Diante da crise actual, o exemplo de D. Nuno Álvares Pereira
Primeiramente somos convidados a olhar para o tempo litúrgico que vivemos, com um convite bem claro a encarar os problemas da actualidade, sempre com uma perspectiva de espírito cristão. Em tempo quaresmal, faz-nos bem meditar a proposta de Bento XVI para a caminhada de renovação interior que a Igreja nos propõe, na prática da oração, jejum e esmola. É resposta também às dificuldades por que passa a humanidade, mergulhada em ambiente de crise, questionando os nossos hábitos, modo de agir, valores de conduta, relação com os outros. Abster-nos de algo útil e bom para o nosso sustento, lembra o Papa, que "as Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz". E acrescenta: "jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus". Além de facilitar a predisposição para a oração, de nos alimentarmos da Palavra, e termos mais fome de Deus, "ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos", recorda Bento XVI, e com eles sabermos partilhar, numa atenção aos mais pobres e carenciados. Assim, a nossa Diocese de Coimbra vai este ano realizar a sua renúncia quaresmal em favor das crianças necessitadas de apoio na Obra do Frei Gil e de uma colónia de férias para filhos de desempregados, como propõe o nosso Bispo.
Mas os tempos que atravessamos, para além de nos convidarem a sermos portadores de esperança, como escrevemos anteriormente, deixam-nos ficar modelos, que bem nos ajudam a saber superar com nobreza as dificuldades da crise global, que a humanidade vive. A Santa Sé acaba de anunciar que, finalmente, o santo Condestável será canonizado no dia 26 de Abril próximo. Notícia que muito nos alegra, mas igualmente nos responsabiliza, para sermos dignos no presente do testemunho que ele nos dá. Assim mesmo, a Conferência Episcopal Portuguesa acaba de publicar uma nota pastoral, em que aponta o exemplo histórico de D. Nuno Álvares Pereira para ultrapassar a actual crise em Portugal. D. Nuno "optou corajosamenter por ser parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com enorme esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação", escrevem os bispos, enaltecendo o seu despojamento dos bens e a entrega radical a Jesus Cristo. O exemplo de cidadania de D. Nuno é um convite à dignficação da vida política e de atenção ao bem comum.
Os bispos portugueses recordam ainda que "vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais". Por isso, como refere a Agência Ecclesia, "apontam o esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem-estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios", o que gera o desemprego, a angústia, a pobreza, e ameaça as bases da sociedade. "O testemunho de vida de D. Nuno, dizem ainda os bispos, constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários, e de iniciativas de partilha de bens".
Bem que precisamos da interpelação do testemunho de Nuno Álvares Pereira, neste tempo de Quaresma e de crise, em que vivemos. Dá mais sentido ao apelo que deixámos à esperança, a uma entrega sem limites aos valores que permanecem, ainda que sejam reconhecidos só mais tarde pelas gerações vindouras, mas desafiam o nosso agir e nosso empenhamento com determinação, sabendo estar no nosso lugar e desempenhar o papel insubstituível de cada um na hora que passa. Que estejamos à altura de viver a canonização de D. Nuno e corresponder à superação dos obstáculos que impedem sermos cidadãos conscientes e cristãos responsáveis, para a construção do futuro com mais esperança.
P. Armando Duarte