Quem é quem...

 

O momento histórico que estamos a viver em Portugal, se vivido intensamente mas em profundidade, pode ser uma oportunidade muito fecunda para a Igreja e para a sociedade. Ocorre-me apontar alguns dos frutos dessa oportunidade, primeiro para a Igreja, depois para a sociedade em geral.

Primeiro: aprofundamento da consciência da vida cristã como compromisso ético e moral, indispensável para purificar um tentador cristianismo intimista, acomodado e instalado na observância de actos religiosos à medida da afectividade religiosa de cada um. Segundo: esse compromisso ético também tem as suas definições de conteúdos:"Portanto, com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus Sucessores, em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, confirmo que a morte directa e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo o homem, pela luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm, 14-15), é confirmada pela Sagrada Escritura, transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal."(João Paulo II, Evangelium Vitae, 57) Nota-se logo pelo estilo (muito próximo do das definições dogmáticas, isto é, acerca da fé) que o Papa dá a esta afirmação um grau de definição muito elevado, a requerer dos fiéis católicos, que honestamente o procurem, uma adesão decidida. O facto de a liberalização e legalização civil do aborto até às dez semanas criar entre a lei civil e a lei moral uma contradição total, a ponto de esvaziar a lei civil do seu fundamento e finalidade, a saber, proporcionar a possibilidade de uma convivência social justa e respeitadora de todos, especialmente dos mais fracos e indefesos, faz com que ninguém possa honestamente vir a público invocar a sua condição de "católico" para justificar a sua adesão à referida despenalização- liberalização do aborto. É necessário rezar por esses, para que sejam honestos no uso do título de "católico" e para que não se afastem ainda mais da comunhão com a Igreja. Católicos indefinidos descalcificam a Igreja.

O terceiro fruto possível desta oportunidade, neste caso para a sociedade em geral, é o seguinte. É no mínimo estranho que todos se digam contrários ao aborto e empenhados em torná-lo cada vez mais raros. Até num dia destes um destacado emissor de opinião que se diz adepto da despenalização-liberalização dizia que era muito importante os movimentos com que ele se identifica anunciassem o que pretendem fazer pela vida, pelas mães em dificuldade, se o "sim" ganhar; e teve ainda o desplante de dizer que depois do referendo de 1998 os movimentos pelo "não", que o ganharam, não fizeram nada; regressaram todos a casa muito descansados por o "não" ter ganho e abandonaram as mulheres à sua sorte: nada mais falso. São muitas as instituições, a maior parte das vezes de puro voluntariado, que surgiram na sequência do referendo de 1998, que trocam entre si informação do que fazem e podem hoje dizer que já ajudaram a nascer cerca de 10000 bébés. Parece que, afinal, somos todos pela vida; só que uns pensam que a mulhere tem o direito de, completamente só e por si só, decidir se o filho nela gerado vai ou não nascer. É paradoxal, não é? Como se pode ser pela vida humana e ao mesmo tempo sobrepor-lhe a liberdade individual, de modo que ninguém, nem o próprio estado, pode defender aquele que inocentemente veio à existência?

Em suma, este momento histórico é uma oportunidade excelente para tomarmos consciência de que civilização, de que modelo de convivência humana em sociedade queremos construir. Para isso é fundamental sabermos "quem é quem", não para nos guerrearmos irracionalmente, como tantas vezes aconteceu em procesos revolucionários ao longo da história, mas para nos confrontarmos honestamente; porque só nesse confronto honestamente racional, não assente em ludíbrios fáceis infelizmente típicos das campanhas entre partidos sem ideias e ideais, pode saír o diálogo construtivo. Não podemos ter vergonha de sermos quem somos e devemos esperar e exigir dos outros, diferentes de nós, que se exponham claramente em relação aos valores e princípios fundamentais; o contrário disto só produzirá o pântano da chamada "tolerância" que não é senão um embrulho bonito do "deixar correr": desde que cada um dos que o podem faça o que quer, está tudo bem.

Um cristão não pode dissolver-se nesta mentalidade. Jesus Cristo deixou-nos o mandamento do amor com uma orientação muito concreta, que nos impede de deixar correr:"Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas" (Mt 7, 12) "O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também" (Lc 6, 31). Isto, de facto, é exactamente o contrário do deixar correr.

Pe Pedro Miranda