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Por Manuel Augusto Dias

SANTIAGO DA GUARDA (3)

As aldeias que vêm do tempo da nacionalidade

Como já se viu, nos artigos anteriores, parte da freguesia de Santiago da Guarda foi ocupada pelo homem desde tempos imemoriais, cuja história se não pode fazer, com rigor, por falta de fontes documentais suficientes. Há, no entanto, fontes materiais que garantem a humanização destas paisagens desde há milhares de anos.

O tal planalto de que falámos, logo no primeiro artigo (edição de Janeiro), parece ter sido, pela sua fertilidade e extensão, o centro da ocupação humana desde que o homem se dedicou, de forma mais sistemática, à agricultura.

Ocupado sucessivamente pelos romanos e pelos mouros, sê-lo-ia também na Idade Média, mantendo ainda hoje os principais aglomerados, embora já decadentes, que começaram a existir, pelo menos, no século XII, altura em que mais se consolidou a nacionalidade portuguesa, com o reconhecimento do Reino de Portugal. Nesse tempo, a antiga via romana, de que se preserva (apesar do seu ar de abandono, reclamado no nosso último artigo) uma pequena extensão, próximo de Vale de Boi, vinha de Ansião (via Ponte Galiz), seguia por Vale de Boi, Estrada, Matos de S.ta Bárbara (daqui derivaria uma estrada secundária que depois de passar por Santiago se iria ligar à principal na várzea da Granja), Granja e Junqueira. Neste fértil planalto tinha o sentido Sudoeste-Nordeste, passando junto ao fundo da encosta Sul do Monte Alvão.

Durante a Idade Média, mais concretamente no período em que se fez a reconquista cristã desta região, teria mantido o nome Façalamim, de origem árabe - fahç al mir - que significará "campo do amir", ou seja "campo do rei/príncipe" (cf. José Eduardo Reis Coutinho, Ansião/Perspectiva Global da Arqueologia, História e Arte da Vila e do Concelho, Coimbra, 1986, p. 181). Façalamim ficava ainda dentro da Região da Ladeia.

A Região da Ladeia estendia-se desde Fonte Coberta / Alfafar, a Norte, até Soucide / Façalamim / Sarzedela (já nas imediações de Ansião), a Sul, e era delimitada a Nascente e a Poente por um conjunto de elevações naturais que variam entre os 300 e 500 metros de altitude. A Poente, os pontos mais altos, de Norte para Sul, são as elevações de Carvalhosa (403 m), Pombalinho (300 m), Gasparinha (306 m), Urjariça (346 m), Alvorge (291 m), onde havia uma Torre de defesa e Monte Alvão (349 m). A Nascente, também de Norte para Sul, as elevações que melhor se destacam na paisagem são a do Castelo do Rabaçal (no Monte do Germanelo, a 367 m), Monte Jerumelo (409 m), Monte de Vez (512 m), Ateanha (422 m), onde existia outra Torre defensiva e Cabeço de Trás de Figueiró (381 m). Em termos morfológicos era uma espécie de banheira, como escreve Salvador Dias Arnaut (in Região do Rabaçal, A Terra e o Homem, edição da Câmara Municipal de Penela, Coimbra, 1961, p. 7) Ğalongada na direcção norte-sul, com cerca de onze quilómetros de comprimento por oito na maior largurağ. O fundo dessa "banheira" era maioritariamente constituído pelo campo do Rabaçal, irrigado, a meio, pelo Rio de Mouros que, desde o Alvorge, corre na direcção Sul-Norte, próximo da antiga via romana, de que a "estrada coimbrã" era, na Idade Média, uma fiel continuadora.

É claro que a Ladeia, nos primeiros reinados portugueses, foi tempo de grande insegurança, porque sujeita a constantes movimentos de guerreiros cristãos e muçulmanos, aqueles porque não queriam ser surpreendidos em Coimbra, estes porque tentavam, por todos os meios, evitar a expansão do domínio cristão para Sul. Por aqui passou muitas vezes D. Afonso Henriques, com o seu exército, à conquista de importantes cidades no centro do País, como Leiria, ou Santarém. Há mesmo quem afiance que a famosa Batalha de Ourique, travada entre D. Afonso Henriques e os reis Mouros, teve lugar na Ladeia, precisamente no Chão de Ourique, nas imediações da Torre da Ateanha.

No Sul da Ladeia, situavam-se, no século XII (tempo do seu repovoamento, após a reconquista cristã), segundo Salvador Dias Arnaut (op. cit., p. 6) as seguintes aldeias da freguesia de Santiago da Guarda (de Norte para Sul): Granja, Guarda, Santiago da Guarda, Soucide e Façalamim. Fora da Ladeia, existiam as povoações de Melriça, Pia Furada, Lagoa Parada e Vale de Boi, entre outras.

Entre todas, Façalamim, que parece designar mais uma micro-região (a do já, várias vezes, referido planalto fértil) do que uma povoação, é aquela de que existe maior número de referências documentais, desde o século XII até à Idade Contemporânea, e que já foram devidamente explanadas num artigo da autoria de José Eduardo Reis Coutinho, publicado na revista Munda (Coimbra) e intitulado precisamente "Façalamim".

Por aí, é possível, ainda que de forma intermitente, ficar com uma ideia mais precisa da história de Façalamim, desde o século XII. Assim, os seus primeiros proprietários teriam sido Palágio de Todas e sua mulher Elvira, que haviam adquirido esta propriedade a D. Afonso Henriques e a D. Mafalda; em 1148, estes seus proprietários teriam feito doação destas terras ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; em 1164, já pertencia ao Mosteiro de S. Jorge de Coimbra, nas mãos de quem se haveria de manter ao longo de vários séculos. Só em 1553, quando o Cardeal D. Henrique fundou a Universidade Jesuíta de Évora, é que os campos de Façalamim mudaram para a Companhia de Jesus, como um dos benefícios de que foi dotada aquela importante Instituição Religiosa, que ali chegou a ter um edifício apalaçado que serviu de residência aos Jesuítas encarregados do recebimento dos seus direitos. No tempo do Marquês de Pombal, acusados de terem estado envolvidos na tentativa de regicídio, foram extintos e os seus bens integrados nos da Coroa. Não parece ter sido o caso destes, que, ainda segundo José Eduardo dos Reis Coutinho (op. cit., p. 84), teriam passado, indevidamente, à posse de particulares, e, mais tarde, descoberta a ilegalidade, teriam sido vendidos em hasta pública. No antigo palacete dos Jesuítas, teria mais tarde vivido o Bispo de Coimbra, D. Francisco Pereira Coutinho. A propriedade de Façalamim, já no início do século XIX (1805), teria passado à posse da Marquesa de Angeja, D. Francisca Teresa de Almeida.