Não podemos suportar mais
A vaga de incêndios que o País viveu dramaticamente é demasiado séria, para não deixar passar em branco uma breve reflexão. Quando, durante os longos meses de verão, nenhum bloco noticioso dos grandes meios de comunicação social iniciava sem referir os incêndios com grande destaque; quando se sente a insensibilidade que se instalou, ao assumir-se a época oficial de incêndios, como se de um campeonato se tratasse; quando se duvida da utilidade dos destaques noticiosos que o tema merece nos media, em que diária e sistematicamente somos bombardeados, mais contribuindo para esmagar do que para comunicar; quando o opinião pública reage, duma forma desconcertada, disparando em todas as direcções, consoante os valores por que cada um pauta a sua vida, e a visão parcial ou global que se tem da vastidão do problema...
Não podemos ignorar os dramas que, de norte a sul do País, as populações foram vivendo com o flagelo dos incêndios; não podemos esquecer que, com o património natural, o ambiente, a floresta, as casas e os haveres, foi parte de nós que foi ardendo; não podemos aceitar que continuem impunemente a fazer-se relatórios, se tirem algumas conclusões, mas de ano para ano o problema se vai agravando, sem que se veja alguma luz no fundo do túnel, para debelar esta situação, atacando o mal pela raiz; discordamos, inclusive, do senhor Primeiro-Ministro, quando em Coimbra, após reunião de emergência, durante o assédio das chamas à cidade e periferia, vai dizendo que, apesar da seca, houve mais meios para o combate, e a área ardida é substancialmente menor que há dois anos. Tal afirmação, vinda de quem veio, não me agradou nada, pois parece manifestar conformismo e de que, mesmo com algumas alterações, em tempo de balanço, nos prepara para continuar sem solução para resolver problema tão grave, a afectar a vida do País. Também discordamos, mesmo com o respeito que merece, da intervenção do Presidente da República que referiu devermos em Setembro analisar o problema. Pareceu fazer supor que a responsabilidade está do lado dos particulares.
Mesmo com o risco de nada conseguir, não deixamos de dar um modesto contributo, expressando opinião sobre matéria tão grave:
- É preciso repensar o conceito de administração interna, de defesa e segurança nacional. O Estado organizou-se a pensar nos aglomerados populacionais, com sistemas de segurança, forças policiais, assegurando a manutenção da ordem e a defesa dos cidadãos. Mas, afinal, os ataques não vêm só das fronteiras externas ou dos desacatos no interior das cidades... Quer dizer: não basta ter exércitos e quartéis de polícia. Por isso, ouvimos constantemente reclamar a tropa e a polícia para o ataque aos incêndios. Não estamos preparados. Penso que se deveria pensar em grupos especiais para este problema. E com meios próprios. Esta história de alugar aos privados ou estar dependentes do estrangeiro, não é boa política. É como se exércitos e polícias fossem alugar viaturas, armas e equipamentos para cumprir a sua missão.
- É preciso repensar a política das florestas e ordenamento do território. Se a floresta é uma riqueza e um bem precioso, em variadíssimos aspectos, então há que repensá-la, e apoiar com medidas eficazes. Que adianta legislar, impondo que se limpe à volta das casas, num raio de 50 m, se poucos cumprem, e a maioria não pode cumprir, pois na maioria dos casos os terrenos não pertencem aos próprios? Quem faz as leis não saberá ver isto?
- Deveria pensar-se num pacto entre os meios de comunicação social. Quem se esqueceu que, há anos, se assistiu a uma onda de sequestros e auto-encarceramento, para atrair as televisões, e fazer valer os seus argumentos para chantagem e chamada de atenção? As televisões fizeram um acordo para não dar cobertura a esses casos. Deveria repensar-se a forma de acompanhar os incêndios de modo a evitar que a informação sirva de encorajamento à prática do crime dos incendiários.
À pergunta do senhor Presidente da República - "Que floresta queremos"? ousamos acrescentar: - que política florestal queremos?