Notícias eclesiais
Mensagem Quaresmal do Bispo de Coimbra
Em nota pastoral recentemente aprovada por todos os Bispos, afirma-se que "uma acentuada mutação cultural" está a marcar a vida dos portugueses e os seus costumes. Esta mudança de valores, de interesses e de comportamentos resulta de várias causas, entre elas o desinteresse em se "interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano", bem como "o individualismo no uso da liberdade".
Os ventos da superficialidade e do materialismo individualista também nos influenciam a nós, cristãos, levando-nos inconscientemente para uma vida que, por vezes, de cristão só tem a casca, as tradições, os hábitos rotineiros...
"Eis agora o tempo favorável", assim reza a liturgia do início da Quaresma, o tempo favorável para mudarmos, para procurarmos o essencial da nossa vida cristã, o seu miolo, a sua verdade fundamental. Preparar e viver a Páscoa é o caminho para voltarmos ao essencial. Porque o essencial do cristianismo é sermos unidos a Jesus Cristo, morrendo com Ele para os nossos pecados e ressuscitando diariamente com Ele para uma vida de fé e de amor generoso.
O Santo Padre diz-nos isto mesmo na sua mensagem para a presente Quaresma. Ser cristão é sentir-se amado por Deus, de tal modo que esse amor divino nos leve a mudar radicalmente a nossa vida para lhe correspondermos.
Por isso, a primeira conversão que precisamos de fazer é a de sermos mais fiéis à oração. Cristão que não reza nunca atingirá o miolo da sua fé. O Papa convida-nos a que, nesta Quaresma, a nossa oração seja predominantemente contemplar o crucifixo e assim nos deixarmos tomar pela paixão de amor que Deus nos tem.
E acrescenta: "A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é antes de tudo que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor não é suficiente. É preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros".
Que estas palavras do Santo Padre nos ajudem, a todos os cristãos da Diocese de Coimbra, a vivermos o caminho quaresmal de tal modo que ele nos leve a sermos crentes tomados pelo essencial da nossa fé: o amor. Na oração diante do crucifixo beberemos esse amor e aprofundaremos o real "sentido da vida e as questões primordiais do ser humano"; no cuidado em amar o próximo, corresponderemos ao que o Senhor nos pede, corrigindo os ventos do "individualismo no uso da liberdade".
Como gesto de amor aos irmãos, gesto que nos estimule e nos una, proponho aos cristãos da Diocese de Coimbra que ao longo da Quaresma traduzam em oferta de dinheiro as suas renúncias e penitências, oferta que enviaremos para casas e instituições que acolhem e ajudam mães em dificuldades por causa da sua maternidade.
Que estes caminhos de Quaresma conscientemente vivida nos conduzam a uma comunidade de cristãos que, na nova cultura para onde a mudança nos leva, sejam de verdade "sal da terra"e "luz do mundo".
Albino M. Cleto
In: "O Amigo do Povo"
Igreja apela à generosidade
Renúncias quaresmais das várias Dioceses portuguesas centradas em projectos de apoio à maternidade e na ajuda aos países lusófonos
O início da Quaresma significou, para as várias Dioceses de Portugal, um tempo de renovado compromisso em favor dos mais necessitados, estejam eles longe ou perto.
As Mensagens e Notas Pastorais da Quaresma dos Bispos diocesanos apresentam uma série de Obras e Instituições a serem apoiadas pela generosidade dos seus fiéis.
Uma atenção especial é dedicada ao apoio para grávidas em dificuldade e à maternidade. Aveiro, Beja, Guarda, Setúbal e Viseu destinam parte das renúncias quaresmais a este fim, particularmente significativo após a realização de um referendo ao aborto no nosso país.
Como em anos anteriores, são também muitos os apelos que chegam desde países lusófonos. Para a Guiné-Bissau seguem contributos de Aveiro, Portalegre-Castelo Branco e Santarém; Para Angola, unem-se os esforços de Leiria-Fátima, Santarém e Viana do Castelo.
