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*Manuel Augusto DiasFreguesia de Pousaflores (27)
O incêndio da Capela-Mor da Igreja de Pousaflores
As igrejas são quase sempre os mais preciosos monumentos das povoações rurais e até de alguns aglomerados urbanos. Construídas quase sempre à custa do povo cristão, ou de um ou outro donativo mais avultado de algum benemérito, elas marcam normalmente, o centro cívico das povoações. Lá dentro guardam, muitas vezes, autênticas preciosidades, sejam as imagens dos santos venerados, sejam retábulos dos padroeiros, sejam altos e baixos relevos, mais ou menos ricos pela sua talha dourada, sejam os altares centrais e laterais, sejam ainda os painéis de azulejos alusivos, geralmente, à vida de Cristo, de Nossa Senhora ou dos santos.
A Igreja de Pousaflores não é excepção. Trata-se de facto do elemento patrimonial de maior valia na sede desta freguesia. E a sua Capela-Mor era realmente valiosa pela talha dourada que guardava e pela veneranda imagem da Padroeira, N.ª Sr.ª das Neves.
Assim, quando, na noite de 29 de Dezembro de 1969, deflagrou um incêndio naquele templo, o povo, surpreso, esperou o pior. Felizmente os Bombeiros Voluntários de Ansião e de Alvaiázere acorreram ao local e conseguiram evitar que as chamas alastrassem à sacristia e ao corpo da Igreja.
A Voz das Cinco Vilas, n.º 37, de Janeiro de 1970, noticia o trágico acontecimento, escrevendo, a certa altura o seguinte: «Quando o sacristão sr. João Simões se dispunha a recolher-se à cama - seriam 23 horas - providencialmente acorreu-lhe vir à porta ver o tempo. O que viu, porém, foi alarmante: da igreja o fogo irrompia, forte, na direcção da capela-mor.
A toda a população local foi dado o alarme e logo foram pedidos, telefònicamente, os Bombeiros de Ansião e Alvaiázere que prontamente compareceram.
A rapidez com que foram dados os socorros fez que o incêndio - ao que se julga motivado por curto circuito - não se tivesse propagado à sacristia nem ao corpo da igreja. Ardeu quase todo o altar-mor, de rica talha dourada, tendo abatido o tecto. O Santíssimo Sacramento que se encontrava em sacrário de cofre de ferro, foi então transferido para o Salão Paroquial.
O Rev.mo Pároco sr. Padre António Lopes de Melo que assistiu ao apagar do incêndio, elogiou, no final, a acção dos Bombeiros, afirmando que à sua rápida comparência se fica devendo não ter o incêndio mais trágicas proporções.
O Sr. Bispo de Coimbra, Fr. Francisco Rendeiro, visitou no dia imediato esta igreja, avistando-se com o Rev. Pároco a quem deu todo o amparo moral.
Desde logo a população manifestou a melhor boa vontade e entusiasmo na restauração da igreja, sendo fácil prever grande movimento de solidariedade e de fé em tamanha obra».
Efectivamente, o povo da freguesia, aderiu entusiasticamente a uma subscrição que logo se organizou tendo em vista a reconstrução da Capela-Mor da Igreja de Pousaflores, e a reposição das Imagens de Nossa Senhoras das Neves e Nossa Senhora de Fátima que também foram devoradas pelo fogo.
O jornal "Voz das Cinco Vilas" dá depois nota dos donativos que, entretanto, a fé e o querer do povo de Pousaflores (residente na Paróquia, ou noutras partes de Portugal ou do Mundo), de outras freguesias do concelho e até de fora do concelho de Ansião, foram fazendo, rumo àquele objectivo.
Menos de meio ano depois era inaugurada e benzida a Capela-Mor da Igreja de Pousaflores, cujas obras somavam um montante de 144 250$00, e os donativos perfaziam a quantia de 136 935$00, faltando apenas pouco mais de 7 mil escudos. Na altura a freguesia tinha 650 casas, e 450 já haviam contribuído com o seu donativo.
O jornal "Voz das Cinco Vilas", n.º 42, de Junho de 1970, noticia, assim, a inauguração e benção da nova Capela-Mor da Igreja de Pousaflores:
«No dia 7 de Junho dignou-se vir até nós o Venerando Pastor da Diocese. Às 17 horas em ponto chegava S. Ex.ª Rev.ma junto à casa paroquial. Após a saudação académica feita pelos estudantes da paróquia, organizou-se um cortejo, indo já em andores as novas imagens do Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora das Neves (padroeira) e Nossa Senhora de Fátima. Efectuada a bênção das imagens e do Sacrário, o Senhor Dom Francisco, celebrou a Santa Missa que foi solenizada pelo grupo coral, estando ao órgão o nosso seminarista António de Jesus Simões e a dirigir o canto seminarista do 8.º ano Carlos Alberto. Terminado o Santo Sacrifício da Missa, Sua Ex.a Rev.ma e outras pessoas amigas, dignaram-se merendar na casa paroquial. Com bastante sacrifício vieram também até cá o bom amigo, orientador da reconstrução, sr. Padre Nunes Pereira e bem assim o incansável sr. Prof. José Marques, da "Bruma"».
Um ano depois, em Junho de 1971, o jornal "Voz das Cinco Vilas" apresentava as contas finais da reconstrução da Capela-Mor: total das despesas - 151 384$00; totalidade dos donativos recebidos - 150 424$00. Faltavam 960$00 que rapidamente foram pagos graças a mais um donativo, no montante de 4 000$00, que, naquela precisa altura, chegava de um paroquiano emigrado na África do Sul. Muitas vezes, "Deus escreve direito por linhas tortas" tal qual diz a sabedoria do nosso povo!