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Por Manuel Augusto Dias
SANTIAGO DA GUARDA (16)
As invasões francesas (1.ª parte)
Feita, ainda que de forma sucinta, a história do único monumento nacional na área do Município de Ansião precisamente o Solar dos Condes de Castelo Melhor, em Santiago da Guarda, e dos seus proprietários nobres, vamos prosseguir esta rubrica, fazendo uma alusão, necessariamente breve ao impacto das invasões francesas na região e também em Santiago da Guarda .
Como é sabido, a História de Portugal na primeira metade do século de XIX, sobretudo após 1807, com a 1.ª invasão francesa, e até 1851, data do Movimento da Regeneração, foi bastante atribulada, pelas suas dramáticas convulsões, que se estenderam praticamente a todo o país, atingindo de forma particularmente atroz esta região, por ficar no caminho natural entre todo o Norte e a capital.
Pelo facto de Portugal não ter aderido ao Bloqueio Continental, que proibia a entrada de navios ingleses nos portos europeus (incluindo nos portugueses), Napoleão que, com essa medida, pretendia debilitar a Inglaterra para mais facilmente a vencer, mandou invadir Portugal. Assim, em Novembro de 1807, o general francês Junot (antigo embaixador de França em Portugal), acompanhado de 25 000 homens, invade Portugal pelo vale do Tejo, chegando a Lisboa sem grandes dificuldades. Entretanto, a Corte Portuguesa refugiara-se no Rio de Janeiro, deixando uma Regência em Portugal que Junot substituiu quando entrou em Lisboa. Depois, tratou de ocupar, militar e administrativamente, todo o Reino, enviando guarnições militares para as principais vilas e cidades.
Pouco tempo depois, começavam os levantamentos populares, um pouco por toda a parte, contra os franceses que tiveram os piores comportamentos contra a população portuguesa: roubos, mortes, violações, destruição são as marcas da sua passagem por Portugal, durante os anos das invasões. Os dados disponíveis da razia provocada pelas invasões francesas, na população portuguesa, apontam para 150 mil mortos, 100 mil dos quais civis.
Ora, segundo conta um dos homens instruídos que assistiu às Invasões Francesas, José Acúrsio das Neves (antes do fim do século XVIII concluiu o Curso de Direito na Universidade de Coimbra, tendo sido Juiz de Fora e Corregedor na cidade de Angra, na Ilha Terceira, dos Açores, donde regressou precisamente nos finais de 1807), na sua obra intitulada História Geral das Invasões Francesas em Portugal e da Restauração deste Reino (páginas 185 a 190), uma das primeiras terras da Estremadura a levantar-se contra os franceses, aquando da 1.ª Invasão, foi Tomar, no dia 2 ou 3 de Julho de 1808. Portugal estava num estado de guerra. As pessoas armavam-se com o que podiam, e guardavam de dia e de noite, as estradas e caminhos principais, para evitar a circulação dos franceses.
Passando por Chão de Couce e Pontão, uma das principais vias que fazia a ligação entre o Sul e o Norte, e sendo a primeira daquelas localidades, sede da Comarca das Cinco Vilas, provida de ordenanças e milícias, não é de admirar que José Acúrsio das Neves aí tenha encontrado a maior força militar, de toda a estrada, entre Tomar e Coimbra.
As ordenanças estavam organizadas em companhias, e estas, associadas entre si num conjunto variável, compunham uma "Capitania-Mor", cujo chefe era um "Capitão-Mor", coadjuvado por um "Sargento-Mor". De acordo, com o Dr. Costa Simões (Topographia Medica das Cinco Villas e Arega, páginas 11 a 16), ainda viviam em meados do século XIX, nesta região das Cinco Vilas, vários desses graduados das antigas ordenanças e milícias, que em 1808 se levantaram, certamente, contra os intrusos franceses: Bernardo Freire de Melo, foi Capitão-Mor das ordenanças das Cinco Vilas (irmão do Conselheiro José de Melo Freire, que foi Professo na Ordem de Cristo e na de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Comendador da Torre de Espada e Fidalgo da Casa de Sua Majestade; ambos sobrinhos do famoso jurisconsulto ansianense Pascoal José de Melo), também formado em Direito, vivia em Almofala de Cima, tendo falecido em 23 de Setembro de 1852; António Lopes do Rego, que foi o primeiro proprietário da Quinta de Cima, após a extinção da Casa do Infantado, era o Sargento-Mor das ordenanças das Cinco Vilas, tendo nascido em 4 de Agosto de 1780, tinha 28 anos aquando da primeira invasão francesa, foi Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, e faleceu em 30 de Agosto de 1857.
Apresentados os principais responsáveis militares das Cinco Vilas, na primeira metade do século XIX, citamos o Juiz e Corregedor José Acúrsio das Neves, na descrição da sua viagem entre Tomar e Coimbra, no início daquele temível Verão de 1808:
«Continuando a minha jornada pela estrada do Espinhal, encontrei já revolucionados todos os povos por onde passei, vendo-me suspendido a cada passo pela severa polícia dos paisanos, para os seus exames, e tendo de atravessar por entre os chuços e espingardas velhas das suas sentinelas, e dos seus corpos de guarda, que guarneciam a estrada, e de fazer muitos rodeios, por causa das trincheiras e cortaduras que nela se haviam formado. À entrada do distrito de Chão-de-Couce estava a maior destas barreiras, comandada por um oficial militar de que sinto ignorar o nome, pela extraordinária actividade e entusiasmo que manifestava. A poucos passos encontrei o corregedor da comarca José Firmino da Silva Giraldes, que andava visitando de cavalo os diferentes postos, acompanhado de muitos oficiais civis e militares. Aqui já se executavam as ordens de Coimbra.
Presenciei também alguns sintomas destas comoções vertiginosas que a desconfiança e a efervescência popular fizeram tão gerais por toda a parte do reino nesta revolução; mas tive ocasião de igualmente observar por experiência o que a razão dita a todo o homem cordato, que quando às suspeitas se não ajunta a malignidade, são a prudência e o bom modo um excelente salvo-conduto em tais conjunturas. Este foi o escudo que me livrou de ser molestado em toda a minha jornada, tendo um magistrado que as suas cãs faziam respeitável e seguia a mesma estrada experimentado uma sorte bem diversa quase aos meus olhos, no lugar dos Cabaços, por causa de uma resposta imprudente do seu boleeiro. Foi maltratado de palavras e de mãos, e o caso chegaria a maiores excessos se não impusesse ao povo tumultuoso a presença de sua mulher, que tendo-se já recolhido a uma estalagem, saiu desgrenhada e correu pelas ruas clamando que lhe não matassem seu inocente marido». (continua na próxima edição)