longe de repreender os que acreditam em tuas Escrituras, reconhecidas com tanta autoridade em quase todos os povos, são repreensíveis aqueles que não acreditam e a quem não se deve dar ouvidos se disserem: "Como sabes que estes livros foram dados aos homens pelo espírito do único Deus, que é a verdade?" E isso se adequava tanto melhor à minha crença, quanto é certo que nenhum argumento, por mais capcioso que fosse, de tantos filósofos que discordavam entre si, cujos livros estudei, tinha podido arrancar do meu coração a fé na tua existência, apesar de ignorar o que eras e desconhecer que o governo das coisas humanas pertence a ti (1).
8 Na realidade, a esse respeito era a minha fé ora mais forte, ora mais fraca. Mas sempre acreditei que existes e que cuidas de nós, embora não soubesse que idéia devesse ter de tua natureza, ou que caminho nos levaria ou reconduziria a ti. Portanto, sendo os homens incapazes de encontrar a verdade mediante a razão pura, e tendo necessidade do apoio da Sagrada Escritura, eu já principiava a crer que não concederias tanta autoridade por toda a terra a estes Livros Sagrados se não tivesses querido que se acreditasse em ti e se buscasse a ti através deles.
E
assim, eu já atribuía à profundeza dos mistérios as obscuridades que antigamente
costumavam impressionar-me, pois, sobre o assunto eu já havia recebido várias
explicações plausíveis. E a autoridade desses livros ainda me parecia tanto mais
venerável e digna de fé absoluta, quanto era claro o seguinte: se de um lado a leitura
deles estava ao alcance de todos, por outro lado reservava a dignidade de seu significado
oculto a uma percepção mais profunda. A extrema clareza de linguagem e simplicidade de
estilo a tornavam acessível a todos e estimulavam a perspicácia daqueles que não têm
coração leviano (2). E recebendo em seu seio a humanidade inteira, apenas a poucos era
dado chegar a ti, por estreitas passagens; estes, no entanto, são sempre mais numerosos
do que o seriam se a Escritura não tivesse tanto prestígio aliado a tanta humildade,
capaz de atrair multidões.
Assim
eu meditava, e tu estavas a meu lado. Eu suspirava e tu me ouvias. Eu tateava e tu me
guiavas. Eu andava pelos largos caminhos do mundo (3), e tu não me abandonavas.
1 Cf. Cícero. De nato deorum 1.
1.
2 CL Eclo 19.4
3 Cf. Mt 7,13
6. MISÉRIA DA AMBIÇÃO
9 Eu aspirava às honras, à riqueza, ao matrimônio, e tu rias de mim. Nesses desejos amargos eu sofria dissabores, e tu me querias tanto mais bem quanto menos consentias que eu experimentasse consolação naquilo que não eras tu. Olha o meu coração, Senhor, tu que me inspiraste estas lembranças e esta confissão. Que se una agora a ti a minha alma, que arrancaste do visgo tão tenaz da morte. Como eu era miserável! E tocavas na minha chaga viva, a fim de que eu deixasse tudo e me convertesse a ti, que estás acima de todas as coisas (1). Sem ti nada existiria. Tu me revolvias a ferida para que eu me convertesse e ela pudesse sarar. Como eu era infeliz! E como agiste para que eu sentisse minha miséria, naquele dia em que me preparava para declamar um panegírico ao imperador (2)! Aliás, um tecido de mentiras que seriam, no entanto, aplaudidas pelos ouvintes, que sabiam tratar-se de mentiras. Meu coração agitava-se com esses cuidados e ardia na febre de pensamentos indignos, quando, passando por uma viela de Milão, reparei num pobre mendigo que, talvez meio bêbado, estava alegre e de bom humor. Entristeci-me, e fiz notar aos amigos, que me acompanhavam, as angústias provocadas por nossas loucuras. Pois, com todos os nossos esforços (como eram então os meus, carregando sob o aguilhão das paixões o peso da miséria, peso que aumentava à medida que eu o arrastava), onde queríamos chegar, senão à alegria segura em que nos precedera o mendigo e onde talvez nunca chegaríamos? Ele, de fato, com aquelas poucas moedas recebidas de esmola, tinha alcançado a alegria da felicidade efêmera, que eu me esforçava para conseguir dando voltas por tantos caminhos tortuosos e cheios de angústias.