Os dramas da população moçambicana motivaram apelos dos Bispos do Funchal, Setúbal e das Forças Armadas e de Segurança. Genericamente, a Diocese da Guarda destina uma parcela da renúncia quaresmal "às Igrejas Irmãs dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa".
Não sendo um país lusófono, mas com fortes ligações a Portugal, a Índia recebe a atenção das Diocese de Beja, Braga, Porto e Vila Real. As Dioceses de Meliapor e Malaca foram, de facto, da responsabilidade do nosso país, ao longo de muitos séculos, e esses vínculos são reforçados através deste esforço de solidariedade.
As iniciativas da Santa Sé também merecem o apoio das Dioceses portuguesas: de Évora sai um apelo em favor da "Ajuda às Crianças do Mundo" e, do Porto, seguem donativos para a Fundação "Bom Samaritano", que trata dos infec-tados pela SIDA/HIV.
Em Lisboa, os resultados desta recolha quaresmal destinam-se ao "Fundo Dioce-sano de Ajuda Inter-Eclesial", que procura responder aos pedidos de ajuda que chegam de todo o mundo.
A solidariedade também tem lugar dentro de portas: a Diocese de Angra decidiu destinar a Renúncia Quaresmal deste ano à Diocese de Bragança-Miranda, sendo que os fiéis de Beja também irão contribuir para um projecto que se realiza em Portalegre.
Para além dos casos em que a renúncia de destina a projectos de âmbito diocesano, parte de todos os contributos segue para o Fundo de Solidariedade Eclesial da Conferência Episcopal Portuguesa, com o qual o organismo episcopal atende as solicitações que lhe chegam de outras Igrejas, particularmente dos países lusófonos.
Quaresma - tempo de transformação social
Acácio Catarino lembra que a identidade própria desta quadra é o aprofundamento da conversão permanente
Com razão, a quadra da Quaresma foi sempre considerada um grande retiro de ascese cristã e de revisão de vida. Mas ocorre perguntar: não será também um tempo inspirador de transformação social?
A resposta é claramente afirmativa, e não constitui novidade hoje em dia. Com efeito, a identidade própria desta quadra é o aprofundamento da nossa conversão permanente; e esta inclui a vertente social, como elemento inalienável.
Vários são os momentos que, desde o início da Quaresma até à Páscoa, nos convidam à mudança social. Todos os dias, particularmente os domingos, contêm mensagens fortes neste sentido. Relevo aqui, tão só, a Quarta-Feira de Cinzas e a Sexta-Feira Santa.
A cerimónia das Cinzas contém, além do mais, três apelos de forte conteúdo social: o da igualdade, o da relatividade e o da alteração de procedimentos e estruturas sociais.
A mensagem da igualdade é inerente ao facto de as Cinzas se destinarem a todos os cristãos, sem discriminações, tornando insensatas quaisquer pretensões de superioridade. A mensagem da relatividade, ou da nossa não divindade, torna-se patente na recordação de que somos "pó"; até se pode acrescentar que, só por nós próprios, nem "pó" seríamos.
Em conformidade com tudo isto, a vivência das Cinzas incita-nos à transformação de nossos procedimento e das estruturas sociais, de modo que seja sempre respeitada a igual dignidade de todas as pessoas; particularmente, evitando o apego excessivo aos bens terrenos e a concentração abusiva dos mesmos.
A Sexta-Feira Santa convida-nos à solidariedade com todas as pessoas e povos que sofrem a "paixão e a morte" resultantes de carências, exclusões, injustiças e violências que proliferam em todo o mundo. Interpela-nos, mais precisamente, a que não separemos a "paixão e morte de Cristo" da "paixão e morte" permanente verificada em todo o género humano, nem vice-versa.
