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                                                                                Por Manuel Augusto Dias

 

SANTIAGO DA GUARDA (21)

O ensino primário no período da Primeira República

 

Terminámos o artigo anterior, a analisar medidas concretas da Primeira República favoráveis à expansão do ensino primário a todas as crianças do País. No entanto, este assunto não foi pacífico, nem a sua eficácia aquela que se desejava. O que se passou no concelho de Ansião, e concretamente nesta freguesia, serve para ilustrar bem o que acabamos de afirmar.

Entre 1912 e 1915, a luta política ainda só envolvia as várias facções do republicanismo. Neste período, a maior polémica que se iniciou no concelho de Ansião, foi a que envolveu a Câmara (Democrática, cuja Comissão Executiva era presidida por José Augusto de Medeiros), e a Inspecção do Círculo Escolar de Ansião (que tinha como Inspector, José Pereira Barata).

            Em causa, esteve a Escola de Santiago da Guarda. Sem edifício próprio, como sucedia na maior parte do concelho, a Escola teria de ser instalada em casa arrendada, depois do Inspector do Círculo Escolar se pronunciar favoravelmente. Ora, a primeira referência que encontrámos nas actas da Câmara de Ansião, relativamente à instalação desta Escola, foi na respeitante à sessão do dia 24.10.1912, em que foi apresentado um ofício da respectiva Junta de Paróquia, a pedir a vistoria à casa, para que o senhorio mandasse fazer os reparos necessários. Um ano depois (1913), Santiago da Guarda continuava sem Escola, por falta de casa, apesar de, relativamente à Escola masculina (criada apenas no papel), ter um excedente de 60 alunos, dentro da área obrigatória.

            Em 1914, quando, finalmente, surgia alguma esperança de instalar a Escola, estalou um conflito entre o Inspector do Círculo Escolar e a Comissão Executiva da Câmara de Ansião, que passou pela Auditoria, pelo Ministério da Instrução e chegou ao Supremo Tribunal Administrativo (como era costume, os jornais envolveram-se neste conflito. Muitos periódicos gastaram tinta com esta polémica, mas aqueles que se lhe referiram duma forma mais sistemática, foram os que se publicavam em Figueiró dos Vinhos: O Figueiroense para defender o Dr. Pereira Barata, valorizando o seu passado de lutador republicano; e a União Figueiroense para o acusar de anti-democrático, perseguidor de professores democráticos, protector de professores seus correligionários e, por isso, a partir de 1916, insistiu numa sindicância aos seus actos).

Na acta da Câmara, relativa à sessão do dia 9 de Abril, foi referido um ofício da Junta de Paróquia de Santiago da Guarda sobre a casa da Escola, informando o Presidente da Comissão Executiva, José Augusto de Medeiros, que, por causa do edifício da casa da escola de Santiago, se vem levantando um conflito por parte do Inspector, que acusa a «Comissão de não ter respeitado as disposições legais respeitantes ao assunto» [Acta da Câmara, da sessão de 9.4.1914, a fls. 114 a 115 v. O Inspector considerou que a casa não satisfazia as condições mínimas (em termos de higiene e visibilidade), para poder funcionar como Escola], e ter contratado um professor para essa escola.

            A Câmara, no entanto, ouvidas as explicações do Presidente da Comissão Executiva, decide manter a nomeação do Professor para a referida Escola, e aprova, por unanimidade, um voto de louvor a D.ª Margarida Augusta Dias da Silva, «pela oferta que fez a titulo provisorio de uma parte da sua casa de residencia para ali poder funcionar a escola da mesma freguezia e que esta deliberação da Camara lhe fosse comunicada». O Inspector, sabendo que a lei estava do seu lado, recorreu para a Auditoria de Leiria. A Câmara foi obrigada a fazer uma vistoria à casa rejeitada pela Inspecção. Nessa vistoria participaram o Dr. António Francisco do Vale Júnior e o Dr. César Augusto Mendes de Almeida, sendo estes de opinião que «a mencionada casa estava em condições de servir ao fim que a Camara destinava».

Julgando-se ofendido na sua dignidade profissional, o Inspector requereu ao Ministro da Instrução uma vistoria por peritos da especialidade, que acabou por ser feita a 4 de Junho de 1915. Foram peritos um médico escolar e dois inspectores de círculos escolares, que concluíram assim o seu relatório:

            «N'estas condições entendem os abaixo assignados que muito legal e criteriosamente procedeu o inspector do circulo escolar de Ancião, emitindo parecer de que tal sala não podia servir para installação da escola  que se tornaria n'uma fabrica de miopes».  

(continua no próximo número)