É claro que a alegria dele não era a verdadeira; mas o objeto de minha ambição era bem mais falso. Ele, pelo menos, estava satisfeito com sua alegria, e eu, preocupado; ele era livre, estava tranqüilo, e eu, cheio de inquietações.
Se alguém me perguntasse pela minha preferência entre a alegria e o temor, é claro que haveria de responder: a alegria. Mas se ainda me perguntassem se preferia ser como aquele mendigo ou permanecer como eu era, teria escolhido continuar como era, apesar das preocupações e temores que me acabrunhavam. Erro de julgamento ou juízo acertado? É claro que não deveria considerar-me superior a ele por ter mais cultura, pois desta não me vinha nenhuma alegria, mas com ela pretendia agradar os homens, não para instruí-los, mas unicamente para ser-lhes agradável. Por isso mesmo, tu me quebravas os ossos (3) com a vara da tua justiça.
10 Longe de mim quem diga: "O importante é saber a causa da alegria: aquele mendigo encontrava a felicidade na embriaguez, tu procuravas a tua alegria na glória". Mas, que glória, Senhor? Uma glória que não se fundava em ti. E se a alegria do mendigo não era a verdadeira, tampouco era verdadeira a minha glória, que cada vez mais me perturbava. Na mesma noite, aquele mendigo teria curado sua embriaguez, enquanto eu havia dormido e acordado com a minha, e ainda com ela tornaria a dormir e acordar; e quem sabe por quanto tempo! Bem sei que o importante é saber de onde vem a alegria de cada um, e a felicidade que vem da esperança da fé é profundamente diferente daquela vaidade.
Mas
havia ainda outra diferença entre nós dois: ele era realmente mais feliz, não só
porque transbordava de alegria enquanto eu era devorado pelas preocupações, mas também
porque ele adquiria o vinho desejando o bem enquanto eu buscava a glória através da
vanglória. Eu disse então muita coisa nesse sentido aos amigos e, muitas vezes, me
examinava em circunstâncias análogas, para ver como estava, constatando que ia mal, e me
afligia por isso, e assim aumentava minha infelicidade. Se me sorria um momento de
felicidade, hesitava em segurá-lo, pois estava cônscio de que voaria antes mesmo que eu
o alcançasse.
1 Cf. Rm 9,5.
2 Parece tratar-se das festas prescritas para novembro de 385 em comemoração do décimo
aniversário da elevação de Valentiniano II ao trono. (Courcélle.
Recherches sur les Confessions de St. Augustin, Paris. 1950. pp. 80ss).
3 Cf. SI 42,11.
7. A AMIZADE DE ALÍPIO
11 De tudo isso nos lamentávamos entre nós, amigos que vivíamos a mesma vida. Falava mais intimamente e com a maior confiança com Alípio e Nebrídio. Alípio nascera no mesmo município que eu e no qual seus pais tinham grande prestígio. Era mais moço que eu. Fora até meu aluno, quando comecei a ensinar em nossa cidade, e depois em Cartago. Ele me estimava muito, porque eu lhe parecia bom e sábio, e também eu lhe queria bem, porque ele demonstrava forte inclinação para a virtude em tão tenra idade. Mas o turbilhão dos maus costumes de Cartago, onde ferviam os espetáculos frívolos, arrastou-o para uma louca paixão pelos jogos circenses.
Quando ele mergulhava nessa miséria, eu ensinava retórica numa escola pública, e ele ainda não era meu aluno, por causa de certas desavenças surgi das entre mim e seu pai. A descoberta do funesto amor pelo circo muito me angustiava por me parecer que iria perder-se, se tão bela esperança já não estava perdida. Mas como adverti-lo, ou intervir mais decididamente, se não podia valer-me, nem do afeto do amigo nem da autoridade do mestre? Eu supunha de fato que ele nutrisse por mim os mesmos sentimentos do pai, quando na realidade não era assim. Neste particular, pondo de lado a vontade do pai, começou a cumprimentar-me, comparecia às minhas aulas, onde me escutava por algum tempo, retirando-se em seguida.
12 De minha parte, já esquecera o propósito de ocupar-me dele, a fim de que não arruinasse o talento numa cega e impetuosa paixão por aqueles jogos fúteis. Mas tu, Senhor, que governas a sorte de tuas criaturas, não te esquecias de quem havia de ser, entre teus filhos, ministro dos teus sagrados mistérios (1). E para que a reabilitação fosse claramente reconhecida com obra tua, usaste de mim como instrumento, sem que eu o percebesse.