Em termos operacionais, o que é que podemos visar com a nossa conversão quaresmal? - Naturalmente, isso varia bastante de pessoa para pessoa, família, paróquia, instituição, movimento, etc. No entanto, parece altamente recomendável a interiorização e actualização do modelo das primeiras comunidades cristãs. Parece também recomendável a renovação e aprofundamento dos nossos compromissos sociais e, eventualmente, a escolha de outros.
Bom seria, enfim, que todos nos comprometêssemos a participar no "grande movimento empenhado na defesa da pessoa humana". Este convite vem-nos de João Paulo II, na encíclica "Centesimus Annus", nº 3, e pode representar uma viragem decisiva na intervenção social dos cristãos.
Acácio F. Catarino
II Jornadas de Espiritualidade Missionária
Cerca de 500 pessoas participaram, em Fátima, de 23 a 25 de Fevereiro, nas II Jornadas de Espiritualidade Missionária. A Família Espiritana quis, com este evento, celebrar os 70 anos da Liga Intensificadora da Acção Missionária (LIAM).
Na conferência de Abertura, o P. José Manuel Sabença, Superior Provincial dos Espiritanos, apresentou as ‘experiências-chave da Vocação Espiritana’. A noite de sexta-feira terminou com uma vigília de oração orientada pelos Jovens Sem Fronteiras.
‘Convidamos o Bispo Auxiliar de Lisboa e temos hoje connosco o Bispo do Porto’ – brincou o moderador da mesa quando apresentou D. Manuel Clemente, recebido com uma grande ovação. Abordou o tema ‘Espírito Santo, protagonista da Missão’. Fez uma visita guiada ao Capítulo III da ‘Missão do Redentor’, encíclica missionária de João Paulo II. Disse à assembleia que a boa Missão é quando parece impossível. Ali é que ‘cheira’ a Evangelho. É normal que os missionários sejam sempre poucos. Na Missão há sempre uma desproporção, porque o Reino de Deus é fermento e grão de mostarda. No fim desta sessão, D. Serafim Silva, Bispo Emérito de Fátima, brindou os presentes com a frase: ‘Tenho dentro de mim a LIAM há muitos anos’.
O primeiro painel das Jornadas foi sobre as Raízes da Família Espiritana: os dois fundadores dos Espiritanos, a fundadora das Espiritanas e os dois Espiritanos já beatificados.
A manhã terminou com a Eucaristia na Capelinha das Aparições, presidida pelo Provincial dos Espiritanos.
A jornalista Laurinda Alves cativou a assembleia com o seu testemunho de vida cristã e de cidadania, falando do tema ‘Maria nos Caminhos da Missão’. Foram muitas as intervenções dos participantes. Seguiu-se o painel que apresentou o retrato da família espiritana: os Leigos Associados, as Fraternidades, o Movimento Missionário de Professores, os Antigos Seminaristas, o Voluntariado e os Jovens Sem Fronteiras puderam, na pessoa dos seu líderes, dizer como partilham a espiritualidade espiritana.
A noite foi de Vigília de Oração dirigida pelo Renovamento Carismático.
O último dia foi todo dedicado à LIAM: o P. Adélio Torres Neiva (autor do livro da História da LIAM) e a direcção laical (Hildeberto Maia e M. Lurdes Rossas) falaram presente e dos desafios que o futuro lança a este Movimento Missionário. Foi apresentada a História da LIAM.
As II Jornadas de Espiritualidade Missionária encerraram com a Eucaristia em que todos receberam uma ‘bilha de artesanato’, uma vez que a Fonte foi o grande símbolo desta Encontro. No momento de Acção de Graças, a primeira ‘bilha’ foi para a Dª. Lourdes Quartilho que, em 1944, foi a primeira Presidente da LIAM de Rio Maior. Com um brilhozinho nos olhos, veio ali contar como tudo aconteceu há 63 anos e dar graças a Deus pelo facto da LIAM ser tão importante na sua vida.
