Feliz a família que ama os seus idosos
Há muita gente com idade avançada que é amada e acarinhada e, por isso mesmo, se
sente feliz e útil, não pelo trabalho que ainda realiza, mas por ser uma presença
congregadora no meio dos seus e uma referência enriquecedora para as gerações dos mais
novos, quando estes a sabem apreciar e agradecer. No património de uma família, os mais
idosos representam uma parte importante e valiosa para aqueles que ainda não deixaram
subverter os verdadeiros valores da vida.
Em texto recente, caiu-me debaixo dos olhos esta palavra de Teresa de Calcutá: "a
maior miséria deste mundo reside muitas vezes no abandono e no desamparo dos
velhos." No mesmo texto se acrescentava que Simone de Beauvoir, a famosa feminista
que foi companheira de Sartre, apesar de estar no outro hemisfério do pensamento da
religiosa, coincidia na mesma opinião.
Uma sociedade que não ama nem respeita os seus mais velhos é uma sociedade desumanizada,
sem alma, sem futuro.
Nada do que nós desfrutamos e nos vem de longe apareceu ou chegou até nós por acaso. O
que nos foi chegando e perdura é, frequentemente, mais fruto do trabalho, da dedicação,
do amor, com muitos sacrifícios e lutas pelo meio, daqueles que nos precederam, que do
nosso trabalho e engenho pessoal.
Saborear a alegria de viver, ainda que com as limitações que a idade impõe, não é
possível sem se estar rodeado de um ambiente de amor e gratidão, de apreço e
estima. Na recta final da vida, já muita coisa se dispensa, não porém o sentir-se
amado e acarinhado.
É uma desolação o que, por vezes, se vê em lares de idosos, quando os familiares mais
próximos de há muito os esqueceram ou vêm, de longe em longe, como que contrariados ou
a dizer-lhes coisas que não os convencem. Há gente que parece guardar, para depois da
morte, aquilo que só tinha sentido quando saboreado e apreciado em
vida.
As muitas iniciativas e soluções de apoio social que se vão multiplicando, porque
também a sociedade deve aos mais velhos, não podem dispensar a família da dívida nunca
paga, que é a do amor aos seus pais e avós. O mesmo acontece com os muitos e dedicados
voluntários, fiéis à sua visita aos doentes e aos idosos mais sós da comunidade.
Os idosos são, até ao fim, depositários de uma pequena riqueza, como que um denário,
que não se pode enterrar nem menosprezar, porque toda a riqueza pode ser rentável.
Felizes os que têm consciência disso e encontram na sua vida quem os estimule a
continuarem úteis e felizes.
António Marcelino