Um dia, estando eu sentado no lugar de costume com os alunos diante de mim, ele veio, cumprimentou-me, sentou-se e prestou atenção no assunto que discutíamos. Por acaso, eu tinha em mãos um texto; e enquanto o comentava, pareceu-me oportuno recorrer a uma comparação com os jogos do circo, para tornar mais agradável e mais claro o que explicava, e comecei a ironizar aqueles que se deixavam escravizar por tal insensatez. Mas tu sabes, ó meu Deus, que nesse momento eu não pensava em curar Alípio de tal contágio. Ele, porém, caiu em si e pensou que aquelas palavras eram expressamente dirigidas a ele. O que outro tomaria como motivo para se desgostar de mim, ele, honesto como era, tomou como causa para censurar a si mesmo e para me estimar ainda mais.
De fato, já tinhas dito uma vez e escrito em teus livros: Repreende o sábio, e ele te amará (2). Mas não fora eu a corrigi-lo, e sim tu, que te serves de todos, conscientes ou não, seguindo um plano que conheces - plano de justiça! - e que fizeste do meu coração e da minha língua carvões ardentes (3), para cauterizar a ferida purulenta daquela alma cheia de belas esperanças, e curá-la.
Calem teus louvores os que não contemplam tuas misericórdias, por mim confessadas no mais íntimo do ser. Realmente, depois daquelas palavras, Alípio fugiu do abismo profundo onde se precipitava com prazer e onde se deixava cegar com incrível volúpia. Sacudiu sua alma com firme resolução e livrou-se de toda a lama dos circos, onde nunca mais colocou os pés.
Em seguida, vencendo a resistência do pai, conseguiu a permissão de me tomar como mestre. O pai acabou cedendo, e consentiu. Recomeçando a escutar minhas aulas, envolveu-se comigo nas superstições dos maniqueus, nelas admirando certa ostentação de virtude que acreditava real e genuína. Era na realidade falsa e sedutora, própria para atrair as melhores almas que, não conseguindo ainda as profundezas da virtude, se deixam enganar pelas aparências de uma virtude tenebrosa e falsa.
1 Alípio será mais tarde bispo de Tagaste.
2 Pr 9,8.
3 Cf. Ez 1,13.
8. ALÍPIO FASCINADO PELOS ESPETÁCULOS SANGRENTOS DO CIRCO
13 Sem abandonar de fato a carreira mundana que seus pais lhe decantavam, Alípio partira antes de mim para Roma a fim de estudar Direito, e aí se deixou envolver de maneira incrível por uma incrível paixão pelos espetáculos de gladiadores. De fato, no princípio nutria aversão e desprezo por esses espetáculos, mas alguns amigos e condiscípulos, encontrando-o casualmente de volta do almoço, o levaram com amigável violência, apesar de sua obstinação e resistência, ao anfiteatro onde se realizavam nesse dia jogos cruéis e sangrentos. Ele, porém, lhes dizia: "Podeis arrastar-me o corpo e mantê-lo junto a vós; mas podereis por acaso abrir-me a alma e os olhos para tais espetáculos? Ali estarei, porém ausente, e triunfarei deles e de vós". Ouvindo essas palavras, o levaram com eles, talvez mesmo para verem se era capaz de manter o propósito. Chegando ao circo, ocuparam os lugares que puderam. Aí, tudo fervia nas paixões mais selvagens. Alípio fechou a porta dos olhos, impedindo ao espírito a possibilidade de seguir aquelas crueldades. Oxalá tivesse também tapado os ouvidos! Pois foi violentamente sobressaltado por forte clamor de toda a multidão. devido à queda de um lutador; vencido pela curiosidade e julgando-se capaz de dominar e vencer a cena, qualquer que fosse, abriu os olhos. Foi então atingido na alma por um golpe mais forte que o recebido no corpo pelo gladiador que havia desejado contemplar, e caiu mais miseravelmente do que aquele cuja queda suscitara tamanho clamor. Aqueles gritos entraram-lhe pelos ouvidos e lhe abriram os olhos, por onde foi ferida aquela alma, mais audaciosa do que resoluta, e tanto mais fraca quanto mais havia confiado em si mesma, de preferência a confiar somente em ti. Logo que viu aquele sangue, saboreou no mesmo instante a violência e não mais desviou o olhar, seguindo com atenção e assimilando inconscientemente aquelas crueldades; sem o saber, se deleitava com essas lutas criminosas, ébrio de sangrenta volúpia. Já não era o mesmo que tinha chegado ao circo, e sim mais um na turba a que se juntara, igual aqueles pelos quais se deixara arrastar. Que mais dizer? Presenciou o espetáculo, gritou, entusiasmou-se, e levou desse lugar um frenesi que o aguilhoava a voltar, não mais arrastado pelos amigos, mas à frente deles e arrastando ainda outros atrás de si. Mas tu, com mão forte e misericordiosa, o libertaste daquele estado e o ensinaste a confiar em ti, mais do que em si mesmo. Mas isto só aconteceu muito tempo depois.
