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Por Manuel Augusto Dias

SANTIAGO DA GUARDA (1)

Os primeiros vestígios de ocupação humana

A partir desta edição, e prosseguindo o mesmo objectivo de dar a conhecer alguns aspectos da história de cada uma das paróquias do Arciprestado de Ansião, começamos a divulgar os dados, que foi possível recolher, referentes à maior freguesia (em área e população) do concelho de Ansião - Santiago da Guarda.

Protegida dos ventos marítimos pelo alto da Serra da Sicó, a área da freguesia dispersa-se pelas encostas a Nascente daquela Serra, pegando, a Oeste, com o concelho de Pombal, a Este e Sudeste, com as freguesias de Torre de Vale de Todos e de Ansião e, a Norte, com a freguesia do Alvorge.

Ora, bem próximo do centro da freguesia, existe um pequeno planalto fértil, ou várzea, que se prolonga por alguns quilómetros de comprimento, desde a Guarda até à Venda do Brasil, e que, em algumas zonas, tem mais de 1 quilómetro de largura. Delimitado, a Norte, pelo Monte Alvão e pela elevação do Outeiro, prolonga-se para lá da Guarda pelo Vale Longo, a Sul, serve-lhe de fronteira natural o Monte do Moinho da Ladeira e a elevação de Santiago da Guarda. As povoações desse planalto são: Casais da Granja, Granja, Várzea, Carvalhal, Casal de Arouca, Casal do Galvão e Guarda. Muito provavelmente, será, nessa região e zonas limítrofes, que se encontra o maior número de vestígios da ocupação humana mais antiga, sobretudo do tempo dos romanos e dos árabes.

Sem dúvida que as primeiras comunidades humanas que aí se fixaram tinham na agricultura, na caça e na pastorícia as principais fontes do seu sustento e sobrevivência. Ainda hoje, parte das famílias campesinas, é dessas actividades ou das reformas pagas pelo Estado que vão vivendo. Entre as actividades directamente ligadas à pastorícia destaque-se, desde já, a confecção do afamado queijo do Rabaçal, que, nesta freguesia, tem tido ultimamente uma grande projecção, como mais adiante se há-de ver.

Entre as provas materiais da presença dos povos romanos e árabes nestas paragens, basta referir, os túneis subterrâneos do campo da Várzea, o Poço do Carvalhal, os restos romanos de materiais de construção dispersos por algumas terras de cultivo, os mosaicos que apareceram na área da residência acastelada dos Condes de Castelo Melhor e a antiga via romana. Faz parte também da memória colectiva do povo local, um conjunto de lendas mouras que seria importante recolher, se ainda se for a tempo.

Ainda no tempo de estudantes em Coimbra, eu, e os meus amigos Ilídio Baptista e José Eduardo fizemos várias digressões em Santiago da Guarda, onde tivemos contactos com alguns destes vestígios materiais.

Lembro-me muito bem de termos estado junto do Poço do Carvalhal, de termos ouvido histórias de estranhos percursos subterrâneos de animais e pessoas que saindo do Poço do Carvalhal foram ter a vários quilómetros de distância, e recordo, como se fosse hoje, a emoção de ter descido por uma clarabóia, a um túnel construído em pedra bem aparelhada, revestida de argamassa, cuja largura, ao cimo, perto da abóbada em berço, que cobre o dito espaço, ultrapassava os dois metros. Pela sua amplitude, fez-me lembrar os túneis dos comboios. Não soubemos a profundidade, nem foi possível avançar, porque toda a construção se encontrava obstruída por terra e pedras, caídas por efeito do repetido amanho secular das terras à superfície.

É, no mínimo, estranho uma construção de tal envergadura, mesmo que seja um criptopórtico, a não ser que, na região envolvente, existisse um grande aglomerado romano, que poderia ser até a cidade de Conímbriga. Parece, pois, que já seria altura dos interesses culturais e patrimoniais de toda a comunidade se sobreporem aos interesses materiais de algumas pessoas e que, definitivamente, os investigadores pudessem dispor de liberdade absoluta para procederem ao necessário estudo daquele espaço. Era bom para a freguesia, para o concelho e para a região, para não dizer para o País, pois tudo depende daquilo que realmente for encontrado.

Não há dúvida, também, de que toda esta região esteve ocupada pelos mouros durante vários séculos, e que a Reconquista Cristã não foi, de forma nenhuma, um fenómeno indiferente à região. Os mais antigos ainda sabem entreter os netos recontando velhas histórias de mouras encantadas. Curiosamente, o Cortejo Alegórico das últimas Festas do Concelho (2002), contou com a reposição desta temática, precisamente no carro que veio de Santiago da Guarda, engenhosamente concebido pelo seu Centro de Amizade e Animação Social. Num folheto que na ocasião foi distribuído à população, escrevia-se, a propósito dessas lendas, o seguinte:

«Contava o povo que os mouros, com os seus poderes mágicos, que só podiam ser artes do demo (porque de Deus não, já que eles eram infiéis), construíram o castelo de Santiago numa única noite; e ainda na mesma noite tiveram tempo para abrir um poço (a que em Santiago se chamava cisterna), o qual, de tão fundo, nem tinha fundo. E dizia ainda a tradição que, daquele poço e do castelo, partiam túneis que conduziam a lugares distantes.

Reza a lenda também, que algures no castelo de Santiago estão enterrados dois potes, que ali foram deixados por uma moura encantada. Um está cheio de ouro e outro de alcatrão.

Quem cavasse no sítio certo poderia encontrar um desses potes. Porém: cuidado almas de Cristo! Porque se encontrardes o pote de ouro, sereis ricos e felizes, mas se tiveres o azar de deparar com o pote de alcatrão, este explodirá em chamas e causará a morte do corpo e a perdição da alma».