Sociedade Filarmónica Ansianense

18 de Fevereiro: 100 de tons e de sons

É obra. Um século a transformar os sons em melodias, a variedade de tonalidades para expressar a arte, a harmonia para entrar agradavelmente no ouvido e encher a alma, são indubitavelmente alguns dos melhores acordes arrancados dos instrumentos manejados e insuflados pelos músicos da Sociedade Filarmónica Ansianense de Santa Cecília. Uma história tão longa e rica não poderia deixar indiferente LUZ – Boletim Interparoquial e Vida Nova FM, expressão como procuram ser da vida social e comunitária de Ansião.

Porque no dia 18 de Fevereiro de 2003 se celebra o centenário desta instituição que tem marcado a nossa cultura, quisemos ouvir quem preside actualmente aos destinos da Colectividade e assinalar com destaque esta efeméride. Abordámos o Professor Emídio Piedade, com quem tivemos uma agradável cavaqueira acerca da história e da festa do aniversário.

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LUZ – Professor Emídio: pelas investigações que com certeza fez descobriu já quais os motivos que presidiram ao aparecimento da Filarmónica em 18 de Fevereiro de 1903?

E. P. (Emídio Piedade) – A Filarmónica surgiu dum Clube Recreativo, onde nasceu a ideia do sócio fundador, o senhor Adolfo Figueiredo, de ir formar uma filarmónica. Depois dessa datahouve um período marcado pelo aparecimento da República em 1910, conhecemos neste momento que o director/fundador era um daqueles republicanos ferrenhos, que apostou na formação duma filarmónica, e conseguiu-o; apesar do ambiente revolucionário da altura, a Filarmónica conseguiu sobreviver a esse período.

LUZ – Essa data de 1903, no contexto de clube recreativo, embora em tempo de monarquia, não teria subjacente a ideia republicana?

E. P. – Esse clube já era conhecido como dos republicanos. Portanto, a Filarmónica teve origem nos republicanos. Foram sempre eles que apoiaram, antes e depois da implantação da República. Mais tarde, quando a Filarmónica entrou numa certa crise, também foi o mesmo Director que a tinha fundado que tomou conta dela novamente. Levou sempre assim o cunho dos republicanos.

LUZ – Com essa característica republicana, e em relação à pessoa do seu fundador, conjuntamente com a referência à crise que mencionou, não haveria também influência de ideias maçónicas?

E. P. – Não faço ideia, mas é provável que houvesse, até porque mais tarde, em 1919, houve uma certa tensão entre a Filarmónica e a própria Igreja, em que Filarmónica foi mesmo excomungada.

LUZ – Para além destas ideias terá tido também uma intenção cultural?

E. P. – Parece-me que sim, tendo contribuído para um certo desenvolvimento cultural. Mais tarde, abriu-se também ao teatro, bailes, divertimento,... com uma vertente claramente cultural.

LUZ – A antiga sede tinha um palco, era uma casa de espectáculos, albergando o teatro, mais tarde o cinema...

E. P. – O cinema foi mais recente, mas sempre associada a uma linha de divulgação cultural.

LUZ – Tinha também associada alguma linha humanitária?

E. P. – Agora já se pode afirmar que sim. Quando foi feito o estudo para um livro, que vai ser publicado no centenário, desapareceram-nos da antiga sede uma série de documentos, nomeadamente um rascunho de antigos estatutos em que se via claramente essa vertente de apoio social, ou seja: os sócios da Filarmónica, quando doentes, tinham um apoio dado pela Sociedade.

LUZ – Destaca algum momento mais marcante da sua história?

E. P. – Foi muito importante o período após a excomunhão, em que foram aprovados novos estatutos, e adoptámos o nome de Santa Cecília, que hoje muito nos orgulha, e os sócios e executantes tinham que ser católicos praticantes. Por isso passou duma vertente a outra, de laica a religiosa...

LUZ – O regente passou mesmo a ser o arcipreste Carlos Luís Barata?

E. P. – Sim, ele esteve nessa fase a seguir, e dizem também que ele se manteve também algum tempo como Director, embora não apareçam documentos que o atestem. Mas, de qualquer modo, esteve ligado à Filarmónica e apoiou-a bastante, e começou a aparecer nas festas religiosas.

LUZ – Que outros momentos mais marcantes da sua história?

E. P. – Houve outro período em que a Filarmónica esteve mesmo à beira de desaparecer, em 1970, com uma crise em que não havia mesmo direcção, e esteve na iminência de interromper a sua existência, durante cerca de dois anos, e em que foi nomeada uma comissão; em 1971 foram eleitos novos corpos sociais, e a Filarmónica manifesta nova vida.