9. ALÍPIO APRENDE À PRÓPRIA CUSTA A NÃO JULGAR APRESSADAMENTE OS HOMENS
14 No entanto, Alípio retinha essa lembrança na memória, como remédio para o futuro. Outro fato também lhe aconteceu quando era meu aluno em Cartago. Certa vez, por volta do meio-dia, ele estava no foro, meditando sobre um discurso que deveria fazer em aula, segundo o costume que os estudantes tinham de se exercitarem, quando permitiste que os guardas do foro o prendessem como ladrão. Parece-me que o permitiste, ó meu Deus, para que ele, destinado a tornar-se pessoa importante, começasse desde então a aprender que, no julgar uma causa, um homem não deve apressar-se em condenar outro homem com temerária credulidade.
Alípio passeava sozinho diante do tribunal, tendo em mãos as tábuas e o estilete, quando um dos jovens estudantes, o verdadeiro ladrão, trazendo consigo um machado, e sem que Alípio o percebesse, aproximou-se furtivamente das grades de chumbo que dominam a rua dos banqueiros, e começou a cortá-las. Ouvindo de dentro o rumor, os banqueiros que estavam embaixo se puseram a confabular e mandaram gente para prender a quem encontrassem. Ao ouvir as vozes, o ladrão fugiu, abandonando o machado, para não ser apanhado em flagrante. Alípio, que não o vira entrar, notou-o enquanto saía e, movido pela curiosidade de saber por que razão fugia com tanta pressa, entrou e viu o machado. Espantado, se põe a examiná-lo quando chegam os guardas. Encontrando-o só e com o instrumento na mão, o prendem e o levam consigo, gloriando-se diante dos moradores do lugar, que acorriam, de terem apanhado o ladrão em flagrante, e vão entregá-lo à justiça.
15 Mas, para Alípio, a lição deveria terminar aqui, pois tu, Senhor, vieste imediatamente em auxílio da inocência que apenas tu conhecias. Enquanto era conduzido à prisão e ao suplício, encontraram o arquiteto superintendente dos edifícios públicos. Os guardas que haviam prendido Alípio se alegraram ao encontrá-lo, pois ele costumava acusá-los de furtos acontecidos no foro; iria enfim conhecer o autor. Mas, o arquiteto já tinha visto Alípio muitas vezes em casa de um senador, a quem freqüentemente o arquiteto visitava. Reconhecendo-o, chamou-o de lado e lhe perguntou a causa do tumulto. Ouvindo o que se tinha passado, ordenou à multidão ameaçadora que o seguisse, e assim chegaram à casa do jovem que era o verdadeiro ladrão. A porta da casa havia um escravo, tão novo e ingênuo, que não suspeitou que iria prejudicar seu patrão relatando tudo. De fato, o escravo tinha acompanhado o jovem ao foro. Alípio o reconheceu e disso avisou o arquiteto; este, mostrando o machado ao menino, perguntou-lhe a quem pertencia. "É nosso", respondeu ele. Em seguida, diante das outras perguntas, contou também todo o resto. Assim se transferiu a acusação para aquela casa, sob a confusão da multidão que já triunfava contra Alípio. O futuro dispensador da tua palavra e juiz de tantas causas em tua Igreja, saiu dessa mais experiente e instruído.