A Assembleia recebeu uma Carta do P. J. Paul Hoch, Superior Geral, enviada de Roma. Na hora de partir, os representantes dos 313 grupos da LIAM levaram a mensagem que, enquanto este Movimento for obra do Espírito, terá presente e terá futuro.
Tony Neves
Cáritas em luta contra as desigualdades
Desafios ao trabalho da organização católica, presente em todo o país, lançados em Conselho Geral
A Cáritas Portuguesa foi desafiada a trabalhar em favor da educação para a cidadania, criando condições para um desenvolvimento sustentável. Este desafio foi lançado no Conselho Geral da Cáritas Portuguesa, este fim de semana, por Manuela Silva da Comissão Nacional Justiça e Paz que reflectiu sobre o tema da Semana Nacional da Cáritas e proposto também pela União Europeia.
"Pela Dignidade, Igual Oportunidade" serviu de mote para desenvolver orientações e sugestões para uma prática caritativa quer a nível nacional quer concretamente nas dioceses.
"O grande desafio vai no sentido de perceber as causas da pobreza e as causas que geram as desigualdades", apontou à Agência ECCLESIA, Isabel Monteiro, Presidente interina da Cáritas Portuguesa. Outro desafio lançado vai no sentido da reflexão. "Perceber os estigmas e preconceitos da sociedade que não deixam avançar efectivamente para uma igualdade de oportunidades para todos", sublinha. A igualdade de oportunidades "é um meio para a criação de um desenvolvimento sustentável e de uma cidadania activa e consciente" e para os cristãos o desafio é ainda maior, "pois pede-nos uma coerência com os valores que professamos", manifesta a Presidente interina..
A educação, a saúde são direitos fundamentais consagrados na Constituição, mas trata-se de focar o problema "na educação". "Esta deve ter no horizonte a cidadania, começando nas crianças e nas famílias". São desafios lançados para tornar a Cáritas "mobilizadora de desenvolvimento, para criar uma consciência cristã esclarecida, efectivamente interventiva na sociedade portuguesa e com maior incidência nas comunidades cristãs", manifesta Isabel Monteiro.
Compete agora às Cáritas diocesanas ter estes desafios em consideração e lançar pistas para concretizar estes objectivos, "algumas estão já atentas a estas questões, mas queremos estar em constante transformação e conversão".
Crianças assinalaram festa dos Pastorinhos
No passado sábado dia 24 de Fevereiro, mais de uma centena de crianças participou nas actividades promovidas pelo Museu de Arte Sacra e Etnologia de Fátima no âmbito das comemorações do "Dia dos pastorinhos".
As crianças foram recebidas por dois simpáticos anjos que lhe projectaram um filme animado sobre as histórias dos videntes de Fátima. Visitaram a "Sala dos Pastorinhos" onde puderam observar o barrete do Francisco e de seu pai, o Ti Marto, seguindo depois para o atelier "Nas nuvens com os Anjos" onde lhes foi narrado um conto inspirado na história de Tobias e do seu Anjo da Guarda.
Além disto, fizeram-se depois dos jogos de descoberta onde foi testada a atenção dos mais pequenos ao visitarem a exposição temporária "Sou o Anjo da Paz" patente neste museu dos Missionários da Consolata por ocasião dos "90 anos das Aparições".
Organizada por dois alunos estagiários do Curso Técnico de Património Cultural da Escola de Artes e Ofícios Tradicionais da Batalha, esta iniciativa visou assinalar o dia dos pastorinhos, com a sua festa litúrgica de 20 de Fevereiro.
Bens Culturais da Igreja
Irá decorrer no próximo dia 9 de Março, em Fátima, mais um encontro de responsáveis diocesanos pelos bens culturais da Igreja, aberto também à participação dos vigários gerais.
O Encontro terá com tema "Comissão Bilateral Estado-Igreja: missão e cooperação" e contará com a presença dos representantes da Igreja naquele organismo, tendo como objectivo debater e recolher as carências, dificuldades, impasses, bem como as boas soluções experimentadas para a resolução dos problemas que se colocam à Igreja, nas suas diversas e múltiplas instituições, na relação com o Estado e seus organismos.
