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Por Manuel Augusto Dias
TORRE DE VALE DE TODOS (6)
Polémicas durante a 1.ª República
Tanto em lugares grandes como pequenos foram frequentes, no período da 1.ª República, situações de conflituosidade aberta entre republicanos e padres. Efectivamente, os republicanos tiveram quase sempre uma atitude anticlerical, fosse porque normalmente os religiosos têm comportamentos anti-revolucionários, fosse porque os republicanos históricos não eram homens de grande fé nem de profunda cumplicidade religiosa.
As pensões aos Padres, propostas pelo Governo Republicano (e que vários sacerdotes do concelho de Ansião aceitaram), a "nacionalização" de bens da Igreja e a Lei da Separação da Igreja do Estado, aprovada logo em 1911, só serviram para agravar mais uma relação que já se previa, desde Outubro de 1910, muito complicada.
Noutros escritos, já tivemos oportunidade de relatar os acontecimentos de Ansião, quando o respectivo Pároco, de candeias às avessas com os republicanos locais, foi expulso, pela força, daquela Paróquia. No Avelar também se registaram problemas graves com o Pároco.
Na Torre de Vale de Todos não se chegou tão longe, mas também houve pequenas quezílias, que vieram nos jornais e, a seguir, se referem.
No jornal "União Figueiroense" de 25 de Outubro de 1917, página 1, publica-se uma carta proveniente da Torre de Vale de Todos, datada de 15 de Outubro daquele mesmo ano, onde se escreve o seguinte:
«Ao jornal de V. Ex.ª recorro por assim ser forçado em vista de S. Ex.ª Reverendíssimo Bispo Conde não tomar providencias sobre uma queixa grave que lhe apresentei sobre o pároco desta freguesia.
Começo pela publicação da carta que lhe envio e a seguir irá a queixa e tudo mais que a ela se liga.
Ex.mo Reverendíssimo Senhor Bispo Conde / Há perto de um mez que tive a honra de mandar a V. Ex.ª Reverendíssima uma acusação contra o Reverendo Pesito pároco da Torre de Vale de Todos e como até hoje me não conste ter seguimento e eu precise de me desafrontar do titulo de caluniador que ele me assaca, venho dizer a V.ª Ex.ª Reverendíssima que preciso provar o que afirmei com as testemunhas citadas.
Beija o anel de V. Ex.ª quem se confessa ser / De V. Ex.ª / Servo muito reconhecido / Bernardino Pedro».
Já no mês seguinte, o mesmo jornal, em 29 de Novembro de 1917, na página 2, publica nova carta, subscrita pela mesma pessoa.
«Em harmonia com a minha local neste jornal vamos começar a publicação de actos praticados pelo reverendo Pinto por infelicidade paroco desta freguesia.
O reverendíssimo Bispo Conde, deixa-se iludir por informações.
Assim, o tribunal da opinião pubica será o juiz.
Como católicos que somos julgávamos que a justiça de Deus era feita sem favor, mas vejo que sua ex.ª reverendíssima também obedece a pedidos.
Há tempo o reverendo padre Pinto, encontrando a minha filha – diz-lhe – Tu hás-de casar com um burro e tua irmã com outro burro!
Uma frase assim pronunciada por um representante de Cristo é bonita?
Mas ainda veio gabar-se da sua exemplar acção perante António Joaquim Freire, António Mendes Grunho, José Maria da Ascensão e mulher, José dos Santos, todos da freguesia da Torre.
A seguir também dissemos as suas célebres cantigas numa taberna nesta freguesia, cantigas que faziam corar de vergonha qualquer pessoa até das mais livres de linguagem.
Depois diversos actos praticados pelo celebre reverendo pároco que constam da queixa com testemunhas indicadas.
Não desejo senão justiça e essa será feita porque em breve se providencias não forem tomadas…
Ainda no domingo no acto da missa fique a sua ex.ª reverendíssima sabendo se gabou que V. Ex.ª não fazia caso de queixas contra ele!
Isto é uma vergonha Reverendíssimo senhor, homem assim a paroquiar só serve para demolir a fé dos católicos. / Torre de Vale de Todos, 21.11.917 / B. P.».
Dois anos mais tarde, em Novembro de 1919, a imprensa republicana dá relevo a mais uma polémica entre o Pároco da Torre de Vale de Todos, P.e Joaquim de Almeida Pinto e um velho republicano local, José Pires Arnaut, precisamente o Regedor da Freguesia.
O motivo da discórdia resultou do itinerário da Procissão da Festa da Torre de Vale de Todos que o Padre não permitiu que passasse por baixo de um arco onde se encontrava a bandeira nacional.