10. RETIDÃO DE ALÍPIO E SEDE DE VERDADE EM NEBRÍDIO
16 Em Roma encontrei Alípio, que muito se afeiçoou a mim e comigo partiu para Milão, não só para não me abandonar, mas para se exercitar em Direito, seguindo mais o desejo dos pais que a própria inclinação. Já por três vezes fora assessor jurídico, demonstrando uma integridade que suscitava a admiração dos colegas. De sua parte, ele se admirava ainda mais ao ver que eles colocavam a ambição do dinheiro acima da honestidade. Seu.caráter foi posto à prova, não só pela sedução do dinheiro, como também pelo aguilhão das ameaças. No tempo em que trabalhava em Roma como assessor do administrador do tesouro imperial da Itália, havia um senador muito poderoso cuja influência se fazia sentir através de favores ou intimidações. Desejava que lhe fosse consentido algo ilegal, como costumam fazer os poderosos Alípio recusou. Então lhe prometeu uma recompensa, que Alípio rejeitou. Fizeram-lhe ameaças que não o atemorizaram. Todos lhe admiravam a coragem incomum, indiferente à amizade e imperturbável diante da inimizade de homem tão poderoso e tão conhecido pelas infinitas possibilidades, tanto de ajudar como de prejudicar as pessoas. O próprio juiz, de quem Alípio era conselheiro, contrário também às reivindicações do senador, não ousava, no entanto, opor-se-lhe abertamente. Transferia para Alípio a responsabilidade, declarando a impossibilidade de atender ao pedido, por culpa deste. Caso acedesse - dizia ele, e era verdade, - Alípio pediria demissão.
Uma só paixão por pouco não o seduzira - a literatura - pela qual foi tentado a fazer transcrever alguns manuscritos com dinheiro do tribunal. Mas, consultando os princípios da justiça, mudou para melhor sua resolução, persuadido de que a retidão que lhe proibia tal ação era melhor do que o poder que lhe permitia.
Foi um fato sem grande importância, mas, quem é fiel nas coisas pequenas é fiel também nas grandes (1). E nunca será sem sentido o que saiu da tua boca de verdade: Se não fostes fiéis no dinheiro iníquo, quem vos confiará o verdadeiro bem? Se não fostes fiéis em relação ao bem alheio, quem vos dará o vosso (2)?
Tal era o homem que estava a meu lado, e que comigo hesitava em decidir sobre o gênero de vida que devíamos abraçar.
17 Nebrídio também deixara sua terra natal, vizinha de Cartago, e a própria Cartago, que freqüentemente visitava. Abandonara a rica propriedade do pai, a casa, e a própria mãe, que não o quis seguir, e veio para Milão, unicamente para viver comigo na busca apaixonada da verdade e da sabedoria. Investigador apaixonado da felicidade humana, perscrutador agudo dos problemas mais difíceis, ele suspirava como eu, e como eu, também ele oscilava. Éramos como três famintos que desabafam entre si a própria miséria e que esperam de ti o alimento em tempo oportuno (3). A cada amargura que, por tua misericórdia, se seguia a nossas atividades mundanas, perguntávamos para que serviam nossos sofrimentos. Mas nada encontrávamos, senão trevas. Voltávamos a gemer e dizíamos: "Até quando?" Todavia, apesar de repetirmos freqüentemente essas palavras, não abandonávamos esse tipo de vida, porque, se abandonássemos, faltaria para nós a luz de uma certeza a que nos' pudéssemos agarrar.
1 Lc 16,10
2 Lc 16,11
3 Sl 104,27;142,15
11. PERPLEXIDADES DE AGOSTINHO
18 Eu sentia grande e ansiosa perplexidade ao lembrar-me do longo tempo decorrido desde os meus dezenove anos (1), quando sentira pela primeira vez o amor da sabedoria, e já estava resolvido, uma vez que a encontrasse, a abandona.r todas as ilusórias esperanças da vaidade e as falsas loucuras das paixões. Chegava eu aos trinta anos e continuava preso ao mesmo lodo, ávido de gozar os bens presentes que me fugiam e que me dissipavam. Enquanto isso, repetia: "Amanhã encontrarei a sabedoria; ela se manifestará a mim com clareza; então eu a possuirei. Fausto virá e tudo explicará. Ó grandes mestres da Academia! Nada se pode ter como certo para a conduta da vida?" (2) Mas não! Busquemos com mais diligência e não desesperemos. De fato, as passagens dos Livros Sagrados que pareciam absurdas, já não o são: já é possível entendê-las de maneira diferente e digna. Firmarei os pés no degrau em que meus pais me colocaram quando criança, até encontrar a verdade clara. Mas onde buscá-la? E quando? Ambrósio não tem tempo para ouvir-me, eu não tenho tempo para ler. Além disso, onde encontrar os livros? Quando e como obtê-los? E a quem pedi-las? Mas tenho que achar tempo, tenho que re partir as horas, para ocupar-me com a salvação da minha alma. Eis que surge uma grande esperança: a fé católica não ensina o que pensávamos nem aquilo de que, sem fundamento, a acusávamos. Quem a conhece bem julga heresia imaginar Deus encerrado nos limites de um corpo humano. Por que hesito ainda em debater, para que me sejam abertas as outras verdades? Os discípulos ocupam minhas horas matinais; mas que faço eu nas outras horas? Por que não me dedico a esse trabalho? Quando irei visitar os amigos importantes, de cujo auxílio necessito? Quando irei preparar as lições que os alunos me pagam? Enfim, quando hei de restaurar as forças, libertando o espírito da tensão de tantas preocupações?
