Em ano paulino, "ai de mim se não evangelizar"!

 

Estamos a celebrar dois mil anos do nascimento de São Paulo. A Igreja aproveita esta data jubilar, convidando a redescobrir a sua figura e sobretudo a encontrarmo-nos com aquele que é modelo de missionário e evangelizador de todos os tempos. A Diocese de Coimbra, através do Conselho Presbiteral, está a estudar a melhor maneira de tornar as paróquias mais missionárias. Além disso, o Plano Pastoral Diocesano vai procurar formar os cristãos leigos, igualmente com esta perspectiva, preparando-os para assumirem mais plenamente a sua missão no mundo. No fundo, existe uma preocupação para tornar a fé mais viva e comprometida, de modo que a sociedade receba os valores do Evangelho, e a cultura seja influenciada pela dinâmica do Reino de Deus.

No alcance da missão devem estar todas as pessoas, praticantes ou não, ligadas ou desligadas da Igreja. Mesmo considerando as que normalmente são atingidas por alguma acção pastoral, embora uma boa parte sem grande ligação eclesial, estaremos de acordo que reina uma grande falta de formação cristã, e, como consequência, falha a correspondência à vocação fundamental do ser cristão, e não existe o sentido de missão e participação na sociedade, a partir dos valores do Evangelho.

Nesse sentido, deverá repensar-se todo o processo catequético. A muitos cristãos falta desde logo a primeiríssima de todas as opções: a resposta ao primeiro anúncio ou kerigma. Perante a primeira evangelização, a boa notícia de Deus que ama ou de Jesus que salva deveria suscitar adesão imediata de quem quer experimentar: que fazer?...

Contudo, a grande parte dos baptizados nada fez para sê-lo, e nunca assumiu duma forma pessoal, esclarecida, livre e adulta, a decisão que outros (pais e padrinhos) tomaram sobre si. A persistência desta falha de correspondência leva à perda de sentido de actos centrais da fé, que degenera em "fazer comunhões", em "tirar crismas", levando uma vida como se Deus não existisse, contribuindo para uma consciência mal formada, e anestesiada, que se manifesta na tranquilidade com que se afirma: "fiz tudo"!

Não resisto à tentação de lhes contar o encontro que tive recentemente: um par de adolescentes, de 17 anos, procurou-me para baptizar um filho, apresentando para padrinho uma criança de 11 anos, que nem sequer está baptizada. A sua proposta é que, no espaço de 2 meses, o possível padrinho pudesse preparar-se, para ser baptizado no mesmo dia do bebé, e assumisse logo ser testemunha do acto. Mas mais espantado fiquei, quando dei as explicações possíveis da impossibilidade em atender tal pretensão, e tive como desabafo: "É complicado"! Afinal, para algumas mentalidades, é tudo fácil! Complicados são os outros, que não dão resposta imediata a todo o tipo de soluções fáceis!

Percebemos todos que esta história verdadeira reflecte muito do que se vive hoje na sociedade. Mas também faz sentir a urgência de uma verdadeira evangelização, pois muitos perderam totalmente as bases para realizar sinais sacramentais autênticos, ficando pela repetição mecânica de gestos e desprovidos de sentido.

Faz todo o sentido aproveitar o ano paulino para assumir a proposta da Conferência Episcopal, de "Um ano a caminhar com São Paulo". São 52 temas, que ajudarão a redescobrir a Igreja, a vida e a conduta cristã. Num plano diocesano, é também urgente que as paróquias procurem formar mais os leigos, e se tornem evangelizadoras e missionárias. Com o apóstolo, queremos encontrar-nos com Jesus Cristo, para que o Evangelho transforme as nossas vidas. Precisamos de formação, para melhor sabermos corresponder ao desafio de cristãos conscientes, que assumem a sua missão na Igreja e no mundo. Como São Paulo, cada um de nós há-de sentir o desejo de cumprir o dever: "ai de mim se não evangelizar" (1Cor 9, 16).

P. Armando Duarte