A morte interpela-nos
Escrevo em dia de fiéis defuntos, e naturalmente que o mistério da morte é hoje objecto de oração e reflexão. Para além da passagem pelos cemitérios, com uma prece de sufrágio e saudade, ficamos em meditação ao rever nomes e fotos de pessoas familiares, conhecidas e vizinhas. A experiência de oração há-de ser sobretudo de confiança na misericórdia divina, de abandono nas mãos de Deus, e de intercessão por aqueles que mais directamente nos tocaram. Só o Senhor sabe quantos dos nossos defuntos corresponderam à graça e são contados entre os fiéis por quem rezamos. A nós cabe-nos rezar, mesmo que alguns não se tenham pautado pela fidelidade, sabendo que Deus bem conhece o sentido que deram à sua vida cristã, ao seguimento da verdade mais plena da existência humana, à sua comunhão com Ele, com horizonte de eternidade e de imortalidade. Não deixa de me impressionar, na visita aos cemitérios, para além de alguns epitáfios cheios de sentimentos de relação pessoal, com clara afirmação da vida para além da morte, outros porém com manifesta falta de sentido da vida.
Foi naturalmente alimento da minha oração o Ofício de Leituras que contém um texto de S. Ambrósio, sobre a morte de seu irmão Sátiro, afirmando: "Vemos que também a morte pode ser lucro e a vida ser castigo. Por isso Paulo afirma: Para mim viver é Cristo e morrer é lucro. Que é Cristo, senão morte do corpo e espírito de vida? Morramos pois, com Ele, para vivermos com Ele". É esta a dimensão fundamental que precisamos de ter, para uma existência plenamente cristã. É de Cristo, e Cristo ressuscitado, que brota todo o sentido para a nossa vida. Deste modo, somos chamados a não viver mais para nós próprios, nem para o mundo presente, nem é nos outros que o nosso ser descobre a sua razão de viver, porque também eles são mortais.
A comunidade cristã de Santiago da Guarda foi marcada, nos últimos tempos, por várias ocorrências de acidentes mortais, que são igualmente um desafio a saber enquadrar o sofrimento e a dor, que tais acontecimentos trazem, dentro desta perspectiva cristã. Além de alguns casos individuais, os desastres que afectaram brutalmente as famílias "Madeira Ramos" e "Rosa", a acrescentar ao luto e sentimentos intensos dos respectivos parentes mais próximos, atingiram igualmente toda a comunidade e região. Para além da ocorrência ter o condão de nos fazer sentir mais unidos e fraternos, como membros duma família mais alargada, é também o convite a olhar mais além, e aprender o que igualmente na sua experiência de vida estes irmãos nos ensinaram. Pessoalmente não posso deixar de agradecer o que aprendi, e recebi, de todos eles, em especial dos professores Rosa, que bem nos indicam que a vida tem mais sentido, quando encarada numa dimensão de serviço e entrega, ao Senhor e aos irmãos. Estamos todos mais enriquecidos, e por isso percebemos que a morte é comum a todos os mortais, todos estamos sujeitos a estas situações difíceis e dramáticas da vida, mas conforta-nos a certeza de que "se o justo vive pela fé", os seus frutos permanecem para sempre.
P. Armando Duarte