Sugestões quaresmais
Ainda nos lembramos da história do Dilúvio? Os homens afastaram-se de tal modo dos planos de Deus que Ele, conforme diz o texto sagrado de forma dramática, se "arrependeu de ter criado o homem sobre a terra e o seu coração sofreu amargamente". E o Senhor disse: "Eliminarei da face da Terra o homem que Eu criei, e, juntamente com o homem, os animais domésticos, os répteis e as aves dos céus, pois estou arrependido de os ter feito." (Gn 6, 6-8) Noé, porém, era agradável aos olhos do Senhor.
A partir de Noé e sua família, que o Senhor esperou pacientemente que se recolhesse na arca, restaurou a humanidade, começou-a de novo, numa aliança cujo sinal é o da bonança depois da tempestade, o arco-íris, o arco em que o Céu abraça a terra.
Quando S. Pedro diz que a água do dilúvio é a figura do Baptismo (1Pe 3, 21), está a dizer-nos que a nova e eterna aliança, o novo e definitivo arco-íris, é Jesus Cristo verdadeiro homem e verdadeiro Deus; a Igreja é a nova barca onde se acolhem os justificados por Deus, semente de uma nova humanidade. É esta a nossa fé na ressurreição de Jesus e no Baptismo como participação nossa, dada por Deus, na mesma ressurreição.
Essa participação é, no entanto, tal como, aliás, o experimentamos, em semente, e só a viveremos na plenitude passando pela morte. É por isso que, apesar de estarmos na nova barca, precisamos continuamente de renovar a nossa aliança cansada com Deus, de renovar o nosso amor cansado das infidelidades, de começar ciclicamente de novo, como se todos os anos recebêssemos o Baptismo pela primeira e única vez. É isso a Quaresma e a Páscoa.
O próprio Jesus, assumindo tudo o que é próprio de nós excepto o pecado, ensina-nos o que é preciso para essa renovação: ir para o deserto, para o silêncio da solidão connosco e com Deus, sem levar nada do que do mundo e da vida nos distrai de nós e de Deus, experimentar o que custa esse despojamento nas tentações e na vitória sobre elas para amar mais a Deus.
O fruto natural desse despojamento, o centrarmo-nos mais no essencial, é que nos dá aquela naturalidade no testemunho das nossas convicções interiores, dos nosso ideais que, iluminados no seu sentido por Deus, são ideais de realização humana; que é isso também, afinal, a profissão de fé baptismal: renunciar ao mal para crer e confiar apenas e só em Deus e no seu caminho. Ocorre-me, a este propósito, recordar que uma das prioridades para o presente ano no programa pastoral diocesano é, exactamente, o diálogo entre a fé e a cultura, no sentido de promovermos o contributo dos cristãos para a definição dos valores e ideais em que se fundamenta a construção da paz na nossa sociedade cada vez mais plural.
Vale a pena, nesse contexto, chamar a atenção para um tema actualmente em discussão na sociedade portuguesa: a procriação medicamente assistida. Levantam-se problemas éticos nesse mundo da medicina a que nenhum cristão pode ficar indiferente: tratar-se-á sempre e só de medicina, isto é, para curar, ou de uma técnica indiscriminadamente usada simplesmente porque é possível? Um filho é um dom ou um direito, ou mesmo capricho? Qual o lugar da família no processo da geração e criação dos novos seres humanos? Como garantir a inviolável dignidade do ser humano logo desde a concepção?
Graças a Deus, oportunidades não faltarão para informar e formar a consciência, depois da intervenção pública da Conferência Episcopal: as Jornadas Teológicas do ISET de Coimbra, nos dias 24 e 25 de Março, as Jornadas Quaresmais do Arciprestado de Figueiró dos Vinhos nos dias 8, 15 e 22 de Março, as Jornadas Quaresmais da paróquia de Pombal às sextas feiras da Quaresma e, depois da Páscoa, na Semana da Vida, um ciclo de palestras no Arciprestado de Ansião e Penela. São aquelas iniciativas com esse tema relacionadas de que tenho notícia. Ninguém que possa deixe de aproveitar.
Entretanto, um grupo de cidadãos, originários de vários quadrantes da sociedade portuguesa, lançou uma campanha para a reunião das 75000 assinaturas necessárias para pedir um referendo em que a sociedade civil se pronuncie sobre as dúvidas mais importantes levantadas pelos projectos de lei em discussão às quais me referi acima. Sou da opinião de que conseguir tal referendo será uma oportunidade inestimável para esclarecer os portugueses em geral, como também de levar à prática uma democracia verdadeiramente participativa que se justifica amplamente em tema como este. Participar neste debate de forma activa, dando testemunho dos ideais humanos iluminados pela Palavra de Deus em que nos fundamos, também isso é abrir-nos à renovação pascal, ao mesmo tempo que semeamos no mundo os valores do Reino de Deus em que o arco-íris do alto abraçará finalmente a terra.
P.e Pedro Miranda