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SANTIAGO DA GUARDA (10)
Os Condes de Castelo Melhor (1.ª parte)
Como ficou prometido, e depois de feita uma breve síntese sobre a história do Solar dos Condes de Castelo Melhor, nas três últimas edições, vamos começar a tratar hoje dos vários proprietários deste palácio rural, onde se torna proeminente o nome da poderosa família nobre dos Condes de Castelo Melhor que o herdaram. Se as probabilidades de residência de qualquer um deles mal se podem colocar, já é bem mais verosímil que por aqui tenham passado algumas temporadas, a gozar a tranquilidade de uns dias de sossego em íntima comunhão com a natureza.
A construção da Torre, como já se viu em edições anteriores, remonta aos séculos XV e XVI. No portal de acesso ao pátio está assinalada a data de 1544, que estava sob o brasão esquartelado dos Vasconcelos, Ribeiros e Sousas do Prado, hoje já desaparecido.
Ora efectivamente, o seu primeiro dono, e quem sabe se não um dos que o mandou construir (?), foi um Vasconcelos: D. João Rodrigues de Vasconcelos, dono da Quinta da Guarda, onde certamente este imóvel se integrava. Seu filho, Pero de Sousa Ribeiro, terá sido o seu segundo proprietário, que, em 8 de Dezembro de 1476, já havia recebido das mãos do Rei D. João II, carta de privilégio de couto e honra da Quinta da Guarda e Feira da Moita Santa, herdando, mais tarde, de seu pai, essa mesma quinta, de que obteve carta de confirmação do Rei D. Manuel, no dia 10 de Maio de 1497.
Pero Sousa Ribeiro foi Fidalgo da Casa Real (por carta de 12 de Maio de 1487), Conselheiro do Rei, Senhor de Figueiró, Comendador e Alcaide-mor de Pombal. Foi também um dos principais poetas do meio palaciano na sua época.
De Pero Sousa Ribeiro a propriedade do "Castelo" e os títulos foram passando aos seus descendentes directos e legítimos: filho, neto, bisneto e trineto. Este último chamava-se Luís de Sousa e Vasconcelos e era o 4.º Alcaide-mor de Pombal. Quis o destino, que o seu parente Rui Mendes de Vasconcelos, Alcaide-mor da Covilhã e Penamacor, Capitão-general de Tânger e Mordomo-mor da Rainha D. Margarida de Áustria, tivesse obtido o título de 1.º Conde de Castelo Melhor, em 21 de Março de 1611, por mercê do Rei Filipe II (III de Espanha).
Em idade já avançada, o 1.º Conde de Castelo Melhor não tinha qualquer descendente varão para lhe legar propriedade e títulos. Por isso, pediu licença ao Rei para nomear como seu sucessor, Francisco de Sousa Vasconcelos, 5.º Alcaide-mor de Pombal (filho de Luís de Sousa Vasconcelos, trineto de Pero Sousa Ribeiro) com a condição de que este se casasse com a sua neta, D. Mariana de Lencastre (filha de sua filha D. Maria de Meneses). Como antes do combinado casamento, faleceu o noivo, o acordo passou, nas mesmas condições, para seu irmão, João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa que assim se tornaria o 2.º Conde de Castelo Melhor, e o primeiro desse título a ser proprietário do "Castelo de Santiago da Guarda".
Mas esta sucessão não foi nada pacífica. Outros familiares de D. Mariana de Lencastre, julgando-se preteridos reclamaram junto do Rei. A sentença final só foi dada em Madrid aos 12 de Setembro de 1631, a favor de João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa, mas, como na época os portugueses tentavam expulsar os holandeses que se haviam apoderado da Capitania de Pernambuco (Brasil), o 2.º Conde de Castelo Melhor viu-se obrigado a colocar naquele território brasileiro, às suas custas, uma companhia de 300 soldados. Conseguiu trocar este encargo por uma avultada quantia depositada no tesouro real, e só depois, já em 1635, quando já era casado com D. Mariana de Lencastre, por carta real datada de 18 de Julho desse ano, lhe seria concedido o título de Conde de Castelo Melhor. Mais tarde, outro documento real, confirmar-lhe-ia a posse dos mesmos Senhorios e Alcaidarias do 1.º Conde.
No próximo mês, veremos com mais pormenor o que foi a vida heróica do 2.º Conde de Castelo Melhor, de quem pouco se fala, mas que foi um daqueles portugueses de rija têmpera que lutou estoicamente pela sua Pátria e que chegou a ser Governador do Brasil. O mesmo se diga de sua esposa, D. Mariana de Lencastre, que foi a 1.ª Marquesa de Castelo Melhor e que também se revelaria uma verdadeira "mulher de armas".
(continua no próximo n.º)