Matar por amor?
Dois
filmes actualmente em cartaz (Million
Dollar Baby e Mar Adentro), ambos premiados com os óscares, trazem o tema da
eutanásia para a ordem do dia. Não o fazem de modo imparcial. Em qualquer deles
se descobre uma nítida intenção apologética em relação à eutanásia, com recurso
à manipulação sentimental. É difícil encontrar hoje outros filmes tão
ideologicamente marcados. Não é abusivo pensar numa verdadeira campanha que
pretende preparar a mentalidade comum para a aceitação pacífica da legalização
de mais um atentado à vida, escondido atrás da aparência de causas nobres.
Parece que se quer convencer as pessoas de que a solidariedade e a compaixão
podem levar a matar alguém, ou a ajudar alguém a morrer. Aquelas mesmas pessoas
que sempre pensaram que o amor deve, antes, levar a ajudar as pessoas a viver,
e a procurar, por exemplo, que quem manifesta o desejo de se suicidar desista
da ideia, ou a impedido-lo até de a concretizar.
Apresenta-se a aceitação do pedido de
eutanásia como uma manifestação de respeito pela autonomia individual, valor
que hoje se quer colocar acima de todos os outros. Mas não tem sentido invocar
a liberdade contra a vida. A liberdade supõe a vida e, ao suprimir a vida,
suprime-se a raiz da liberdade. Há, por outro lado, bens indisponíveis. A vida,
como o núcleo essencial da dignidade da pessoa humana, é um bem indisponível. O
consentimento do ofendido, tal como não justifica o homicídio a pedido e a
eutanásia, não justifica a escravatura, a prostituição ou formas extremas de
exploração económica. Os direitos humanos têm por objecto bens que conduzem à
realização e aperfeiçoamento da pessoa humana enquanto tal. Por isso, como não
tem sentido falar em direito à escravatura e em direito à doença, não tem
sentido falar em direito à morte, à supressão da pessoa.
Em quase todos
estes casos, não pode sequer falar-se do exercício livre e esclarecido da
liberdade. Sabe-se com o pedido de eutanásia é, com frequência, um sinal de um
estado depressivo mais ou menos transitório, ou uma manifestação de desespero
que oscila com manifestações contraditórias de apego à vida. De qualquer modo,
nunca é possível saber se o pedido, ainda que insistente, se manteria no
futuro, ou se a pessoa que o formula não viria a arrepender-se. E as
consequências da satisfação desse pedido são em absoluto irreversíveis. Também
o mais comum é que quem tenta o suicídio venha depois a agradecer a quem,
desrespeitando a sua pretensa ³autonomia², o tenha impedido de consumar os seus
intentos. Há quem tenha contactado Ramon Sampredo, o protagonista do filme Mar
Adentro, e duvide da sua perfeita integridade psíquica, ou esteja convencido de
ele que poderia vir a mudar de ideias.
Pretende-se,
com a eutanásia, eliminar os sofrimentos. Mas não se trata de eliminar os
sofrimentos, trata-se de eliminar a pessoa. Não se trata de proporcionar a vida
em melhores condições e sem sofrimento, trata-se de suprimir a vida. Amar a
pessoa que sofre é ajudá-la a viver, não ajudá-la a morrer. É eliminar o
sofrimento na medida do possível e ajudá-la a encontrar um sentido para o
sofrimento inevitável (aquele que acompanha sempre a vida, não só na sua fase
terminal).
Satisfazer o
pedido de eutanásia, com o beneplácito do ordenamento jurídico, não é ser
neutro diante das opções de cada um, é confirmar que, na verdade, em
determinadas situações, a vida ³perde dignidade², a vida é ³indigna de ser
vivida². Mas a dignidade da vida humana é-lhe intrínseca, nunca se perde com a
doença. Por isso, mesmo quando não se propugna a eutanásia involuntária, a
legalização da eutanásia traduz sempre uma mensagem cultural de desvalorização
da vida dos doentes, dos deficientes ou dos idosos. Foi isso que, com
veemência, quiseram dizer os tetraplégicos espanhóis que, através da sua
associação, protestaram contra o apoio de responsáveis governamentais à
mensagem do filme Mar Adentro: não queremos a eutanásia, queremos apoios que
nos ajudem a viver. Do mesmo modo, várias associações americanas de deficientes
têm protestado contra a mensagem do filme Million Dollar Baby, a difusão da
ideia de que vale mais morrer do que ser doente ou deficiente. Pelo contrário,
a associação italiana dos doentes de Parkinson manifestou recentemente o seu
apreço pelo testemunho de João Paulo II nesta fase da sua vida, que tem ajudado
a enaltecer a imagem de dignidade e valor das pessoas com esta doença.
Neste, como
noutros âmbitos onde se questiona a inviolabilidade da vida humana, evoca-se
com frequência a imagem da rampa deslizante: quando se quebra essa princípio,
começamos a descer e não sabemos onde iremos parar. A história recente da
legalização da eutanásia demonstra-o bem. Começou por se admitir, na Holanda, a
eutanásia de doentes terminais. A legislação belga admite já a eutanásia de doentes
incuráveis, ainda que não terminais. Na Holanda, onde a lei já permitia a
eutanásia de jovens menores, um protocolo recente entre um hospital e o
Ministério Público veio admitir a eutanásia de crianças. Em declarações
recentes, a baronesa Warnock (uma autoridade em matéria de bioética no Reino
Unido) invocou a eutanásia já não como um simples direito, mas como um dever,
em determinadas situações. Estamos, pois, já fora do âmbito da eutanásia
voluntária e do respeito pelo ³sacrossanto² valor da autonomia individual.
Estamos em plena rampa deslizante...
Pedro Vaz
Patto Juiz de Direito