Ao mesmo tempo, procurar-se-á dinamizar as relações orgânicas entre as dioceses e a Comissão Bilateral que, vindo a funcionar, poderá ser uma plataforma de encontro e diálogo entre a Igreja e o Estado.
Em declarações à Agência ECCLESIA o Padre João Lavrador, secretário da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, defende que é preciso reflectir nos perigos que a desvalorização patrimonial pode trazer consigo, com base num levantamento dos problemas com que o património cultural se depara e tomar consciência do valor do património religioso.
"De uma forma geral as dioceses estão todas sensibilizadas para esta questão, mas nem todas estão a desenvolver projectos neste âmbito", afirma.
Este encontro deverá r para também partilhar boas práticas, mas "acima de tudo para que possamos aprender juntos".
A Comissão vai também propor às dioceses várias iniciativas na área do diálogo maior entre fé e cultura. O lema será "Eis o homem", uma rede nacional de iniciativas unindo várias sensibilidades, "seja na linha da fé cristã ou com outras realidades religiosas" e esperam assim poder trazer um maior dinamismo e uma maior intervenção da Igreja na protecção e valorização do património.
Cristãos por opção e não por tradição
A mutação cultural em curso não só na sociedade portuguesa mas na Europa, reuniu os bispos de Coimbra, Aveiro, Viseu, Guarda, Leira-Fátima e Lamego. Na sequência da última Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, houve a constatação de uma "exculturação", referiu à Agência ECCLESIA, D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima e anfitrião deste encontro.
Estas alterações têm repercussões no mundo sacerdotal e episcopal. A mutação cultural "repercute-se ao nível do pensamento", sublinha. Há uma corrente de demissão da cultura cristã, "um esmorecer da memória cristã", que leva à constatação de existir uma "crise de Deus".
O grande problema é "as pessoas não se colocarem diante do mistério de Deus e da transcendência", aponta o Bispo de Leiria-Fátima. "É preciso despertar o ouvido das pessoas" e a cultura pode fazer esta ponte porque "a fé pode também ser geradora de cultura". O diálogo entre fé e cultura é um aspecto "fundamental", assegura D. António Marto.
Esta mutação cultural não é nova para o episcopado português. Em vários documentos "fomos abordando essa questão. Agora foi a «ponta do iceberg»", aponta. A fé cristã vai sendo "minada", aponta o bispo de Leiria Fátima, "fé que se vive muito a nível superficial", o que obrigada a fazer escolhas concretas. "Hoje não se pode ser cristão por tradição, mas por opção, por escolha de quem sabe o que quer e porque o quer", resultando numa fé "consciente, livre e responsável".
Estes encontros são "reuniões de partilha de preocupações e de novas visões", sublinha D. António Marto. Sem pretensão de organizar o país, "por termos uma realidade mais próxima, encontramo-nos para reflectir".
As crianças e os meios de comunicação social: um desafio para a educação
Bento XVI publica mensagem para o 41º Dia Mundial das Comunicações Sociais
Queridos irmãos e irmãs:
1. O tema do 41º Dia Mundial das Comunicações Sociais, «As crianças e os meios de comunicação social: um desafio para a educação», convida-nos a reflectir sobre dois assuntos de imensa importância. A formação das crianças é o primeiro. O segundo, talvez menos óbvio, mas não menos importante, é a formação dos meios de comunicação social.
Os complexos desafios que se apresentam para a educação nos dias de hoje estão frequentemente vinculados à ampla influência dos meios de comunicação social no nosso mundo. Como um dos aspectos do fenómeno da globalização, e facilitados pelo rápido desenvolvimento da tecnologia, os meios de comunicação social modelam profundamente o ambiente cultural (cf. Papa João Paulo II, Carta Apostólica O rápido desenvolvimento, 3). Com efeito, algumas pessoas afirmam que a influência formativa dos meios de comunicação social concorre com a da escola, da Igreja e talvez mesmo do lar. «Para muitas pessoas, a realidade corresponde ao que os mass media definem como tal» (Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Aetatis novae, 4).
