O flagelo dos incêndios
Tentativa de aproximação e melhor compreensão das causas
| Todos anos, com maior drama no tempo quente do verão, o flagelo dos incêndios é uma realidade a afectar as matas e florestas, os bens das pessoas, o ambiente, a riqueza e a beleza do País. É, pois, um problema que afecta a todos, e que exige sentido cívico, envolvência e procura de respostas de cada um, no sentido de ajudar a minorar as graves consequências que o fenómeno acarreta. Cumprindo o papel que cabe à comunicação social, fomos ao encontro de quem pode ajudar a esclarecer um pouco melhor este problema. Num trabalho conjunto Luz/Vida Nova FM, falámos com o Dr. João Dias da Silva, Coordenador de investigação criminal, para esta área dos incêndios, na Polícia Judiciária de Coimbra. É desta conversa que deixamos para os nossos leitores alguns dados, para uma aproximação a este drama da sociedade. | ![]() |
Naturalmente que todos conhecemos algumas causas próximas, que provocam maior número e intensidade dos incêndios no Verão. O abandono das terras, a falta de limpeza das matas, a dificuldade de acessos, o aumento das temperaturas, são, entre outras, razões primárias para grande número dos incêndios. Esta reflexão não, por isso, por aqui. Preocupa-nos sobretudo a constatação frequente de fogo posto. Essa será a realidade mais inquietante do problema. Foi isso que nos levou a falar com quem tem a responsabilidade de acompanhar este problema como perito.
O Dr. Dias da Silva começou por nos situar num estudo a partir de 22 incendiários, responsáveis por 82 incêndios na região, o que representa 4% dos incêndios em 2001.
Idade: um pouco acima dos 25 anos, sendo esta média influenciada por uma pessoa de 66 anos, que naturalmente a fez subir.
Sexo: maioritariamente do sexo masculino (apenas uma mulher).
Estado civil: normalmente solteiros, na ordem dos 70 e tal por cento.
Escolaridade: baixa, embora comecem a surgir indivíduos com mais anos de formação.
Profissão: normalmente trabalham, ligados fundamentalmente à construção civil e â agricultura.
Estratégia: actuam normalmente sozinhos, próximo da área da sua residência, Aparece um ou outro caso de reincidência, "mas não é muito vulgar", afirmou o Dr. J. Dias da Silva.
"Estas são as tendências de 2001", continuou o Inspector da Polícia Judiciária: "Curiosamente em 2002, e de 12 pessoas detidas por este crime, como presumíveis autores, as médias de idade dispararam: neste momento situam-se acima dos 35 anos, e 3 são mulheres..."
Mas, o Dr. Dias da Silva levanta outras questões: "o incêndio tem alguma adrenalina, própria das chamas. Todos nós gostamos de passar algum tempo junto a uma lareira. Há ali um fascínio pela chama". Mas apresenta outros motivos: "toda aquela actividade própria do combate, as sirenes, muito movimento, daqui para ali... Por isso, com muita frequência, o incendiário, depois de atear o fogo, vai ajudar no combate". Assim, aponta que, para fazer um estudo completo, deveria contar-se com algum especialista, para perceber o que vai no interior desta gente. Apesar de poder haver problemas do foro mental, o Tribunal deverá prever alguma intervenção, para que estas pessoas não estejam, ano após ano, mês após mês, a atear incêndios. "Normalmente estas pessoas não ficam em prisão preventiva, mas é-lhes aplicada outra medida: o internamento preventivo ou compulsivo", afirmou.
Luz Com frequência, ouvem-se comentários desfavoráveis, quando os incendiários são mandados para casa, depois de ouvidos em Tribunal. Isto gera uma certa revolta popular, com expressões muito infelizes do tipo de atar essa gente a uma árvore para aí sofrer as consequências do fogo...
J.D.S.: Não há uma norma taxativa para aplicar aos incendiários ou a qualquer criminoso que vai ser presente ao juiz. Há um leque de medidas de coacção em que o juiz, apreciando caso a caso, aplica a que melhor se adapta àquela ocasião e àquela pessoa em concreto, atendendo ao grau de perigosidade, se a pessoa está melhor ou pior inserida, se tem família ou apoio familiar. O que aparece mais vezes são as apresentações em liberdade, com a obrigatoriedade de apresentar-se na entidade policial mais próxima da residência, de 8 em 8 dias ou até diariamente. Há também o internamento e a prisão preventiva. Em prisão preventiva podem estar até 6 meses; se no fim não for feita acusação concreta, terão de ser libertados.
