Pelo sonho é que vamos
A evidência das últimas semanas, faz-nos sentir como que sob o peso duma autêntica ditadura, pois concluímos duma forma imediata que a economia comanda a vida. Pior que isso são os efeitos da globalização, em que nos sentimos esmagados por tudo o que de mau acontece nos Estados Unidos. Alguém dizia que basta a América dar um espirro para que todo o mundo fique de imediato a tremer! Não será necessária grande reflexão para chegar a tal conclusão.
Mas afinal habituei-me a sintonizar com o poeta que afirma que "pelo sonho é que vamos", ou com o cantor que me faz interiorizar a mensagem do "sonho que comanda a vida". Há dentro de mim uma resistência para que não me deixe vencer por uma força tão brutal, pois tenho a convicção de que devo render-me à evidência dos factos, andar com os pés assentes na terra, mas sempre norteado por ideais e valores, que estão muito para além da materialidade das coisas, e de que há mais vida do que a exiguidade do visível e palpável. E ainda que as más notícias do preço dos combustíveis, da desconfiança do sistema bancário, do desemprego, da insegurança e da criminalidade, provoquem um grande mal-estar e pessimismo, terei que procurar outras energias, e mesmo que me sentisse oprimido, como dizia Pascal, "o universo pode esmagar-me, mas eu sei que sou esmagado"!
Não será necessário chegar a tanto, porque outros apoios vêm em ajuda da fragilidade. Primeiramente, com uma atitude de total confiança, Jesus Cristo inspira-nos a pedir somente "o pão nosso de cada dia nos dai hoje". O povo hebreu estava mesmo proibido de apanhar maná para os dias seguintes! E a primeira proposta de felicidade que nos indica é de "bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus". Claramente que as propostas do Reino são um autêntico contraponto aos padrões e certezas instituídas. E assim poderíamos, e deveremos, encontrar outros valores, alimento e horizontes para a nossa vida. Por isso, as nuvens carregadas dos últimos tempos, as incertezas quanto ao dia de amanhã, a precariedade dos apoios imediatos e visíveis, não hão-de impedir-nos de progredir e caminhar em fidelidade a uma visão íntegra da vida.
Estamos a iniciar um novo ano pastoral. Quanta gratuidade e generosidade somos chamados a viver em gestos de voluntariado ao serviço da catequese, da liturgia ou da acção caritativa. O mês de Outubro é tradicionalmente de dinâmica missionária, e somos desafiados a sentir-nos em missão. São Paulo convida-nos a caminhar com sentido de entrega e nova forma de viver. A isso nos convida o plano pastoral diocesano, de modo particular em que os leigos hão-de sentir-se os evangelizadores dos outros leigos. As paróquias, e outras comunidades, são também interpeladas a voltarem-se mais para fora, e não pensar e agir apenas no estreito horizonte do espírito de capelinha. Solidariedade, gratuidade, compaixão, misericórdia, partilha hão-de enriquecer um estilo de vida cada vez mais pleno, com a força duma esperança viva; e devem imprimir um dinamismo pessoal e comunitário, que alarga os horizontes, estreita os laços, e constrói o futuro da humanidade mais humanizada e mais cristã.
P. Armando Duarte