Educar
A recente onda de assaltos, o aumento da criminalidade violenta, os conflitos grupais em bairros problemáticos, provocam um clima de insegurança e atentam contra as liberdades individuais duma forma brutal. O Governo vem agora justificar-se na praça pública de que tal se deve à dificuldade em manter muitos casos com prisão preventiva, referindo que esta medida se deve aplicar em variadas situações criminais. Mas, todos nós percebemos que o problema maior está na incapacidade de governantes e responsáveis políticos em tomarem as medidas mais adequadas à prevenção antecipada destes malefícios da sociedade. Ficam depois descansados em fazer rugas e fiscalização em zonas conflituais, como se isso levasse a algum êxito, para prevenir problemas posteriores. Damo-nos conta de imediato que o problema começa, para além dos dramas que afectam a família destruturada, na incapacidade de encontrar um sistema pedagógico escolar, que permita o crescimento harmonioso e a formação integral da pessoa humana.
O Governo e a escola pública lidam com muita dificuldade com a formação moral, religiosa e cívica, e depois admiram-se com esta crescente falta de respeito, sentido dos outros, propriedade individual e colectiva, e atentados de toda a espécie. Embora o seu papel seja subsidiário, contudo ninguém ignora o quanto é decisivo e determinante. Por outro lado, a Igreja defende que "as crianças e os adolescentes têm direito de serem estimulados a estimar rectamente os valores morais e abraçá-los pessoalmente Por isso pede insistentemente a todos os que governam os povos ou orientam a educação, para que providenciem que a juventude nunca seja privada deste sagrado direito" (GE 1). Podemos dizer que, se vivemos um momento sócio-político grave, já o Concílio Vaticano II considerou "atentamente a gravíssima importância da educação na vida do homem e a sua influência cada vez maior no progresso social do nosso tempo" (GE proém.). Mas há muitos responsáveis que preferem não ver e ouvir a realidade, e enterram a cabeça na areia. A formação da autêntica liberdade, para os homens e mulheres do nosso tempo, deveria merecer o melhor das autoridades públicas, privadas e de cada um de nós.
É com esse sentido que estamos a começar mais um ano escolar e pastoral, em que a Igreja aposta numa das actividades mais nobres, ao serviço da formação moral e religiosa das novas gerações e da comunidade, através da catequese e das aulas escolares, e por outras formas de nova evangelização. Temos consciência das dificuldades cada vez mais notadas, mas a Igreja não pode demitir-se desta função, em fidelidade a Deus, à sua missão, e aos homens e mulheres do nosso tempo. Os pais e educadores têm o grave dever de tudo fazerem, ou até exigirem, para que os seus filhos possam gozar deste auxílio e progredirem na formação cristã, humana e profana. Descobrir a importância da palavra de Deus, do Senhor que fala hoje aos homens, e deixar-nos tocar por essa palavra viva, é algo de decisivo. Vem também aí o Sínodo dos Bispos, que vai reflectir como a Palavra deve continuar a fazer-se vida, que transforma, edifica e salva. Assim nós estejamos abertos e decididos, para deixar-nos renovar e vivificar, membros activos dum Povo, que incarna "nas alegrias e esperanças, nas tristezas e angústias dos homens de hoje" (GS 1).
P. Armando Duarte