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Por Manuel Augusto Dias
TORRE DE VALE DE TODOS (10)
A Capela de S. Jorge

No lugar de Vale de Todos, nesta freguesia, existe uma Capela, com adro murado na confluência das ruas principais da aldeia, cujo patrono é S. Jorge, e que se encontra inventariada pelo IPA (Instituto Português de Arqueologia).
São Jorge foi o santo padroeiro das Cruzadas que se dirigiram na Idade Média à Terra Santa, controlada então pelos muçulmanos. Chamava-se Jorge de Anicii, viveu no Império Romano do Oriente no tempo do Imperador Diocleciano que perseguiu os Cristãos e o fez mártir. É objecto de culto na Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha e Lituânia, além de ser padroeiro dos escuteiros. Nasceu na antiga Capadócia (Turquia) tendo-se mudado, mais tarde. Lá foi capitão do exército romano. Aos 23 anos passou a viver na corte imperial de Roma Quando Diocleciano se preparava para mandar matar os Cristãos insurgiu-se, no Senado contra tal desejo imperador. Acabou martirizado no ano 303.
Esta Capela, de nave única e Capela-Mor com Altar-Mor em nicho de cantaria policromada, terá sido construída no séc. XVI ou XVII, com obras de remodelação na primeira metade do séc. XVIII (1741). Já em finais do século XX (1991) sofreu obras de manutenção e transformação, com a remoção de pavimentos e entaipamento do vão de acesso ao púlpito.
O IPA faz a seguinte descrição do templo:
«Planta longitudinal simples, massa disposta na horizontalidade, cobertura em telhado de duas águas prolongando-se em aba corrida pela sacristia. Frontispício orientado de pano único aberto por porta de verga em arco abatido e pequeno óculo em losango, sobre a empena angular rematado por cruz eleva-se a sineira. Fachada S. de pano único com cornija saliente aberta por porta recta e janela ao nível da capela-mor. Fachada E. em empena angular cega. Fachada N. composta pelo volume destacado da sacristia aberto por porta com a data 1741 sobre verga, corpo correspondente à nave cego, de cornija saliente. INTERIOR: coro alto abre sobre nave única de pavimento em mosaico e tecto estucado em três planos; destaca-se o púlpito em pedra de base semi-circular com balcão almofadado assente em coluna. Arco triunfal pleno acede à capela-mor com altar em nicho pintado com paisagem ingénua e sem perspectiva, de montanhas, casas e ao fundo o mar sob céu onde brilha, entre nuvens, um sol de feições humanas. O arco pleno onde o nicho se inscreve apresenta ainda vestígios de policromia e tem num plinto a inscrição: "MANDADO [FAZER] / POR AUGU.O DUARTE / GADANHO". A imagem quinhentista do altar, de feição popular, da região, representa São Jorge a Cavalo; há ainda uma pequena escultura de pedra que figura Santa Alexandra. A iluminação do templo faz-se pelo pequeno losango do frontespício e fresta da capela-mor».
Sobre a razão de ser da Capela nesta localidade, o Prof. António Lopes do Rego dá a seguinte explicação (in Serras de Ansião, de 15/06/1991):
Resulta «de uma promessa feita em 1385, quando da Batalha de Aljubarrota. É que naquelas imediações acamparam as tropas de D. João I, que vindas de Coimbra e lugares limítrofes, se dirigiam para Tomar para se reunirem às tropas de D. Nuno Álvares Pereira, fronteiro-mór do Alentejo, em lugar ainda hoje assinalado à saída de Tomar.
As tropas de D. João I, onde acampavam, faziam sempre promessa de erigir Capela em honra de S. Jorge: assim sucedeu em Vale de Todos e, noutro lugar bem a sul de Chão de Couce.
Em mil seiscentos e tal o Bispo-Conde de Coimbra, mandou o Arcipreste da Mealhada visitar as capelanias ao sul de Coimbra para verificar do seu estado de conservação, e o relatório referente à Capela de S. Jorge era muito deprimente; tecto a meter água, soalho em péssimo estado e nem sequer tinha campainha para "tanger" à elevação do Senhor.
Esta informação foi lida por mim num manuscrito existente na casa de Lindos de Vale de Todos, há muitos anos, onde viveu o "Padre Jacob" (…)».