Conheça a sua Terra

                                                                                                               * Manuel Augusto Dias

Pousaflores (23)

Prof. Manuel da Silva

Natural da freguesia de Pousaflores, o Professor Manuel da Silva revelou excelentes qualidades pessoais e profissionais como Professor, primeiro na Escola da Portela e mais tarde na Casa Pia de Lisboa. Participou quase sempre nos eventos que assinalavam melhoramentos na sua freguesia, usando quase sempre da palavra, e, por mais de uma vez, proferiu interessantíssimas conferências na região, que mostraram tratar-se de um homem de princípios, de uma fé esclarecida e que pensava pela sua cabeça, mesmo que as suas reflexões fossem, em alguns momentos da sua vida, no todo ou em parte, de sentido contrário ao oficialmente permitido.

Uma dessas Conferências, que foi publicada em vários números do jornal de Figueiró, A Regeneração, foi por si proferida no dia 15 de Setembro de 1949, na Associação de Cultura, Recreio e Beneficência de Chão de Couce, e o tema versado foi: "O Cristianismo Integral bastará às inquietações e soluções da vida?". A certa altura da sua intervenção, recordando memórias da sua juventude que viveu nesta região, donde era natural, recordou os tempos conturbados da II República Espanhola (década de 1930), e os seus efeitos na opinião pública portuguesa, mormente na juventude :

«Quando da implantação da 2.ª República em Espanha, e eu tinha mais alegria e mais saúde que agora, - foram-me permitidos gracejos em que quase víamos também o "Quirinal" e o "Vaticano", aqui bem representados por certas pessoas a certos locais...

A um de nós, chamávamos-lhe... Marcelino Domingo..., a desejar mais e melhores escolas; a outro... Indalécio Prieto ..., a querermos mais dinheiro e mais fomento; ao senhor Padre Manuel, sem ofensa ao sacerdote..., Gil Robles..., pelo tom contra-revolucionário no conjunto.

A mais alguns, vários nomes simbólicos que representassem ideal alto e acção pronta.

Como vêdes, era teatro político de amadores, em inofensivos ensaios de renovação necessária, vista com diversidade mas convergência.

Eu era apontado como o "Lenine do Pereiro", para não ficar com a conta menor...

O senhor dr. Joaquim Cânova não o fizera por menos...» (A Regeneração, n.º 746, de 1.1.1950, página 4). Foram talvez estas eventuais "ligações" aos ideais revolucionários republicanos que o levaram à Penitenciária, durante algum tempo.

Nessa mesma comunicação de Chão de Couce, lembrando a sua terra natal, declamou, a certa altura, os seguintes versos:

 

Pousaflores é um torrão,

Perdido na serrania,

Onde o azeite e o pão

São trabalho e alegria.

Os seus lugares espalhados,

Por serras, entre verdura,

Lembram presépios sagrados

De paz, amor e ventura.

Assim, tão perto dos Céus,

Mãos postas em oração,

Está mais juntinho de Deus

Deste povo, o coração.

Em Lisboa, viria a proferir uma palestra de conteúdo semelhante, e, mais tarde, já em finais da década de 1960 (cf. Serras de Ansião, de 15 de Fevereiro, páginas 1 e 2), publicaria um pequeno livro intitulado Unidade Religiosa e Acção Política onde defenderia a cooperação entre a Igreja, a Escola e cada Junta de Freguesia, procurando que as três instituições tornassem a vida melhor para as pessoas.

Na década de 1950, quando se incentivou o culto, a nível nacional, ao Beato Nuno Álvares Pereira - o herói das Guerras da Independência no contexto da Crise Dinástica de 1383-1385 - o Prof. Manuel Silva ofereceu uma Imagem de D. Nuno Álvares Pereira à Igreja Matriz de Pousaflores. Foi nas "férias grandes" de 1953, e A Regeneração (n.º 835, de 1 de Setembro de 1953, página 2) trouxe a notícia, sob o título "Gesto Nobre":

«Pessoa amiga fez chegar ao nosso conhecimento que o Sr. Manuel da Silva, distinto professor na Casa Pia de Lisboa, actualmente em gozo de bem merecidas férias, ofereceu, num gesto que muito o dignifica, à Igreja Paroquial de Pousaflores, uma linda imagem do Beato Nuno Álvares Pereira.

Bem haja Sua Ex.ª pelo acto tão generoso que acaba de praticar e oxalá a juventude saiba copiar do Herói-Santo, seu padroeiro, as lídimas virtudes que ornaram o seu espírito de verdadeiro cristão e heróico patriota».

Como acima se disse, o Prof. Manuel Silva normalmente estava presente nos momentos de Festa para Pousaflores. A título de exemplo refira-se, que, no dia 10 de Dezembro de 1966, a freguesia de Pousaflores inaugurou a electrificação dos lugares de Mouta Redonda e Portelas de S. Lourenço e de S. Caetano. Estas inaugurações integravam-se na Comemoração do 40.º Aniversário da "Revolução Nacional" no concelho de Ansião, que então foi visitado pelas mais destacadas autoridades políticas e militares do Distrito. A jornada festiva terminou com um lanche servido no Salão Paroquial de Pousaflores às personalidades que visitaram o concelho, tendo discursado, naquela ocasião, o Prof. Manuel Silva que proferiu palavras de enorme simpatia aos ilustres visitantes.

O Prof. Manuel Silva foi casado com a Sr.ª Professora D. Maria José de Sousa, do Pereira de Cima, onde o casal teve residência. Ficaria viúvo no início de Junho de 1973, quando sua esposa, já então Professora aposentada da Casa Pia de Lisboa, morreu na sequência de uma crise repentina que lhe deu na ocasião do funeral de D. Hermínia Afonso, de Lisboinha, mãe do Comendador Alberto Mendes Rosa.