19 Pereça tudo isso, abandonemos todas essas vãs frivolidades. Dediquemo-nos inteiramente à busca da verdade. A vida é infelicidade, a hora da morte é incerta. Esta surge de repente: e eu, em que condições deixarei este mundo? Onde poderei aprender o que nesta vida negligenciei saber? Não terei antes que pagar com duras penas essa negligência?
E se a própria morte pusesse fim a todas essas preocupações, tirando-me também os sentidos? Também este é um problema a ser examinado.
Não, longe de mim semelhante hipótese. Não é sem motivo que os outros ensinamentos da fé cristã se irradiam por toda a terra. Deus não realizaria para nós tantas maravilhas, se com a morte do corpo acabasse também a vida da alma. Por que não me decido então a abandonar as esperanças do mundo para dedicar-me inteiramente à busca de Deus e da verdadeira felicidade?
Mas, um momento! Os bens terrenos também são agradáveis, também eles têm uma doçura que não é pequena! É preciso que sejamos prudentes ao nos afastarmos deles, pois uma recaída seria vergonhosa. Eis-me chegado ao ponto de ocupar um cargo honroso. Que mais haverá a desejar? Disponho de bom número de amigos poderosos. Sem me apressar demais, posso chegar, no mínimo, a uma presidência de tribunal. Depois, será conveniente casar-me com mulher possuidora de alguma fortuna, para não sobrecarregar os meus gastos, e a isso se limitariam meus desejos. Muitos homens ilustres e dignos de imitação conseguiram dedicar-se ao estudo mesmo na vida matrimonial.
Enquanto assim pensava, e os ventos contrários se aproximavam e me impeliam o coração de um lado para outro, o tempo passava, e eu tardava em converter-me ao Senhor. Adiava de dia para dia a decisão de viver em ti, e não adiava um só dia a morte cotidiana em mim mesmo. Queria viver feliz e temia procurar a felicidade onde ela está. Fugia dela, e ao mesmo tempo a procurava. Parecia-me grande infelicidade privar-me do abraço de uma mulher, e não pensava no remédio que contra esta fraqueza nos proporciona tua misericórdia, pois nunca fizera a experiência. Pensava que a continência dependesse apenas de nossas forças, e eu achava que não as possuía. Era insensato, a ponto de não saber, como diz a Escritura (3), que ninguém pode ser continente, se tu não lhe concedes tal dom. E tu o terias concedido a mim, se meus gemidos te houvessem ferido os ouvidos; se eu houvesse lançado aos teus pés, com extrema confiança, todas as minhas angústias (4).
1 Cf. livro III, cap 4.
2 Cf. Cícero, Accad. 2, 6; 10, 31.
3 Cf. Mt 19,11-12.
4 Cf. 51 55,23.
2. O PROBLEMA DO MATRIMÔNIO
21 Na verdade, Alípio me desaconselhava casar, repetindo-me constantemente que, se o fizesse, já não poderíamos dedicar-nos juntos, com tranqüilidade, à procura da sabedoria, como há tanto tempo o desejávamos. Ele era admirado por observar uma castidade perfeita, tanto mais que, tendo iniciado nos primeiros anos da juventude a experiência sexual, a ela não se apegou; sentiu, pelo contrário, arrependimento e desgosto, passando desde então a viver na perfeita continência. Eu lhe opunha os exemplos de tantos que, embora casados, tinham cultivado os estudos, tinham obtido mérito diante de Deus e conservado fielmente a amizade aos amigos. Eu, porém, estava longe de tal grandeza de alma. Escravo da carne, arrastava minhas cadeias com mortal volúpia, temendo que se quebrassem, e repelia, como se viesse a tocar-me na chaga, a mão de quem queria libertar-me, dando-me bons conselhos.
