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                                                                                                                                                                    Por Manuel Augusto Dias

TORRE DE VALE DE TODOS (2)

O povoamento da área que hoje integra a freguesia da Torre de Vale de Todos é contemporâneo da formação de Portugal. No contexto da Reconquista Cristã, quando os cristãos conquistavam território aos muçulmanos preocupavam-se, em simultâneo, com o seu povoamento e defesa. Ora, a entrega de terrenos de cultivo nesta região está devidamente documentada, e faz jus à existência de uma torre defensiva no local, que a toponímia da sede da freguesia conservou até aos nossos dias.

A sede da freguesia e campos envolventes vistos do ar (foto retirada do "Google earth")

Com o objectivo de mostrar que no século XII (e seguintes) já havia, nesta freguesia, propriedades cultivadas que eram transferidas de proprietário, ou simplesmente de cultivadores, por doação, contrato ou venda, socorremo-nos do livro de José Eduardo Reis Coutinho, Ansião / Perspectiva Global da Arqueologia, História e Arte da Vila e do Concelho, página 205 e seguintes.

Aí se refere, que em Janeiro de 1198, uma herdade situada no vale do Rio Torto foi vendida por um morabitino, preço que se declarou igual ao da compra.

Já no século XIII, se alude à Quinta de Vale de Todos que o Chantre de Coimbra, João Joanes, em Agosto de 1226, doou à Sé conimbricense, juntamente com outras propriedades, ficando a Sé beneficiada obrigada à celebração, todos os Sábados, de uma Missa de Nossa Senhora.

Na segunda metade do século XIII, Pêro Egas, Cónego da Sé, passou Carta de Foro, de uma herdade de Vale de Todos (chamada Vila Vegas) a seis casais para que a «agricultassem e bem frutificassem» com encargos semelhantes àqueles a que estavam sujeitos os cultivadores de outras herdades na região (Camporês, na freguesia de Chão de Couce; e Curcial, nesta mesma freguesia). Ainda no mesmo século, um dos Bispos de Coimbra (D. Egas Fafes), por testamento, deixou à sua Diocese seis casais que tinha em Vale de Todos.

Já no século XIV (Março de 1323), o Cabido da Sé de Coimbra, fez um contrato, por um período de 21 anos, com Afonso Peres (antigo criado do Chantre de Coimbra) segundo o qual, este tomaria conta das suas quintas no lugar de Vale de Todos «com suas casas, vinhas, cubas, montes, terras rotas e por romper, com todas as pertenças e seus direitos, com o dever de as manter em bom estado, lavrar e frutificar, fazendo todos os trabalhos agrícolas de podas, mergulhias, limpas, cavas e rendas, pela pensão anual de 150 libras de dinheiros portugueses, metade pela festa da Páscoa, e a outra metade pela de S. João Baptista, sem nunca venderem, darem, doarem, obrigarem, trasmudarem, nem de algum modo alhearem a dita quinta e seus referidos bens».

Trinta e seis anos mais tarde (1359), o mesmo Cabido fez um contrato de aforamento com vários moradores de Vale de Todos, com validade vitalícia e hereditária, dum campo «que foi vinha e que partia com as valas junto aos casais do dito lugar de Vale de Todos, o qual traziam de renda e que fora acourelada por João Peres Cavaleiro, pela renda anual de dois moios de pão: duas partes em trigo mourisco e uma em cevada, a pagar pelo S. Miguel de Setembro. Se vendessem a herdade, não o podiam fazer a pessoa mais poderosa que o cabido, e ficaria obrigada a dar o dito foro.»

Por último, refira-se o emprazamento de uma vinha, situada no lugar de Vale de Todos, «por detrás da Torre, até ao canto do Passo», feito, conjuntamente, pelo Arcediago de Penela e o Cabido da Sé de Coimbra, a dois casais moradores em Vale de Todos «e a todos os seus sucessores», estipulando como renda, a quarta parte dos cereais, no dia de S. Miguel, dois frangos e outras obrigações de acordo com os costumes do tempo.

Estes documentos são interessantes porque evidenciam a forma como a terra, na sua maioria apropriada por instituições eclesiásticas, ia sendo cultivada pelo povo, sujeito ao pagamento de rendas fixas, normalmente em géneros. Servem também para nos certificarmos dos vários produtos que então aqui eram cultivados, os cereais (trigo e cevada), vinho e azeite.