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Por Manuel Augusto Dias
SANTIAGO DA GUARDA (34)
O Visconde de Santiago (2.ª parte)
Na altura em que a Alfredo César Lopes Vieira foi dado o título de Visconde ele era Presidente da Câmara de Ansião e Administrador do Concelho. Porque não podia exercer as duas funções ao mesmo tempo, exercia a de Administrador e era substituído na Câmara pelo Vice-Presidente, Padre António Gaspar dos Santos. Quando na primeira sessão de Janeiro de 1907, voltou a ser reeleito Presidente da Câmara, já se assinava como Visconde de S. Thiago da Guarda.
Os anos passaram e, entretanto, chegou a revolução republicana do 5 de Outubro de 1910. Algo surpreendentemente, o Visconde de Santiago da Guarda aderiu, quase desde o primeiro momento, ao novo regime, que criticava tanto a Monarquia como os títulos de Nobreza que aquela nos últimos tempos distribuía a esmo.
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Alfredo César Lopes Vieira teve o título de Visconde dado pelo Rei D. Carlos, em 1906
Durante quase toda a Primeira República esteve ao lado dos Republicanos Democráticos, mostrando-se, apesar de tudo, uma figura conciliadora entre as várias partes em confronto, como sucedeu em 1919, quando o Pároco de Ansião foi expulso pela força.
No período da Primeira República, desempenhou os cargos de Presidente da Câmara e Presidente da Comissão Executiva, e, em 1914, foi o mais votado para assumir a Presidência da Junta Geral do Distrito.
Na sua qualidade de figura local de grande prestígio, a sua opinião era sempre tida em grande consideração, tanto pelos seus correligionários como pelos seus adversários políticos. Não surpreende, pois, que no conflito eminentemente político, que foi a expulsão do Pároco de Ansião, em 1919, o Visconde tenha tido um papel preponderante na resolução do caso.
O Visconde de Santiago era um dos maiores proprietários do Concelho e da Região. Era dono de vários imóveis urbanos na vila de Ansião, e proprietário duma grande área de terrenos na freguesia de Santiago. Nessa qualidade, e, sobretudo, na de empresário agrícola do concelho, foi premiado na Exposição Agrícola e Industrial de Leiria, em Setembro de 1916, com Medalha de Prata nos vinhos e derivados; Medalha de Cobre nas frutas, cereais, legumes e sementes; e Menção Honrosa nos vinagres.
A sua admiração pelas inovações técnicas, foi sempre uma característica que manteve. Foi dos primeiros homens da Região a ter automóvel, teve a primeira ligação telefónica do Concelho, a funcionar entre o seu Lagar e a casa de residência e, em Janeiro de 1914, resolveu instalar um moderno lagar de azeite, moagem e serração, movidos por máquina de vapor de alta pressão, em Santiago da Guarda.
Foi também com a sua complacência que chegaram a aterrar aviões, por mais de uma vez (nos anos de 1932 e 1933), no campo da Várzea. Numa dessas vezes, o avião permaneceu aí durante dois dias, obrigando a guarda permanente. Numa das autorizações de pagamento, deferidas em sessão camarária, diz textualmente o seguinte: «A Adelino Ramalho, regedor da Freguesia de S. Tiago da Guarda, 30$00 pela despesa feita com a guarda de um avião que aterrou e permaneceu dois dias no Campo da Várzea de S. Tiago».
No período inicial da Primeira República foi também empreiteiro de obras públicas. Nessa qualidade tomou a empreitada, no valor de 30 000 réis, de «reparos no caminho que liga a sede da freguesia de S. Tiago com o ramal da Venda do Brasil» (acta da sessão da Comissão Administrativa, relativa à sessão de 19.12.1912, fls. 69 e 69 v. Na acta da Comissão Executiva, de 8 de Abril de 1915, aparece também uma ordem de pagamento em favor do Visconde de Santiago, com a seguinte justificação: «a Alfredo Cezar Lopes Vieira, quatro centos escudos, segundo pagamento da sua empreitada do ano findo»). O movimento militar do 28 de Maio de 1926, vai destituí-lo da Presidência da Comissão Executiva do Concelho de Ansião.
Morreu aos 63 anos de idade, no estado social de solteiro. Vários periódicos trouxeram a notícia da sua morte, ocorrida no dia 19 de Fevereiro de 1936.
Na hora da morte, mostrou a sua benevolência, distribuindo a sua fortuna não só por pessoas da sua família, mas também pelos seus criados, e deixando a avultada quantia de 50 mil escudos para a construção de duas escolas na freguesia. O seu corpo encontra-se num jazigo do Cemitério de Santiago da Guarda.