Conheça a Sua Terra
Por Manuel Augusto Dias
SANTIAGO DA GUARDA (17)
As invasões francesas (2.ª parte)
Na última edição, tivemos oportunidade de lembrar o impacto da 1.ª invasão francesa nesta região. A 2.ª foi dirigida ao Porto, razão pela qual a nossa zona não foi minimamente afectada. Mas, a 3.ª invasão, foi aquela que mais marcou este espaço territorial, atravessado pelas tropas francesas, quer na vinda, quer na saída.
Efectivamente, em 1810, Napoleão investiu novamente sobre Portugal, com um exército estimado em 80 mil homens, procurando expulsar os ingleses da Península Ibérica e dominar definitivamente Portugal. Mas o General Wellesley respondeu com a construção de uma frente defensiva, que ia do Atlântico ao Tejo, conhecida por "Linhas de Torres Vedras". Esta primeira frente da defesa do exército luso-britânico procurava garantir a segurança da cidade de Lisboa. A 3.ª invasão francesa foi conduzida pelo Marechal André Massena, que tomou Almeida e, após um primeiro confronto com as tropas inglesas no Buçaco, logo seguido de outro na Redinha, ainda conseguiu avançar para Sul, sendo apenas travado nas Linhas de Torres Vedras.
Nesta última invasão os franceses, em grande número, passaram por todas as estradas que de Coimbra davam para o Sul (todas eram poucas para tantos militares), desde a via mais a Ocidente (por Soure e Pombal), passando pela estrada Coimbrã, por Ansião, e pela sua variante mais a Nascente, precisamente pela estrada de Chão de Couce - Pontão. A 13 de Junho de 1811, Wellesley, agora Lord Wellington, iniciou uma ofensiva que empurrou os exércitos franceses para fora da Península Ibérica, ao longo de Portugal e de toda a Espanha, que só terminou em 1814.
No período da 3.ª invasão, que na nossa Região durou quase um ano, desde o fim do Verão de 1810 até ao início do Verão de 1811, os franceses cometeram, aqui como pelas restantes terras onde passaram, as maiores tropelias e crimes de toda a ordem. Passaremos a referir alguns casos conhecidos daquilo que foram os desmandos dos franceses nesta Região.
No estudo que fizemos sobre a Confraria de Nossa Senhora da Paz da Constantina (1996), tivemos oportunidade de verificar na documentação daquela Instituição, que no ano de 1811, a Feira do dia 24 de Janeiro, uma das principais fontes de receita da Confraria, não chegou a realizar-se, em virtude dos franceses estarem na localidade. As duas casas da Confraria foram incendiadas e a Capela foi ocupada, não tendo sido permitida a celebração das missas, nem sequer aos Domingos. No Livro 4.º (de contas), a folhas 19 e 20, escreve-se, quando se apresentam as contas, a este respeito e no capítulo das receitas, o seguinte: «Feira de 24 de Janeiro não houve por causa dos franceses / o foro de 2 080 que recebiamos das casas também não recebemos, por causa dos franceses que queimaram as ditas casas». Ao darem conta das despesas, relativas ao Capelão, escrevem: «(...) Algumas destas missas que haviam de ser ditas aos Domingos e dias Santos, foram ditas de semana, por causa dos franceses (...)».
Mas não foi só na Constantina, que se registaram elevados estragos, outras povoações conheceram igualmente a onda de destruição e morte trazida pelos franceses.
Em Ansião, por exemplo, e de acordo com o registo do pároco (ver Serras de Ansião, n.º 189, de 31 de Julho de 1974, página 4), a passagem dos franceses ficou tragicamente assinalada: «(...) Roubaram e incendiaram a igreja e pilharam as capelas; Deixaram as casas sem roupas, nem móveis, nem bilhas, nem portas, nem janelas, nem mantimentos; Daqui proveio uma epidemia de febre, com grande mortandade; Foram cruelmente mortos 34 homens e 14 mulheres: uns depois de lhe serem arrancados os olhos eram puxados de rojos, atados à cauda dos cavalos e assim morriam; às cutiladas, a tiro, a esticadas de baioneta liquidavam outros; Violaram as mulheres moças e mesmo casadas, diante de seus pais, irmãos e maridos e as encheram de males. Os habitantes desta zona tiveram que andar a monte desde Outubro de 1810 a Março seguinte. Devido às privações que tiveram de suportar muitas pessoas vieram a falecer. Houve assim uma sensível diminuição da população (...)». Ainda em Ansião terão incendiado as Capelas de Nosso Senhor do Bonfim e a Capela das Lagoas (ambas restauradas ainda não há muito tempo).
Também Santiago da Guarda sofreu com as invasões francesas. Entre Outubro de 1810 e Abril de 1911, o respectivo Pároco e muito povo fugiram para a parte Norte do Rio Mondego, registando aquele, num apontamento provisório, a lista dos que por lá morreram ou que os franceses mataram conforme revela o Padre Armando, em artigos publicados no jornal Luz, edições n.os 13, 14 e 15, respectivamente de Julho, Setembro e Outubro de 1992. Depois do regresso, o Pároco passou para o Livro Paroquial de Registo de Óbitos, os nomes que constavam do referido apontamento, com a seguinte nota prévia: «(...) Relação das pessoas que morrerão, e matarão os Inimigos, depois que os mais do povo desta freguesia nos Retirámos além do Mondego até voltarmos para nossas Cazas (...)». Analisados os dados numéricos, verificou-se uma elevada taxa de mortalidade, sobretudo no mês de Abril de 1811: «Por dia morriam 3, 4, 5 e mais pessoas, o que faz prever as grandes dificuldades por que passou a população, com fome, doenças, maus tratos e falta de cuidados de saúde. (...) De 10 de Abril até final de 1811, registaram-se 82 falecimentos, enquanto em todo o ano 1812 houve apenas 14, e no ano de 1813 somente 13». Os franceses assaltaram a antiga Igreja Paroquial de Santiago da Guarda, levando o Sacrário e os Vasos Sagrados, pelo que durante muito tempo, alguns agonizantes não puderam receber a Comunhão, por não se poderem guardar as partículas consagradas.