A propósito da Peregrinação Diocesana a Fátima

 

St.º Agostinho, num seu comentário ao Pai Nosso, considera o curioso que é pedirmos que venha a nós o Reino que já temos a certeza na fé que virá, uma vez que, em semente, em Jesus Cristo, ele já se realizou. Portanto, como diz o Santo Bispo, pedimos o que, quer queiramos quer não, há-de vir. Porque será assim? Porque é o pedir que nos abre o coração para o receber, já que é livremente que o havemos de receber para nele entrar.

O mesmo esquema podemos aplicar ao dom das vocações consagradas. Sabemos pelo próprio Jesus que Ele, ao ficar connosco até o fim dos tempos, promete implicitamente não faltar à sua Igreja com os pastores de que ela necessita para ser o que é, o seu corpo animado pelo seu Espírito. No entanto, é também Ele que nos diz que peçamos ao dono da seara que mande operários para o seu trabalho. Porquê? Porque só teremos esse dom se lhe abrirmos o coração.

É já lugar comum considerar-se que a diminuição das vocações consagradas entre nós se deve ao resfriamento da fé na sociedade europeia ao longo das últimas décadas. Não é difícil admitir isto, uma vez que as vocações consagradas, entre elas as sacerdotais, se entendem sobretudo ao serviço de todas as outras; se estas não palpitam em entusiasmo de fé, aquelas não são suscitadas. Nesse sentido dir-se-ia: vamos então reanimar a fé nas nossas famílias, revigorar a fé das nossas comunidades, evangelizar de novo como se dum novo início se tratasse e as vocações surgirão. É verdade; mas seria ilusório confiar apenas na nossa eficácia. É certo que o trabalho da evangelização abre o nosso coração ao dom das vocações, como o abre ao dom do reino de Deus. Mas o que é certo é que o Senhor nos manda pedir; pedir á uma atitude aparentemente inútil e ineficaz, mas exprime a profundidade do movimento de coração a coração, apela à sinceridade mais genuína, à autenticidade mais simples, condições que Jesus atribuía habitualmente aos "pequeninos" e que os faz cidadãos nativos do Reino de Deus. Enfim, pedir, como atitude de confiança humilde no poder de Deus, que é o poder do Amor, não substituindo a força do trabalho e da acção evangelizadora, dá-lhe um alcance e profundidade que não podemos medir com a inteligência ou com as ciências humanas e sociais.

É neste contexto que me parece de todo oportuna a iniciativa do nosso bispo de nos convocar a todos para peregrinarmos com ele a Fátima no dia 7 de Maio para pedirmos o dom das vocações consagradas. Quantas se ficarão a dever a esta jornada de oração, nunca o saberemos; que será sempre uma excelente oportunidade para abrirmos o coração a esse dom e, portanto, para nos convertermos mais ao dom do Reino de Deus, disso, temos a certeza. Porque quem pede vocações consagradas quer ser mais cristão e deseja uma Igreja mais viva.

Faço votos que todas as paróquias da Região Pastoral Sul se façam representar em pleno e respondam positivamente ao apelo do nosso bispo.

 

P.e Pedro Miranda