2. A relação entre crianças, meios de comunicação social e educação pode ser considerada a partir de duas perspectivas: a formação das crianças por parte dos mass media; e a formação das crianças para que respondam apropriadamente aos mass media. Sobressai um tipo de reciprocidade que indica as responsabilidades dos meios de comunicação social como indústria e a necessidade de uma participação activa e crítica dos leitores, dos espectadores e dos ouvintes. Nesta perspectiva, formar-se no uso apropriado dos meios de comunicação social é essencial para o desenvolvimento cultural, moral e espiritual das crianças.
Como é que se há-de salvaguardar e promover o bem comum? Educar as crianças a serem judiciosas no uso dos mass media é uma responsabilidade que cabe aos pais, à Igreja e à escola. O papel dos pais é de importância primordial. Eles têm o direito e o dever de assegurar o uso prudente dos meios de comunicação social, formando a consciência dos seus filhos a fim de que expressem juízos sadios e objectivos, que sucessivamente há-de de orientá-los na escolha ou rejeição dos programas disponíveis (cf. Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 76). Ao agir deste modo, os pais deveriam contar com o encorajamento e a assistência das escolas e das paróquias, para garantir que este aspecto difícil mas estimulante da educação é apoiado pela comunidade mais vasta.
A educação aos mass media deveria ser positiva. As crianças expostas ao que é estética e moralmente excelente são ajudadas a desenvolver o apreço, a prudência e as capacidades de discernimento. Aqui é importante reconhecer o valor fundamental do exemplo dos pais e os benefícios da apresentação aos jovens dos clássicos infantis da literatura, das belas-artes e da música edificante. Enquanto a literatura popular terá sempre o seu espaço na cultura, a tentação do sensacionalismo não deveria ser passivamente aceite nos lugares de ensino. A beleza, uma espécie de espelho do divino, inspira e vivifica os corações e as mentes mais jovens, ao passo que a torpeza e a vulgaridade têm um impacto depressivo sobre as atitudes e os comportamentos.
Como a educação em geral, a educação aos mass media exige a formação no exercício da liberdade. Trata-se de uma tarefa exigente. Muitas vezes a liberdade é apresentada como uma busca implacável do prazer e de novas experiências. Contudo, isto é uma condenação, não uma libertação! A verdadeira liberdade jamais poderia condenar o indivíduo – especialmente a criança – a uma busca insaciável de novidades. À luz da verdade, a liberdade autêntica é experimentada como uma resposta definitiva ao «sim» de Deus à humanidade, enquanto nos chama a escolher, não indiscriminada mas deliberadamente, tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Assim os pais, como guardiães de tal liberdade, concederão gradualmente uma maior liberdade aos seus filhos, introduzindo-os ao mesmo na profunda alegria da vida (cf. Discurso no V Encontro Mundial das Famílias, Valência, 8 de Julho de 2006).
3. Esta aspiração sincera dos pais e professores de educar as crianças pelos caminhos da beleza, da verdade e da bondade somente pode ser sustentada pela indústria dos meios de comunicação social, na medida em que ela promover a dignidade humana fundamental, o valor genuíno do matrimónio e da vida familiar, e as conquistas e as finalidades positivas da humanidade. Deste modo, a necessidade que os mass media têm de se comprometerem na formação efectiva e nos padrões éticos é considerada com particular interesse e mesmo urgência, não só pelos pais e professores, mas também por todos aqueles que têm um sentido de responsabilidade cívica.
