Conheça a Sua Terra

Por Manuel Augusto Dias

TORRE DE VALE DE TODOS (15)

"A Alma e a Gente"

O Professor Doutor José Hermano Saraiva gravou, no dia 23 de Novembro de 2006, o seu programa televisivo "A Alma e a Gente: Vamos descobrir Ansião" inteiramente dedicado ao nosso concelho, que foi para o "ar" no dia 10 de Dezembro de 2006, no canal 2, da RTP, com reposição na RTP Internacional, nos dias 9 e 13 de Janeiro de 2007 (para a emissão na Europa), no dia 10 de Janeiro de 2007 (para a emissão na Ásia) e 13 de Janeiro de 2007 (para a emissão na América).

Começou a gravar junto ao Pelourinho de Ansião, passando pela Ponte da Cal e pelo painel de azulejos evocativo da lenda da Rainha Santa e do Ancião.

Visitou, a seguir, o Solar dos Condes de Castelo Melhor e a respectiva "villa" Romana, que surpreendeu o Professor. O périplo seguiu depois até à Igreja de Nossa Senhora da Graça, na sede da freguesia da Torre de Vale de Todos, onde foi analisada a valiosa riqueza iconográfica, com destaque para a imagem de Nossa senhora da Graça de João de Ruão, mas também o importante papel do "vale de todos" que a toponímia manteve até aos nossos dias.

Todo o país ficou ciente dos riquíssimos patrimónios histórico, gastronómico e natural e paisagístico que caracterizam a nossa região

Nossa Senhora da Graça teve merecido destaque no programa da RTP "A Alma e a Gente: Vamos Descobrir Ansião"


Nunca o nome da Torre de Vale de Todos chegou tão longe. Vamos recordar aqui, as palavras que Prof. José Hermano Saraiva proferiu, nesse programa, acerca deste lugar e do queijo do Rabaçal tão típico da nossa região:

«(…) Há aqui perto uma região que se chama, imaginem, nem mais nem menos que
"Vale de todos", vamos ver o "Vale de Todos".

O Vale de Todos é uma grande extensão de terreno, cerca de 4 quilómetros, e que tinha aqui uma povoação, a povoação chama-se Torre de Vale de Todos. Havia uma grande torre, provavelmente daquelas torres medievais para defender o território, uma torre de olhar ao longe, hoje não há vestígios dessa torre. O que é curioso é que aqui nesta região, que era para todos, os povos uniram-se para fazer uma igrejinha, uma pequena igreja, e no século XVI adquiram uma imagem de Nossa Senhora da Graça dum grande mestre da época, um João de Ruão, é uma das mais famosas peças do grande mestre de Coimbra João de Ruão. Está aqui na nossa frente, uma peça de pedra, enorme, é curioso como esta gente humilde, pobres agricultores, conseguiram ter um poder para trazer uma peça que já naquela altura, claro, era valiosíssima. Isto é da Escola de Coimbra e foi certamente trazido de Coimbra até aqui. A igreja conserva outras peças muito interessantes, esta Trindade é uma coisa dos fins do
século XV, princípios do século XVI.

Quanto ao vale propriamente, eu gostava muito de o mostrar, mas não calculam a névoa, a névoa densa que nesta altura se pôs, enfim, e mostrar nevoeiro não vale a pena. Vamos portanto terminar o nosso programa a falar de coisas, coisas de agora, coisas aqui de Ansião.
Com este cair da tarde o tempo piorou, e eu, olhem vim-me esconder aqui no Posto de Turismo de Ansião e ainda bem que vim. Ainda bem que vim, porque juntam-se aqui as coisas já únicas, já únicas que há no concelho. Até vi ali o slogan, o slogan turístico é "Ansião um concelho a descobrir". Li e as senhoras desculpem-me, mas eu não concordei, descoberto já ele está, um concelho descoberto, Ansião é efectivamente um concelho com um atractivo raro, com coisas que já não há em parte nenhuma, bom, está descoberto, o que se pode dizer é, um concelho a inaugurar, é preciso vir para aqui gente, mais gente do que vem. Há aqui coisas,
estou aqui junto de especialidades daqui, coisas antigas, os saquinhos, vejo os saquinhos com que os meninos vão para a escola, antigamente eram feitos destes trapinhos que, era, era o resto das blusas, dos bibes, ainda há aqui, ainda se fazem e usam, fazem e usam as velhas mantas, as mantas de trapos, é claro na roupa que já não se usava era transformada em fio e desse fio era feita uma manta, há que tempos que eu não via uma manta de trapos que ainda aqui há quantas se queiram. Bom, agora, a grande, a grande realidade e única aqui de Ansião é o Queijo do Rabaçal. Parece mal dizer isto porque o Rabaçal não é aqui dentro do concelho, mas é aqui muito perto. Bom, o que se passa é isto, os produtos têm o nome da terra onde se vendem, não é onde se fazem, toda a gente sabe, toda a gente ouviu falar no Vinho do Porto, e ninguém nunca viu uma vinha no Porto, o Porto é onde se vende o vinho. Bom, o Rabaçal era a aldeia onde se vendia mais este queijo, agora ele fazer-se era aqui nestas encostas íngremes da Serra do Sicó. Isso é importante porque nessas encostas dava-se uma planta, chamavam-lhe a erva-de-santa-maria, uma planta muito aromática, bom, no fundo é o tomilho, mas o nome local é erva-de-santa-maria. Bom, e os rebanhos, rebanhos de ovelhas e cabras comiam aquela erva-de-santa-maria. Isso dava um queijo único, um queijo único, eu tenho aqui alguns, está aqui alguns, queijos, é um queijo pequeno. Bom, este queijo é tão bom ou tão mau que quando o nosso Eça de Queirós regressou lá de Paris e veio à sua terra, escreveu isto na "Cidade e as Serras", "o Queijo do Rabaçal e o Camember educam o paladar" quer dizer comparou este queijo ao famoso Camember, poucos portugueses sabem   isso e estou convencido que há muita gente que nunca provou um verdadeiro Queijo do Rabaçal, porque há ai muito queijo que fala em Rabaçal, mas não tem nada a ver com isto, há
até uma quadra popular que, que diz a verdade "o Queijo do Rabaçal tem uma fama afamada,  e à revelia dele se vendem queijos que não valem nada". É verdade, este nome do Rabaçal foi tão prestigioso que hoje em muitos sítios se faz um queijo e diz-se "tipo Rabaçal". Realmente não é, não há tipos, porque o problema todo está na, no leite, esta mistura do leite da ovelha e da cabra, à cabra chamam aqui e isso é muito bonito, a vaca dos pobres, isto era uma terra de pobreza, é evidente, a vaca dos pobres, e essa mistura com a erva de Santa Maria dá este queijo precioso, é claro que há aqui muito mais coisas. Eu aqui por exemplo vim encontrar uma coisa que eu não via há tanto tempo, isto é o pão centeio, era o pão que os pobres comiam, quando o comiam, aqui a cozinha, a culinária, é a culinária antiga, uma coisa aqui famosa é o aferventado, são as couves, a couve de repolho, cozida, enfim, com força, depois fica desfeita e depois misturava uns nacos de broa, era a comida dos pobres. Há aqui imensas coisas para ver e eu penso que uma terra destas tem necessariamente um grande futuro turístico.
Infelizmente hoje este tema, esta névoa densa que se pôs não me deixou mostrar a paisagem deslumbrante, os vales verdes, os Arroios a cantar, de pedra em pedra, aqui entre os doces das montanhas, isto é efectivamente um paraíso. Um paraíso, repito, um paraíso à espera de que alguém se lembre de o inaugurar.»