Mês de Fevereiro

Este mês de Fevereiro está claramente marcado pela agitação provocada pelas eleições legislativas e dir-se-ia até, pensariam os mais piedosos, que a vivência da Quaresma deste ano— muito cedo pela Páscoa muito baixa, como diz o povo—estaria muito prejudicada por lhe faltar o silêncio e a quietude propícios à reflexão e à contemplação. Mas nem só disso é feita a Quaresma; também da penitência, do exercício das virtudes, como que treino para voos na santidade cada vez mais altos.

Ora, as eleições são ocasião exactamente disso, na medida em que são ocasião para exercitar e treinar as virtudes necessárias à cidadania responsavelmente vivida. Isto não é de somenos importância para os cristãos, visto que é dever de todos eles participarem com boa vontade na construção do bem comum; o amar o próximo como a si mesmo, na universalidade que o mandamento exige, passa em grande parte por uma participação política consciente e responsável.

Quais vêm, então, a ser as virtudes necessárias à cidadania concretizada no voto? Em primeiro lugar deve exercitar-se a virtude da temperança, que nos conduz a um são equilíbrio no uso dos bens materiais de modo a que estes não nos afastem da nossa finalidade última e mais alta que não é deste mundo. Isto signidfica que o critério económico na avaliação do desempenho dos políticos e das propostas e promessas que fazem não deve ser o único ou absoluto, sem ter em conta outras dimensões da vida igual ou superiormente importantes, tais como a defesa de valores humanos não contabilizáveis como a defesa da vida humana em todas as suas fases, da liberdade religiosa em todas as suas exigências, da dignidade da família, etc.

Depois, devemos considerar a virtude da justiça, que nos conduz a fazer a nossa escolha de voto não simplesmente pelos nossos interesses ou do grupo ou corporação profissional a que pertencemos, mas também e quiçá sobretudo pelas garantias oferecidas de atenção aos interesses dos mais pobres e desprotegidos.

Mas também a prudência é necessária; pela prudência aprendemos a aprender com o passado, de modo a orientar tudo na nossa vida para o nosso supremo fim e bem; e os projectos políticos também intervêm nisso.

Finalmente, a fortaleza leva-nos a nunca desistir de participar, mesmo que nos pareça que está tudo cada vez pior, que já de nada adianta darmos a nossa opinião. Esta fortaleza pode muito bem estar na base de muita da resistência à abstenção, hoje tão necessária pela degradação da vida política por muitos reconhecida. É uma fortaleza muito próxima da paciência necessária a toda a esperança. A esperança é para os crentes uma virtude não simplesmente humana, como as agora referidas, mas teologal, isto é, necessária à nossa caminhada para o nosso fim, que é o próprio Deus. Neste sentido, votar depois do treino sério destas virtudes, é um acto de grande alcance não só para este mundo, mas também para aquilo a chamamos salvação eterna.

Mas não é fácil… pesa sobre cada um de nós a responsabilidade solitária de ajuizar por onde garantir mais plenamente todos estes critérios. Que Deus nos ajude.

Pe Pedro Miranda