Mesmo quando estamos convencidos de que muitas pessoas comprometidas nos meios de comunicação social desejam realizar o que é justo (cf. Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Ética nas Comunicações, 4), devemos reconhecer também que as que trabalham neste campo enfrentam «pressões psicológicas e dilemas éticos particulares» (Aetatis novae, 19), que por vezes vêem a concorrência comercial impelir os comunicadores para níveis mais baixos. Qualquer tendência a realizar programas e produtos – inclusive desenhos animados e videojogos – que, em nome do entretenimento, exaltam a violência e apresenta comportamentos anti-sociais ou a banalização da sexualidade humana constitui uma perversão, e é ainda mais repugnante quando tais programas são destinados às crianças e aos adolescentes. Como é que se poderia explicar este «entretenimento» aos numerosos jovens inocentes que realmente são vítimas da violência, da exploração e do abuso? A este propósito, todos deveriam reflectir sobre o contraste entre Cristo, que «as tomou [as crianças] nos braços e as abençoou, impondo-lhes as mãos» (Mc 10, 16) e aquele que «escandaliza... estes pequeninos», a quem «seria melhor... que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho» (Lc 17, 2). Uma vez mais, exorto os responsáveis da indústria dos meios de comunicação social a salvaguardarem o bem comum, a promoverem a verdade, a protegerem a dignidade humana de cada indivíduo e a fomentarem o respeito pelas necessidades da família.
4. A própria Igreja, à luz da mensagem de salvação que lhe foi confiada, é também uma mestra de humanidade e valoriza a oportunidade de oferecer assistência aos pais, aos educadores, aos comunicadores e aos jovens. Os seus programas paroquiais e escolares deveriam ocupar um lugar de vanguarda na educação aos mass media nos dias de hoje. Sobretudo, a Igreja deseja compartilhar uma visão da dignidade humana que é central para toda a comunicação humana digna. «Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa» (Deus caritas est, 18).
Vaticano, 24 de Janeiro de 2007, festa de São Francisco de Sales.
A Igreja e o poder
Triunfo e desencanto ocupam algumas das análises ao momento que vivemos. Triunfo de analistas que não escondem o júbilo pelo facto de, com o referendo ao aborto, a Igreja ter sido derrotada, e ao mesmo tempo essa derrota significar o fim do ciclo de domínio na sociedade portuguesa. É um grito de vitória por, finalmente, a sociedade se ter libertado do osbcurantismo e do domínio clerical.
Alguns sectores políticos e religiosos não escondem o desencanto. E pedem à Igreja que recupere o lugar que ocupou na vida social portuguesa. Como que a exigir uma restauração da fé como império, do altar como trono, da hierarquia como poder, da sociedade como redil. Nenhuma destas perspectivas enquadra a Igreja na sua missão essencial e no lugar que deve ocupar na cidade dos homens.
A primeira afirmação da Igreja tem de caracterizar-se pelo serviço a todas as grandes causas do homem, sendo que a primeira é o anúncio da salvação em Jesus Cristo. Da afirmação da fé e das suas incidências, decorrerão todos os planos de presença da Igreja no mundo e do seu lugar na história. Este projecto, como se sabe, não é unívoco e procura em cada tempo interrogar-se sobre os sinais e as respostas mais eficazes e inteligíveis do Evangelho.
Hoje, perante o mundo real, a Igreja posiciona-se com maior liberdade porque independente dos poderes políticos e económicos. Com humildade, por reconhecer que existem outras opções religiosas e outras linhas de procura para os grandes problemas do homem e da história. Mas trabalha no seu terreno específico, proclama com maior vigor os caminhos do Evangelho, dialoga com todos os homens de boa vontade na procura das melhores respostas para as questões mais inquietantes que o mundo de hoje coloca. E lança perguntas sobre temáticas que parecem esclare-cidas e arrumadas.
Não vale a pena alimentar a amargura de poderes perdidos em tronos duvidosos e em paradas que pertencem ao universo profano. Nem esboçar o mais pequeno gesto de saudade pelos velhos impérios. O lugar primeiro e privilegiado da Igreja é o da liberdade. E que deixe o resto para César. Não lhe faz falta.
António Rego