No princípio

Sobre a humanidade pairam nuvens densas do espectro da guerra e do terrorismo internacional. O nosso País vive a opressão do cinto apertado, as incertezas da economia, a retracção das empresas. O mundo desorienta-se diante das ofertas sedutoras do consumismo, não sabendo lidar com os avanços da ciência, que levam ao desespero da colonagem de seres humanos ou ao grito de vitória nos domínios do cromossoma catorze.

Novo ano começa. Não é um eterno retorno, porque ano novo, vida nova! Para nós cristãos, é tempo de esperança, de compromisso, de ser testemunha. Porque "no princípio era o Verbo, e o Verbo se fez Homem, e nós vimos a sua glória".

Numa Igreja com limitação de meios, de trabalhadores, de estruturas difíceis de mobilizar, não falta, entretanto, o espaço para a ousadia, o sonho e os novos desafios. Tendo a certeza de que "se o Senhor não edificar a sua casa, em vão trabalham os construtores". Que o Espírito é quem dá a vida. Que Ele continua connosco "até ao fim dos tempos".

No início de mais um ano reafirmamos os nossos propósitos, refazemos planos, determinamos objectivos, meios e metas. É hora de construir, de renovar, de anunciar, de servir e de amar.

A Diocese de Coimbra, nossa Igreja particular, tem um plano a cumprir, com prioridades para a família, os jovens, os que mais sofrem, o diálogo entre fé e cultura. A pastoral de conjunto, particularmente ao nível de arciprestado, é cada vez mais uma exigência, que não se pode impedir com atavismos. No que respeita a Ansião e Penela é imperativo a que urge deitar as mãos. As paróquias devem mobilizar-se em torno de um conjunto de sectores bem específicos: uma pastoral familiar cada vez mais estruturada e atenta; a evangelização geral, com particular atenção às novas gerações; e também outros trabalhos pastorais com grupos de jovens, associações e centros de juventude, organização adequada da caridade, diálogo com o mundo, atenção muito cuidada aos afastados, nova evangelização.

Há uma chamada permanente a acolher, deixar tudo e partir, porque Ele entrou nas nossas vidas, mexeu connosco, transformou e desinstala. E sempre nos envia à missão: "Ide por todo o mundo..." Na encíclica "Redentoris missio" João Paulo II recorda que a evangelização está mesmo no seu início. No começo de novo milénio, o Papa interpela e desafia: faz-te de novo ao largo!

Com a consciência da presença viva do Senhor entre os seus, a Igreja deve dar um novo impulso â sua acção evangelizadora e pastoral. Não inventando novos programas e planos, a comunidade cristã deve empenhar-se no horizonte da sociedade com o dinamismo sempre renovado de quem sabe que tem uma mensagem a comunicar, um projecto a partilhar, uma tarefa de transformação a empenhar. E mexe com todos. Que ninguém se ponha de fora. No princípio... vamos ao caminho, cruzar o mundo.

Armando Duarte