Por Manuel Augusto Dias
TORRE DE VALE DE TODOS (7)
A explicação da devoção a Nossa Senhora da Graça
| Uma vez que as festas do Concelho
ainda estão bem frescas na memória de todos, vem, a propósito, recordar um artigo que
foi publicado no "Serras de Ansião" por ocasião das festas de Ansião de 1966,
onde se narra a história ou lenda que explica a devoção a Nossa Senhora da Graça, na
sede da freguesia da Torre de Vale de Todos. O autor, que assina sob pseudónimo, mas julgo tratar-se do Prof. António Lopes do Rego, diz que a devoção à Senhora da Graça resultou da promessa de um marinheiro que acompanhou o famoso descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral. No artigo não se diz qual é o seu nome e eu também não o sei. De qualquer modo não seria de estranhar que fosse um tal "Fulano Antunes" de que fala o Inquérito Paroquial de meados do século XVIII. Quando é perguntado ao Pároco "Se há memória de que florescessem na terra ou dela saíssem alguns homens insignes por virtude das letras ou das armas?", responde: «Não há notícia nem memória, que florescessem, nem saíssem desta terra e freguesia homens insignes em letras e virtudes; somente consta, que deste lugar da Torre saíra um maltês chamado Fulano Antunes». |
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Mas vamos à transcrição de uma parte do referido artigo, intitulado "Torre de Vale de Todos":
«Freguesia modesta, tão modesta que por vezes se torna esquecida E se não totalmente porque lá está, bem à vista dos grandes da Vila, a sua torre sineira a dominar, do alto, as cercanias, a fazer ouvir a "voz" altiva do seu "sino grande" e a lembrar aos quatro ventos e aos esquecidos que por ali há vida, há tradição de 800 anos!
E que as graças de Nossa Senhora da Graça se espalham "ubi et orbi" desde que aquele embarcadiço das naus de Pedro Álvares Cabral orou junto da imagem de Nossa Senhora da Esperança e fez promessa de na sua aldeia da Torre de Vale de Todos, impôr, em altar, à veneração dos vindouros imagem semelhante se lhe fôsse concedida a graça de ali voltar.
A graça foi concedida e cumpriu-se o voto em 1537. A imagem foi encomendada a João de Ruão que pelo trabalho escultórico e pintura recebeu 5.000 réis.
A igreja onde esta imagem se venera havia sido concluída pelo povo um ano antes (1536). Esta data poderá verificar-se em pedra existente no arco da capela do altar-mor, logo que se retire a pintura inestética que a esconde.
Desde que a imagem de Nossa Senhora da Graça foi considerada protectora das gentes da Torre de Vale de Todos, ninguém mais abandonou o seu lugar sem que levasse no coração e na bagagem bem gravada aquela Senhora da Graça, que seria e será sempre a auxiliadora do bom combate às vicissitudes da vida ou das empresas em que cada um se lança para além daquele nosso mar e naquelas Terras de Santa Cruz, onde um dos primeiros marinheiros a chegar era da Torre.
O regresso era um louvar de graças conforme as posses amealhadas. Missa de grande coral, sermão de circunstância, bom fogo de lágrimas ou simples missa rezada. E sempre por lá e por cá o desejo de enaltecer a terra que os viu nascer através de obras de conservação da sua igreja, mais o relógio da torre, mais um sino grande o maior das redondezas mais um altar, mais o embelezamento dum adro mais um depósito para a água para dessentar os romeiros. Ainda o restauro de umas "Alminhas", mais um Cruzeiro mais a conservação ou ampliação da capela do orago do lugarejo, mais a festa a São Jorge que se venera em velha mas conservada capelinha, desde a idade média e que é marco a atestar o patriotismo das gentes dos termos de Penela, quando os soldados de João I por ali acamparam a caminho de Tomar para ali se juntarem às hostes de Dom Nuno Álvares Pereira.
Os pergaminhos da Torre de Vale de Todos e até a beleza "sui generis" que encerra o triângulo Ansião-Lagarteira-Torre, mereciam uma olhadela mais complacente por parte da edilidade.
Esta olhadela não só traria benefício às duas freguesias como deles outros se vincularam à própria sede do concelho.
E por hoje aqui nos ficamos.
A Nossa Senhora da Graça uma prece de auxílio para todos aqueles que mourejam e batalham em longes terras da América e da África para que regressem ou nunca esqueçam a terra que os viu nascer e lhes encaminhou os primeiros passos na vida.»