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*Manuel Augusto Dias

Freguesia de Pousaflores (24)

Fonte de Pousaflores com História

Depois de termos passado em revista algumas das muitas personalidades ilustres de Pousaflores, vamos tratar hoje de uma fonte secular que existiu em Pousaflores, e que tinha virtudes medicinais.

Foi um antigo colaborador da Voz das Cinco Vilas, o Sr. Manuel Leal Júnior (natural da freguesia de Aguda), que naquele periódico (n.º 32/33, de Agosto/Setembro de 1969, página 3), se referiu à dita fonte.

A informação foi buscá-la a um velho livro comprado, a custo, numa feira do Avelar, era ainda menino. Recordemos, pelas suas próprias palavras, a história da compra desse "tesouro":

«Teria eu 14 anos quando fui ao Avelar com minha mãe e meu pai.

No domingo da feira do mês nunca faltava, percorrendo o largo a visitar as tendas e a cheirar os peixes do Rio Zêzere que algumas mulheres fritavam em frente da loja do sr. Alfredo Manso.

Um dia descobri um homem bastante velho, magro, mas de boas maneiras, que vendia alfarrábios ao lado do coreto.

No meio dos alfarrábios descobri um que me interessou, não sei porquê.

O velhote pediu-me 6 vinténs por ele. Fui procurar minha mãe que estava a comprar um quarteirão de sardinhas, que me deu um tostão, quem sabe com que sacrifício... Comprei o livro.

Chamava-se Aquilegio Medicinal, escrito pelo Doutor Francisco da Fonseca Henriques, natural de Mirandela, médico do Augustíssimo Rei de Portugal D. João V. Tem a data de 1726 o que quer dizer que tem agora 243 anos. Está bem conservado, com capas de carneira e dourados na lombada».

É desse livro, da página 79 e seguintes, que Manuel Leal Júnior retirou o que respeita à mencionada fonte e que a seguir transcrevemos, conservando a grafia de há 276 anos atrás:

«FONTE DE POUSA FLORES

No limite desta Villa, na falda de um monte, em que ha minas de ferro corre uma fonte, de cuja agoa se nos não disserão virtudes nem usos medicinaes: sendo assim, que se ella passa por mineraes de ferro, devemos ter por certo, que ha de ser deobstruente, e corroborante de estomago, e de muyta utilidade nos affectos hypochondriacos, e mesentericos: nos flatos melancholicos: nas febres albas das mulheres: nas suppressões dos meses por obstruções humoraes; nas obstruções das entranhas; e em todos aquelles casos, em que for necessario deobstruir; para o que tem tal virtude o ferro, que a agoa cosida com a terra das suas minas, desopila maravilhosamente, como experimentamos muytas vezes; o que não ignorou Zacuto Lusitano, que na sua Praxe Miranda diz, que he escusado o trabalho de preparar o aço para deobstruir, quando na terra que se acha nas suas minas, temos a mesma virtude. E se nós usamos de agoas chalybeadas, ou ferradas com as extinções do aço ou do ferro, quando queremos deobstruir: parece que com mays rasão nos devemos valer das agoas que correm pelas minas delle.

O certo he que a falta de curiusidade tem muytas cousas em desprezo, que postas em uso, poderão ser utilissimas.»

Refere ainda Manuel Leal Júnior que o livro do médico de D. João V fala de rios, caldas e de outras fontes na região, designadamente em Penela, Alvaiázere e Pias. Mas desconhece, como nós, o sítio exacto da localização dessa fonte de Pousaflores, se já alguma vez as suas águas foram ou não exploradas, ou se teriam sido alguma vez analisadas.

No entanto, o Sr. Alberto Lucas, no seu livro Crónica Histórica de Pousaflores, página 16, aludindo a esta mesma fonte, considera que o Monte referido pelo Dr. Francisco da Fonseca Henriques é o Cabeço das Pinheiras Mansas, onde se situa actualmente o Campo de Jogos de Pousaflores. No sopé desse Cabeço, escreve Alberto Lucas, havia uma fontinha, a Fontinha do Pobral, que «ainda há pouco brotava espontaneamente», e, por outro lado, em redor da fonte existem muitas pedras ferrosas.