Ademais, e por meu intermédio, a serpente falava a Alípio (1), enlaçava-o e servia-se da minha palavra para semear no seu caminho suaves armadilhas e assim enredar-lhe os pés honestos e livres.
22 Pela estima que me dedicava, ele se admirava de que eu estivesse preso ao visco do prazer, a ponto de lhe afirmar, sempre que discutíamos o assunto, ser-me absolutamente impossível levar vida celibatária. Diante de seu espanto, defendia-me dizendo que havia grande diferença entre sua experiência furtiva e momentânea, da qual praticamente não se recordava - e que podia portanto ser facilmente desprezada - e o caráter habitual dos meus prazeres. Se a estes fosse acrescentado o honesto título de matrimônio, ele não mais se admiraria de que eu não pudesse renunciar àquela vida.
Começou então ele mesmo a desejar o matrimônio, não tanto vencido pela atração do prazer, quanto por certa curiosidade. Dizia que desejava saber que felicidade era essa, sem a qual minha vida, que tanto lhe agradava, não mais pareceria vida, e sim tormento. Livre desse laço, ficava estupefato diante da minha servidão, e isso o estimulava a fazer a experiência. E talvez tivesse caído na mesma escravidão, que no momento lhe causava espanto, pois queria fazer um pacto com a morte (2); e quem ama o perigo, nele perecerá (3).O fato é que 'apenas superficialmente nos interessava a dignidade do matrimônio, que consiste no dever de levar vida em comum e educar os filhos. Eu, realmente, era escravizado e atormentado pelo hábito de saciar uma insaciável concupiscência, e ele era arrastado ao cativeiro por sua vã curiosidade.
Tal era o nosso estado até que tu, Altíssimo, não abandonando nossa baixeza e tendo piedade de nossa miséria, vieste em nosso auxílio de modo admirável e oculto.
1 Cf. Gn 3.1.
2 Cf. Is:8.18.
3 Cf. Eclo 3.27.
13. NOIVADO DE AGOSTINHO
23 Entretanto, insistiam constantemente para que eu me casasse. Já havia pedido uma jovem em casamento e recebera a promessa. Quem mais trabalhava neste sentido era minha mãe, com a idéia de que, uma vez casado, seria purificado pela água salutar do batismo. Alegrava-se de me ver cada vez mais disposto para o receber, notando que na minha fé se realizavam seus desejos e tuas promessas. A meu pedido e por desejo seu, ela te suplicava ardentemente todos os dias que revelasses algum sinal sobre o meu próximo matrimônio, mas tu não quiseste escutá-la. Tinha ela no entanto, visões provocadas no seu espírito pela força dessa preocupação. E me contava isso, não com a habitual confiança de quando tinha uma revelação tua, mas até com certo desprezo. Ela dizia que sabia discernir, não sei por qual sabor especial (não conseguia explicá-la com palavras), a diferença entre aquilo que lhe revelavas e os sonhos de sua imaginação. Todavia, insistia junto a mim nesse matrimônio, e foi feito o pedido formal da jovem. Faltavam-lhe ainda dois anos para a idade núbil (1), mas, por ser do agrado de todos, ia-se esperando.
1 Teria provavelmente apenas 10 anos, pois o direito romano de Justiniano fixava os 12 anos completos como idade núbil.
14. PROJETOS DE VIDA EM COMUM
24 Éramos muitos os amigos que, sentindo aversão pelos aborrecimentos e tumulto da vida social, tínhamos discutido, projetado, e já quase decidido, retirarmo-nos para vivermos em meditação longe do mundo dos homens. Tínhamos organizado o nosso retiro, de modo a colocar em comum os bens que possuíamos, formando assim um patrimônio único. Entendíamos que, diante da sincera amizade que nos unia, nada deveria pertencer a este ou àquele. Tudo deveria ser de todos e de cada um. Parecia-nos ser possível reunir numa única sociedade uma dezena de pessoas, algumas muito ricas, sobretudo Romaniano, meu conterrâneo e grande amigo desde a infância. Problemas relativos a seus negócios o conduziram até a corte (1). Ele, mais que os outros, insistia nesse projeto, e sua insistência fortalecia nossa idéia, pelo fato de ser ele possuidor de enorme fortuna, muito superior à de todos os outros. Tínhamos estabelecido que dois de nós, cada ano, corno verdadeiros magistrados, administraríamos a comunidade, deixando tranqüilos os demais.
