Editorial

Interpreto como um autêntico kairós, isto é, como um tempo especial da graça de Deus misericordioso, que nos visita com a Sua salvação, os três momentos que vou referir.

Em primeiro lugar, destaco a celebração jubilar dos 25 anos de ordenação episcopal de D. Albino Cleto. Acreditando na iniciativa divina, que sempre nos precede e acompanha, não podemos dar-nos à tentação da vanglória, no sucesso do nosso labor apostólico, ou do desânimo, perante as limitações e dificuldades que o trabalho pastoral pode conhecer. E, inquestionavelmente, é uma verdadeira lufada de ar fresco e autêntico dom de Deus, a concessão à Igreja particular de Coimbra da forma peculiar no exercício do munus de pastor como o nosso Bispo se tem caracterizado. Mais do que as suas qualidades e virtudes, verdadeiramente se nota a forma como se tem deixado usar pelo Espírito de Deus, no exercício simples, próximo e familiar, de Cabeça e Pastor em Cristo, à frente do Povo de Deus da nossa Diocese. Por isso nos alertou, na celebração das bodas de prata da ordenação episcopal, para confiarmos mais, além das "ferramentas dos nossos planos e processos, do que no valor da oração e da graça, afecta-nos a tentação do brio e do sucesso que nos leva tantas vezes a trabalhar isoladamente, incomoda-nos as esperas de Deus, marcados que andamos pelo ritmo acelerado dos projectos humanos".

Se esta é uma perspectiva optimista e cheia de esperança, à primeira vista, poderia a próxima apresentar-se no plano contrário. Mas não é essa a minha visão. Mesmo não aprovando alguns comportamentos grosseiros, e mesmo incapacidade do exercício da autoridade, na persistência dos danos verificados no posto emissor da Rádio Vida Nova, uma vez mais, estou convicto de que "Deus escreve direito por linhas tortas". Assim, perante a inevitável alteração dos nossos projectos, tudo está a fazer crer que iremos ficar com uma situação muito melhor que a anterior. E com outra capacidade de melhor servir a comunidade e o Evangelho. Sem entrar em pormenor, porque "o futuro a Deus pertence", a seu tempo se comprovará.

Outra interpelação, vem-nos do tempo litúrgico que agora nos é dado viver: tempo de Quaresma, tempo de conversão, tempo favorável de graça. A Igreja, através da mensagem de Bento XVI, é convidada à prática da oração, da penitência, do amor e da partilha. "Cristo que se fez pobre por vós", lembra o Papa, vai enriquecer-nos com a sua pobreza, fazer de nós um povo solidário que partilha, mesmo na sua penúria. "Não somos proprietários, mas administradores dos bens que possuímos", sugere o Bispo de Roma. E só assim seremos libertos, enriquecidos e salvos. A Diocese de Coimbra vai fazer renúncia quaresmal a favor de meninas pobres em São Tomé e Príncipe, e de Cabo Verde. Não vamos perder a oportunidade de afirmar, na partilha, a nossa pertença ao Corpo de Cristo, em comunhão de irmãos que cresce em Coimbra, em São Tomé ou em qualquer parte do mundo.

Três leituras de momentos distintos, mas com um denominador comum. Deus fala-nos, interpela-nos e desafia-nos. Saibamos aproveitar este tempo favorável que nos é oferecido.

P. Armando Duarte