Oceano Pacífico
Com este título publicou o Luz, no passado mês de Março, um apontamento, no final do qual se perguntava: "Mas, afinal, Pacífico porquê?". Em face do que, no último parágrafo, se prometia, vou servir-me do livro Contos, de António Manuel de Castro, que dá uma versão acerca da origem daquele nome, muito embora em termos que eu considero de entretenimento e, mais ou menos, moralistas:"É do conhecimento geral que os tubarões são valentes. A sua inteligência, porém, não é grande, e caem constantemente nas mesmas armadilhas, devido à escassa memória. De tubarões tímidos não tem havido notícias. Contudo, há muitos anos, nos mares do Oriente e no seio de uma família de bravos predadores, nasceu um tubarãozinho tão tímido que era incapaz de capturar uma sardinha. A mãe-tubarão vivia tão angustiada, em busca de uma solução, que, depois de tanto pensar, conseguiu finalmente lembrar-se de Dona Bucha Baleia, doutora de cultura e poder, e decidiu ir consultá-la. O nobre mamífero, depois de a ouvir atentamente, pôs os óculos de concha transparentes e procurou nos seus calhamaços um velho conto português. Os portugueses tinham estado naquelas paragens, e num antiquíssimo pergaminho de algas estava transcrita a história de Dom Caio, homem cobarde que, devido à sua gabarolice, passou por valente, sendo até promovido a general. Feita a leitura do conto, Dona Bucha pousou os óculos, cruzou as fortes barbatanas, cheias de paciência, e disse para o pobre Avilez: - Se aprenderes esta frase, não só ficarás convencido da tua força, como levarás os outros a acreditar em ti. Repete com a prima baleia: "Eu sou o tubarão Avilez! Se abrir a boca não engolirei só um, mas três!". Depois de meses e meses de esforço da já então magra Dona Bucha, o pequeno tubarão conseguiu repetir a frase e convencer-se, finalmente, das suas reais capacidades. Era porém pacífica, só abria a boca para apanhar qualquer ser vivo quando a fome o estonteava. Os outros tubarões, claro está, não lhe guardavam respeito, e muitas vezes se apoderavam do que ele tinha apresado repelindo-o desdenhosamente para longe. Cansado e triste, o tubarão Avilez decidiu mudar o rumo da tão espezinhada vida. Teria de se impor perante os demais, e exigir-lhes mais respeito, e pretextos para o fazer nem sequer lhe faltavam. Escolheu um dia em que os outros tubarões tomavam parte na luta sangrenta, cada um puxando para si os melhores bocados de um enorme peixe. Nem deram a Avilez a possibilidade de se aproximar! Este, num esforço de memória, reproduziu com relativa exactidão a curta frase que a sua mestra lhe ensinara: - Se abro a boca engulo três só duma vez.
Imediatamente os tubarões amedrontados nadaram para bem longe deixando o restante pitéu para Avilez que almoçou tranquilamente. O jovem tubarão, depois daquela vitória, convenceu-se de que não teria mais problemas. Engano puro. Voltou para o seu canto, tímido e encolhido, porque eles depressa se esqueceram da bombástica frase de Avilez. Mais triste do que nunca, o tubarão estava ponto a desistir. Mas, depois de tanto ter pensado durante quase uma semana, descobriu que, se repetisse aquela frase muitas vezes, os tubarões haveriam de a fixar e ter-lhe-iam mais respeito. Começou, pois, a gritar dia e noite: "Eu sou o tubarão Avilez! Se abro a boca engulo três!". Fraco de memória, os tubarões esqueciam-se em dez minutos de todo o esforço de umas horas, o determinado Avilez repetiu meses a fio a milagrosa frase e os malvados companheiros, à custa de tão grande massacre, acabaram por meditar naquelas palavras em altos gritos, sentindo-se gravemente amedrontados. Mesmo depois de todos terem fixado a frase, Avilez continuava a repeti-la de quando em quando, para que nenhum deles a esquecesse. Faltando-lhes tranquilidade, os tubarões decidiram, também, mudar o rumo à sua vida, feita de medos e preocupações. Reunidos junto ao rochedo principal, por unanimidade, elegeram Avilez como seu chefe. Este, verdade seja dita, nunca pensou viver tão bem: os outros curvavam as poderosas barbatanas à sua passagem, e se ele decidisse não ir em busca do alimento, todos os dias lhe traziam o que de melhor pudessem conseguir. Avilez não agradecia. Para impor respeito retorquia com ar autoritário: - "Se abrisse a boca ia a comida e iam vocês! Quem vos fala é o tubarão Avilez!". Vendo-se com tanto poder, o grande chefe Avilez, já enjoado com tantas toneladas de peixe e carne, decidiu-se a mudar os hábitos selvagens da sua comunidade. Convocou todos para o rochedo principal e, do alto do seu palanque de algas marinhas, disse: - "De agora em diante, os tubarões deixarão de capturar peixe e atacar os homens, pois vamos ser vegetarianos! Só vos deixo comer algas e flores marinhas! Todas as manhãs ouvirão este aviso ao acordar! Os valentes tubarões quiseram investir sobre Avilez, mas este com ar irónico, repetiu a célebre frase: - "Sou o tubarão Avilez! Se abro a boca engulo três!". Os pobres tubarões, de memória avivada, recuaram e resolveram obedecer.
Naqueles mares, os outros peixes voltaram a viver tranquilamente e felizes e os mergulhadores, vendo a meiguice dos outros temidos tubarões, não mais se mostraram receosos em explorar o oceano.
A comunidade dos tubarões começou a sentir-se angustiada, sem nada que fazer. Mas como um bom chefe tem de observar o seu povo e encontrar soluções para os seus problemas, Avilez convocou de novo a comunidade. "Uma vez por ano passarei a deixar-vos atacar os pacíficos mergulhadores. Oiçam bem: só uma vez!" . Os súbditos de Avilez rejubilaram. Depois de muitos vivas e aplausos de barbatana, o tubarão retomou a palavra: - Atenção! Só atacarão os homens para se divertirem, nada de mortes! Só estão autorizados a fazer-lhes cócegas!". "Cócegas?!" "Sim. Debaixo dos braços e nas plantas dos pés".
O povo tubarão já reconfortado com aquela concessão, aceitou as condições. No longínquo Oriente, enquanto o bondoso predador foi vivo, os tubarões e as pessoas encheram de gargalhadas alegres o silêncio daqueles mares tão calmos, que talvez por isso ainda hoje são conhecidos pelo nome de Oceano Pacífico".
O citado livro de contos foi uma execução gráfica do Eco do Funchal, patrocinada pelo Governo Regional da Madeira, Secretaria Regional da Educação, Juventude e Emprego Direcção Regional de Estudos e Planeamento da Educação 1990.
Hermenegildo Coelho Marques