Mas, quando se procurou imaginar como seria tal idéia recebida pelas esposas - que alguns já tinham e outros, como eu, desejavam ter - o plano, tão bem formulado, se desfez em nossas mãos, despedaçou-se e foi abandonado.
Retornamos assim aos suspiros e gemidos, e voltamos a percorrer os largos e trilhados caminhos do século (2), porque muitos eram os nossos planos (3), mas o teu plano permanece eternamente (4). De fato, rias de nossas resoluções e preparavas as tuas, aguardando o momento oportuno para dar-nos o alimento e abrires a mão para saciar-nos com tuas bênçãos (5).
1 No período da tetrarquia, Milão era uma
das capitais do Império e sede de um dos imperadores.
2
Cf. Mt 7,13.
3 Cf. Pr 19,21.
4 Cf. SI 33,11.
5 Cf. SI 145,155.
15. ESCRAVO DO PRAZER
25 No entanto, multiplicavam-se os meus pecados. Quando de mim foi arrebatada a mulher com quem vivia, considerada impedimento ao meu casamento, meu coração, que lhe era afeiçoadíssimo, ficou profundamente ferido e sangrou por muito tempo. Ela voltou para a África fazendo a ti o voto de jamais pertencer a outro homem e deixando para mim o filho que me havia dado. Mas eu, infeliz, fui incapaz de imitar a esta mulher! Eu não conseguia suportar a espera de dois anos para receber a esposa que tinha pedido. Na realidade eu não amava o matrimônio; eu era, sim, escravo do prazer. E tratei de arranjar outra mulher, não como esposa legítima, para manter e alimentar intacta ou agravar a doença da minha alma até o casamento, e aí chegar sem haver interrompido meus hábitos.
No entanto, não cicatrizara ainda a ferida aberta pela separação de minha companheira. Mas, após o momento da dor mais pungente, a ferida gangrenava e me fazia sofrer, talvez menos agudamente, porém, com maior desesperança de cura.
16. DISCUTE COM OS AMIGOS O SUMO BEM E O SUMO MAL
26 Louvor e glória a ti, que és a fonte de todas as misericórdias!
Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu te aproximavas sempre mais de mim. Tua destra estava junto a mim para arrancar-me do lodo e lavar-me, e eu nada percebia. Nada conseguia impedir que eu me afogasse no abismo dos prazeres carnais, a não ser o temor da morte e do teu futuro juízo que, mesmo através das diversas doutrinas, nunca abandonava o meu espírito.
Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio sobre o fim dos bons e dos maus (1). No meu conceito, Epicuro teria recebido a palma, se eu não acreditasse que, depois da morte, a alma vive e leva os méritos consigo, o que Epicuro negava. E me indagava: se fôssemos imortais e vivêssemos num perpétuo prazer do corpo, sem temor de perdê-lo, por que não seríamos felizes? Que coisa mais seria preciso procurar? Eu não estava percebendo que nisso consistia a minha miséria. Imerso no vício e cego como estava, não conseguia pensar no esplendor da luz e da beleza, desejáveis por si mesmas, invisíveis aos olhos do corpo e só percebidas no íntimo da alma. Na minha miséria, nem sequer considerava de onde me vinha prazer em conversar com os amigos sobre assuntos tão vergonhosos. Sem amigos, eu não podia ser feliz, nem mesmo no sentido que dava então a esta palavra, apesar da grande abundância de prazeres carnais. Eu não amava esses amigos por interesse, e também eles me amavam desinteressadamente. Oh! caminhos tortuosos! Ai do homem temerário que, afastando-se de ti, pensa encontrar algo bem melhor! Quer se volte ou revire para trás, para os lados ou para a frente, todas as posições lhe são incômodas, pois só em ti acha tranqüilidade: Mas eis que estás aqui, e nos libertas dos erros deploráveis, nos confortas e nos conduzes por teus caminhos, dizendo-nos: Correi, eu vos sustentarei (2), e vos conduzirei até o fim, e aí vos hei de manter.
1 Cícero. De fin. 1.11.
2 Cf. Is 46.4.