LUZ – Para além do fundador, há algum regente que se destaque na sua história?

E. P. – Para mim, há um que devo destacar, o anterior, senhor António Duarte. Foi aquele que me ensinou e me preparou para ser executante. Ele foi executante, regente, em determinada altura, quase sem direcção, foi que manteve a Filarmónica. Tenho a impressão de que, se não fosse o senhor António Duarte, ela teria mesmo acabado. Ele deu quase 50 anos de esforço à Filarmónica. Além disso foi um autodidata, foi regente, e conseguiu manter a Filarmónica viva. Foi também a partir da data em que manteve que conseguimos ter uma escola de música ininterrupta.

LUZ – Voltando-nos para o presente, como vê a Filarmónica hoje?

E. P. – É bastante diferente. Tem mais elementos. e muito mais jovens. A escola de música foi trazendo maior revitalização e reforço. Precisamente em 1997, tínhamos elementos bem preparados, e com um instrumental bastante antiquado e muito gasto, sem possibilidade em começar a substituir instrumentos individualmente, porque os timbres eram incompatíveis. Isso foi um grande esforço financeiro, em que despendemos à volta de 15 mil contos. Conseguimos uma boa dinamização das pessoas amigas da Filarmónica, e das entidades oficiais, para termos um novo instrumental, o que levou a uma revitalização, com os elementos mais novos, e depois surgiu a possibilidade de termos um novo regente.

LUZ – E quando foi que a Filarmónica se abriu às mulheres?

E. P. – Entre 87 e 89, e neste momento são cerca de metade.

LUZ – Também contribui para alguns dos seus executantes fizessem cursos superiores de música?

E. P. – Sim. Neste momento temos uns 6 executantes que andam no Conservatório e 2 ou 3 que estão na Escola Superior de Educação, e serão futuros professores de música.

LUZ – Uma das alterações mais recentes prende-se com um novo regente e a criação da Orquestra Ligeira. Como vê essa situação?

E. P. – O regente, sendo uma pessoa bastante nova, trouxe uma nova dinâmica, que faz a ponte com a juventude. Sabemos muito bem que os jovens são mais susceptíveis de se dinamizar, enquanto têm à frente um dirigente também jovem. Aliás, para eles é um exemplo por que foi para o conservatório e tirou um curso de música, e veio para a frente da Banda, e agora da Orquestra, com conhecimentos que os próprios executantes já estão a imitar, pois alguns estão já a fazer também os seus cursos, entrando no Conservatório.

LUZ – Voltamo-nos agora para o presente, pedindo-lhe que fale do programa do vosso aniversário.

E. P. – O programa vai iniciar-se antes mesmo da data do aniversário. No Domingo, dia 16, começaremos com um desfile das bandas de Alvaiázere, Avelar e Ansião, às 15 horas. Às 16, um concerto pelas duas bandas convidadas e a nossa Orquestra Ligeira. No Sábado, 22, às 10H30, teremos uma sessão solene no salão nobre da Câmara, com a presença do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Presidência, Feliciano Barreiros Duarte. Depois será o lançamento dum livro da história da Filarmónica, da autoria de Manuel Augusto Dias, e também de dois CD’s, da Banda e da Orquestra, seguindo-se o lançamento da 1.ª pedra da nova sede. Teremos também o almoço do centenário, para o que convidaremos muita gente. Outro acontecimento importante, às 21H30, teremos uma orquestra de sopro do Conservatório de Gaia, que tem profissionais a tocar, e que vem com outro tipo de música. No Domingo, às 10H00, vai haver o desfile das Bandas de Montargil, de Pombal e de Ansião. Depois, como habitualmente, teremos a Missa; depois, a romagem ao cemitério para lembrar os directores, executantes e regentes já falecidos. Depois será o almoço, e finalmente um concerto com as três bandas.

LUZ – Outras ideias para o futuro, a marcar o início de caminhada para o segundo centenário?

E. P. – Para além da construção da nova sede, com todo o dinamismo que ela vai permitir, queremos ter permanentemente uma escola de música a funcionar; em qualquer idade qualquer pessoa pode ir aprender música. Além disso estamos apostados em haver um grupo coral. Essa é uma outra vertente. E quem melhor que a Filarmónica para arrancar com essa ideia? Assim, continuamos virados para a vertente cultural. Temos colaborado com as festas de outras colectividades e estamos abertos à colaboração com qualquer instituição e à inscrição de qualquer pessoa que queira estudar música.