Isto conduz a uma outra questão mais complicada, continuou Dias da Silva, falando dos vestígios de crime nos incêndios, que normalmente são destruídos pelo fogo ou danificados no combate. Por outro lado, uma vela, uma caixa de fósforos ou um engenho qualquer "não nos liga a uma pessoa em concreto", adiantou. "Como montamos a investigação?", questionou o nosso entrevistado, avançando: "É a recolha importantíssima de informação, venha ela donde vier, desde as entidades mais próximas do local, GNR, das casas das próprias pessoas, outras que nos escrevem... Nós vamos coligindo todo esse manancial de informação, para depois fazer análise. Quando temos elementos que parecem indicar, com alguma consistência, em determinada direcção nós abordamos as pessoas. E, curiosamente, o incendiário, na maioria dos casos, posto perante determinadas provas, acaba por confessar", revelou o Inspector da Polícia Judiciária.
Entretanto, deixou um alerta: " Se porventura as pessoas perceberem que um determinado indivíduo tem sintomas, só têm uma atitude a tomar: é apanhar a pessoa, não maltratá-la, e entregá-la à autoridade policial mais próxima".
Quisemos, contudo, saber se a maioria dos incêndios são de origem criminosa ou não. A resposta não se fez esperar: "Estou convencido que não. A grande maioria estão ligados à actividade ou a comportamentos humanos. A percentagem de incêndios criminosos andará pelos 12-15%". Quanto a outros motivos, constantemente mencionados na opinião pública, como os interesses imobiliários, de madeireiros, motivos políticos, quisemos ouvir o nosso entrevistado que referiu haver um ou outro, quanto aos interesses, "mas são casos muito raros". Lembra que a nossa floresta, maioritariamente de pinheiro bravo, se depois do incêndio não for imediatamente retirada, não tem quase nenhuma utilidade.
No entanto é necessário tomar atitudes. "De ano para ano, referiu-nos, as pessoas colaboram cada vez mais. É um trabalho de todos". Como conselho final, adiantou: "Se tiverem conhecimento desta ou daquela pessoa, façam chegar a informação, pela forma que acharem mais normal. Nós fazemos depois a avaliação, e a Polícia vai actuar quando entender que chegou o tempo certo", sugeriu o nosso interlocutor.
Armando Duarte
Porque seria?
Mulher de Outeiro- Lagarteira suspeita de lançar fogos
A notícia caiu como uma bomba. Ninguém ia supor que uma mulher, Júlia Freire, de 50 anos, casada, mãe de dois filhos, trabalhadeira, ateasse incêndios na região. Mas, pelos vistos, parece ser responsável por vários incêndios. A população andava alarmada e vá de fazer vigilância de dia e de noite, e foi assim que a presumível incendiária foi descoberta pelos vizinhos em flagrante, às 4 horas da madrugada, como contaram à nossa redacção. O comportamento da senhora não fazia prever tal prática, e os vizinhos só admitem andar mal da cabeça ou haver bruxaria. Ao que consta, a senhora sofre dos nervos, tratando-se nos respectivos médicos, mas parece que não era suficiente, e vai de recorrer à prática da bruxaria. Alguém da Lagarteira nos contou que a bruxa teria mandado acender 21 fogos, e que não deveria ser ela a chamar os bombeiros Mas o perigo era evidente, e, assim, foi detida pela Polícia Judiciária de Coimbra; depois de alguma resistência, terá confessado a autoria dos incêndios, aguardando agora julgamento, mantendo-se na situação de prisão preventiva em Leiria.
Ao que consta, esta senhora, quando regressava com outras pessoas do combate ao incêndio, comentava: - "vão lá agora dizer que são os vizinhos"! E assim deitava as culpas sobre os outros. Perante provas directas, pediu desculpa às pessoas que a descobriram. Toda esta problemática nos foi plenamente confirmada pelo Presidente da Junta.
O estranho comportamento desta senhora pode ser analisado, com base no trabalho que publicamos noutra secção do nosso jornal, que reputamos de muito importante, e deve levar autoridades e pessoas individuais a tudo fazer para que haja cada vez mais um clima de sanidade mental, moral, educativa, social e política, de modo a que a sociedade não se torne num pandemónio impossível de suportar. Para além dos crimes de incêndio, também os há nas estradas, no ambiente e em muitos sectores da comunidade. Que mundo é este? Lamentações e considerações vagas não chegam. Temos todos que exercer o papel interventivo, lutando pela formação nos variadíssimos níveis, contribuindo para uma sociedade com valores, promovendo a solidariedade e a participação social.