Uma semana em Taizé
No passado dia 20 de Agosto, partiu de
Coimbra um autocarro cheio de jovens, em direcção a Taizé, uma pequena aldeia
na zona oriental de França. Desses 40 e tal jovens faziam parte quatro jovens
pedroguenses. Pela frente tinham 2 dias e meio de viagem, ou seja, duas noites
no autocarro. Como consolação, tiveram uma tarde em Barcelona. Mas o verdadeiro
objectivo era Taizé.
Taizé é uma comunidade ecuménica
constituída por irmãos oriundos de mais de 25 países. Para entrar nesta comunidade,
os irmãos comprometem-se a viver na simplicidade, celibato e comunhão.
A comunidade vive apenas do seu
trabalho e não aceita qualquer tipo de donativo.
Todas as semanas esta comunidade acolhe
centenas de jovens vindos de todo o mundo. Em comum todos têm três objectivos
principais: o encontro consigo mesmo, com os outros e com Deus.
Ao partir para Taizé, os jovens
comprometem-se a viver, durante uma semana, apenas com o essencial, “uma vida
simples” e em completa comunhão com os outros.
A vida em Taizé é marcada pela
simplicidade. Os irmãos reúnem-se três vezes por dia para as orações. A oração
da manhã é às 8h 30 min, antes do pequeno-almoço. Às 12h30 min, antes do
almoço, é a oração da tarde. E, por fim, a última oração do dia, a oração da
noite, acontece às 20h30 min, depois do jantar.
Todas as noites, após a última oração,
quem o desejar, poderá ir ao encontro do irmão Roger, fundador desta
comunidade, para falar com ele ou simplesmente para receber a sua bênção.
A comunidade dá muita importância ao
tríduo pascal, pelo que, todas as semanas, à sexta-feira, sábado e domingo, as
celebrações têm algo de diferente. À sexta-feira, após a oração da noite, a
cruz é deitada no chão, para que se possa rezar à sua volta. Ao sábado, a
oração da noite é celebrada com a luz pascal. Recebe-se uma vela antes da
oração, que depois é acesa, como símbolo do Espírito Santo. Ao domingo, há a
Eucaristia que respeita todas as vertentes do catolicismo, uma vez que se trata
de uma comunidade ecuménica. É uma eucaristia muito bonita, com cânticos nas
mais variadas línguas, diferentes daqueles a que estamos habituados.
Além das orações, os jovens têm, todos
os dias, um pequeno trabalho e um momento de reflexão em grupo, a seguir à
introdução bíblica, feita por um dos irmãos. Ao fim da tarde, a partir de
terça-feira, há também workshops sobre os mais variados temas, nos quais os
jovens que assim o desejarem podem participar. Há ainda a hipótese de passar a
semana ou os últimos dois dias da semana em silêncio.
Todo o trabalho da comunidade é feito
pelos jovens. Trabalha-se na comunidade e para a comunidade, sem qualquer
remuneração ou proveito pessoal. E é curioso como tudo funciona. Aliás, Toni,
um dos nossos conterrâneos, dizia, depois de regressar a casa, que “é engraçado
como uma pessoa agora acorda na sua cama, às 11h, e sente saudades de ir limpar
as casas de banho”. Até as tarefas que parecem, a quem vê de fora, complicadas
ou ingratas, são proveitosas e até divertidas para quem as faz em Taizé.
As noites são, geralmente, passadas no
café Oyak, o único sítio onde, até às 23h30, se pode fazer barulho. É aqui que
se pode observar o intercâmbio de culturas em todo o seu esplendor, mas só até
às 23h30. A esta hora entram em acção os “go to bed”, que têm a ingrata tarefa
de “convidar” as pessoas a dirigirem-se para os seus “aposentos”, garantindo,
assim, o silêncio.
No meio de tudo isto, estabelecem-se fortes laços entre pessoas
completamente diferentes, com culturas completamente diferentes, de países
diferentes. Mas o importante é que aqui existe, de facto, respeito e
tolerância. Dez dias depois de ter saído de Coimbra num autocarro, na altura,
cheio de desconhecidos, sei que é possível viver num completo respeito pelas
diferenças culturais e em verdadeira comunhão. Antes, pensava que tudo isto era
uma utopia, mas esta semana ensinou-me que é possível, desde que todos façamos
um pequeno esforço para tal. Taizé é uma aprendizagem. Eu, que ia sem
expectativas, fiquei muito satisfeita e, tal como muitos outros, prometi
voltar. Aliás, as despedidas não foram “adeus, até uma próxima oportunidade”,
foram antes “até para o ano” ou “até Dezembro, em Lisboa, no Encontro Europeu
de Jovens”. É claro que, tentamos sempre manter o contacto. Antes das
despedidas há sempre a troca de moradas, e-mails e números de telefone. Porque
as ligações não podem ser cortadas assim de repente...
E, pronto, amigos, maiores que o
pensamento, aquele abraço... Amo-vos loucamente! (expressão-marca desta
peregrinação a Taizé)
Até Dezembro, em Lisboa, no Encontro
Europeu de Jovens.
Maura Bouça