Na encruzilhada entre o protagonismo e o serviço

 

A presente edição do nosso jornal ultima-se em plena jornada mundial da comunicação social. O tema que o Papa nos propõe coloca os media na encruzilhada, entre diversos desafios, e com um papel decisivo ao serviço das pessoas e da sociedade. Havendo quem discuta que a comunicação social, em vez de procurar a verdade, deve justificar as atitudes pessoais, contudo, antes de mais, é um grande desafio conseguir uma educação para a busca da verdade e da sua partilha, como mensagem anterior nos deixava ficar. E essa é uma verdadeira aposta para a Igreja que deve estar e usar a comunicação social sem hesitações. Mas aqui reside alguma indecisão, que não me parece benéfica. O serviço da pessoa humana, da boa notícia, da Igreja em estado de comunicação, porque a essência da sua missão o exige, deveriam levar-nos, fiéis e pastores, comunidades e sectores, a vencer alguma inércia que esta encruzilhada também provoca.

Enormes problemas são cada vez mais conhecidos, como a exploração da pornografia infantil, o tráfico humano, o apelo à violência, o estímulo ao suicídio, apenas para me deter em brevíssimo enunciado, do que se passa por exemplo no mundo da Internet, que não permite continuarmos com tanta hesitação na participação e utilização da comunicação social. Por ocasião desta jornada, são apresentados variadíssimos comentários, a propósito da mensagem de Bento XVI. O bem conhecido comentador desportivo, Ribeiro Cristóvão, afirma que neste sector, "mais do que globalização, é, muitas vezes, confusão". Além de outros espaços, com grande relevo, em Portugal, publicam-se três jornais diários desportivos. Na Grécia, são ao todo dezoito. E o jornalismo que estes meios praticam, afirma ainda, "coloca de lado regras fundamentais na prática de todos os dias". Citando a mensagem do Papa, lembra que "em certos casos os media são utilizados, não para um correcto serviço de informação, mas para «criar» os próprios acontecimentos".

"Os media, no seu conjunto, afirma ainda a mensagem pontifícia, não servem apenas para a difusão das ideias, mas podem e devem ser também instrumentos ao serviço de um mundo mais justo e solidário. Infelizmente, é bem real o risco de, pelo contrário, se transformem em sistemas que visam submeter o homem a lógicas ditadas pelos interesses predominantes do momento". Uma das consequências leva "a legitimar e a impor modelos errados de vida pessoal, familiar ou social". Diante disto, porque a comunicação social "oferece inéditas potencialidades para o bem", não podemos ficar receosos e paralisados na encruzilhada, mas urge tudo fazer para a presença e correcto uso por parte da Igreja. E não parece ser isto que está a acontecer.

Pela nossa parte insistimos, tentamos vencer barreiras e obstáculos. O que se tem passado com a renovação da Luz – Boletim Interparoquial e da Vida Nova FM é disso exemplo. Procuramos organização e entreajuda num plano mais vasto, até onde pode ir a nossa capacidade e engenho. Lutamos para que em concreto na nossa Diocese haja organização e apoio. Levamos por diante a audácia da solidariedade e do intercâmbio das rádios católicas lusófonas, sobretudo em África… Alguns amigos entendem e estimulam. Precisamos de olhar ao largo e corresponder ao desafio que o Mestre lança.

As palavras do Papa são um convite estimulante: "que não faltem comunicadores corajosos e testemunhas autênticas da verdade que, fiéis ao mandato de Cristo e apaixonados pela mensagem da fé, «saibam tornar-se intérpretes das exigências culturais contemporâneas, comprometendo-se a viver esta época da comunicação, não como um tempo de alienação e de confusão, mas como um período precioso para a investigação da verdade e para o desenvolvimento da comunhão entre as pessoas e entre os povos» (João Paulo II, Discurso no Congresso Parábolas mediáticas, 9 de Novembro de 2002)". P. Armando Duarte